segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Trabalho escravo migra à zona urbana

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 04/02/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Combater o trabalho em condições análogas à escravidão ainda é um dos grandes desafios do Brasil. Especialmente no Pará, que ano após ano figura entre os estados com maior registro de casos. Somente no ano passado, 28 estabelecimentos foram inspecionados e 36 trabalhadores foram encontrados em condições de escravidão. Em 2014, os números foram maiores, com 121 pessoas flagradas em condições análogas à de escravo. No entanto, a redução na quantidade de ocorrências é vista com muita cautela pelas entidades envolvidas no enfrentamento da prática, pois refletem muito mais as dificuldades de fiscalização do que a erradicação dessa realidade. Os dados são do último balanço divulgado pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS).
O presidente da Comissão de Combate ao Trabalho Forçado da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Pará (OAB/ PA), Giussepp Mendes, afirma que é importante entender a dinâmica da escravidão moderna, incluindo suas repercussões sociais. “Boa parte da sociedade ainda tem aquela visão estereotipada de um trabalhador mais velho, analfabeto, acorrentado, sujo, na carvoaria ou em outras atividades da zona rural. Apesar de ser uma área que ainda concentra muitos casos, o trabalho em condições degradantes tem migrado para a zona urbana”, comenta. 
De fato, 61% dos casos de vítimas de trabalho escravo no Brasil foram identificados em espaços urbanos, principalmente nos setores de construção civil e produção têxtil. Ainda que as vítimas, no geral, sejam pessoas de baixa escolaridade, ele chama a atenção para o aumento de imigrantes e refugiados. “Esse fenômeno já está sendo observado em alguns estados, mas no Pará ainda não temos um estudo do número de trabalhadores nesse perfil”, complementa. Mendes ressalta que o cerceamento da liberdade pode se dar por razões financeiras, morais ou físicas. “Quando um trabalhador vem de outro  estado, já chega devendo para o patrão e não tem como retornar. A contenção física é o tipo de situação que menos se vê. Muitas vezes, o homem que passa por isso desconta em casa”, pontua.
Segundo ele, é comum encontrar nas famílias desses trabalhadores casos em que os filhos são obrigados a sair da escola e ir trabalhar ou pedir esmola na rua para complementar a renda. O consumo de drogas e álcool também é um fator frequente, assim como a violência doméstica. “Quem se submete a isso, o faz por uma necessidade alimentar, de sobrevivência. Se não houver orientação e assistência para a reintegração dele ao mercado de trabalho, pode voltar para o mesmo cenário”, acrescenta. Nos últimos dois anos, a ação dos fiscais do MTPS no Pará promoveu a formalização de
251 contratos de trabalhadores que não tinham carteira assinada.
Mendes acredita que a sociedade civil e o poder público precisam exercer um olhar mais amplo em relação às jornadas extenuantes e condições degradantes de trabalho, que afetam um grande universo de empregados mesmo na Região Metropolitana de Belém. “Os dados recentes não traduzem muito bem a realidade do Estado. Não se tem informações reais do alcance dessa nefasta forma de trabalho. Ainda é preciso avançar muito e montar um grande colegiado para realizar um combate mais efetivo”, avalia.

“Escravo, nem pensar!” aposta na conscientização para combater a prática

Além da repressão através das operações de fiscalização e flagrante, há uma ação relevante a ser feita na outra ponta: conscientizar. Por meio do programa “Escravo, nem pensar!”, realizado pela organização não-governamental (ONG) Repórter Brasil, mais de 35 mil estudantes foram alcançados em 11 municípios do sul e sudeste paraense, localidades escolhidas justamente pelo alto índice de trabalho escravo. A entidade, com sede em São Paulo, promove iniciativas sociais e ambientais em todo o Brasil e desenvolveu o combate à prática durante um ciclo de atividades pedagógicas entre 2014 e 2015. Natalia Suzuki, coordenadora do projeto, explica que o objetivo é disseminar a informação em regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica.
Com a implantação do programa, 1,3 mil educadores e gestores passaram por formações sobre o tema e elaboraram atividades pedagógicas que foram aplicadas em 181 escolas, abrangendo desde o ensino infantil até o ensino técnico e Educação para Jovens e Adultos (EJA). “Os professores e coordenadores entendem que esse é um problema muito próximo e evidente na região. Tem impacto direto dentro do ambiente escolar, pois alunos mais velhos podem ser aliciados ou têm familiares e amigos nessa situação”, alerta. Além disso, a metodologia enfatiza o aprendizado crítico sobre direitos humanos, como  uma forma de evitar que futuramente eles se submetam a situações de exploração.
Prova de que o tópico precisa entrar nas salas de aula é que os municípios de Jacundá e Nova Ipixuna incluíram o assunto no Plano Municipal de Educação (PME), garantindo que ele será abordado nos próximos 10 anos. Os alunos produziram textos, poesias, desenhos, dramatizações, maquetes, pintura de muros, feiras culturais, seminários, debates e mesas-redondas, mobilizando a comunidade escolar, os pais, entidades da sociedade civil e agentes de outras instituições públicas. De acordo com Natália, o primeiro ciclo do programa chegou ao Pará em 2006 e, nos sete anos que se seguiram, 22 mil alunos foram beneficiados.
“Foi quando decidimos mudar a nossa metodologia e investimos na formação continuada de professores e gestores da rede pública. A resposta foi muito positiva. Em dois anos conseguimos atingir mais do que o dobro do que nos ciclos anteriores”, comemora. As atividades foram encerradas oficialmente no final do ano letivo de 2015, mas a ONG está em fase de estudos e captação de parcerias para definir em que cidades serão feitas as formações do próximo ciclo. “Nossa expectativa
é ampliar, inclusive para a Região Metropolitana de Belém e áreas insulares, onde sabemos que o tráfico de pessoas para exploração sexual é uma questão grave. Também damos ênfase a esse problema no projeto”, assegura.
Natália defende que a informação é uma arma fundamental para que o público esteja menos vulnerável. “Eles precisam conhecer os riscos de uma proposta de emprego enganosa e saber identificar os aliciadores. Se forem convidadosa sair da cidade, aceitar apenas se souber o nome exato do lugar para onde está indo, deixar contatos com a família e assegurar a assinatura de um contrato ou da carteira”, orienta. Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Comissão Pastoral da Terra são alguns dos parceiros do projeto e os 11 municípios envolvidos foram Canaã dos Carajás, Curionópolis, Itupiranga, Jacundá, Marabá, Nova Ipixuna, Palestina do Pará, Parauapebas, Piçarra, São Geraldo do Araguaia e Tucumã.
A professora Luciete Moreira é coordenadora pedagógica da secretaria municipal de educação de Jacundá conta que, com as atividades do “Escravo, nem pensar”, eles passaram a receber denúncias de alunos. “Trabalhando sobre o tema, pudemos detectar estudantes que já tinham passado por trabalhos análogos à escravidão e outros que tinham conhecimentos de casos semelhantes. Afinal, eles veem muito essas situações aqui no local. Ainda acontece principalmente no campo”, relata. No município, o programa começou a ser realizado em seis escolas, mas hoje já está em 23 unidades de ensino urbanas e duas rurais.

Números menores não significam que atividade foi reduzida no Pará

O enfrentamento esbarra, ainda, na falta de estruturação dos órgãos responsáveis. A constatação é do auditor fiscal Raimundo Barbosa da Silva, coordenador de Fiscalização Rural e Combate ao Trabalho
Escravo no Estado, da Superintendência Regional de Trabalho e Emprego (SRTE Pará). No Estado, a categoria deflagrou greve há 10 dias e muito da insatisfação dos profissionais está ligada aos obstáculos para atuarem de forma mais eficaz. “É necessário olhar com cuidado os relatórios divulgados. Os números menores não significam que a prática reduziu no Pará, mas sim que estamos
com equipes reduzidas para fiscalizar”, argumenta.
Ele aponta que, em 20 anos, a quantidade de auditores fiscais no Estado caiu de 170 para 60. No Brasil, a queda foi de 3.600 para 2.400, com possibilidade de 400 aposentadorias até o fim deste ano. “Ano passado, tínhamos doze operações conjuntas de combate programadas, mas só conseguimos realizar uma, por dificuldades de articulação e de condições de trabalho. Em anos anteriores, chegávamos a 20, 30 operações. Para atuar em um território tão extenso, é preciso ter mais estrutura”, frisa.
O monitoramento de rotina é uma ferramenta eficaz para coibir a prática, mas falta pessoal. “Precisamos urgentemente de um concurso para auditor fiscal, no máximo dentro de 2 anos. Outro passo inicial é o fortalecimento de estruturas do SRTE. Temos problemas sérios com os prédios-sede em Belém, Santarém e Marabá, que foram interditados pela precariedade. Faltam coisas simples como material de expediente, tem linhas telefônicas com defeito há dois anos, o que dificulta a realização de denúncias” , critica.
O juiz Pedro Tupinambá, titular da 3ª Vara do Trabalho de Marabá e presidente da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região (Amatra8), também salientou a preocupação da classe com o corte de 30% no custeio e de 90% de investimento na Justiça do Trabalho. “Chegamos a realizar varas itinerantes para ir até locais mais distantes, facilitando o acesso do trabalhador ao judiciário. Mas essas reduções na verba provavelmente vão impedir a instalação de uma vara trabalhista em São Félix do Xingu, uma grande área de conflito, e vai dificultar a atuação das varas itinerantes. Os órgãos de fiscalização precisam estar aparelhados para ampliar e melhorar a fiscalização”, diz. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Arte dá visibilidade aos ribeirinhos

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 28/01/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação


Cortando a Baía de Guajará e entrando pelos furos e igarapés, quem navega pela Ilha do Combu vai ver surgir as obras de arte de Sebá Tapajós, 30, por entre a mata que cerca as moradias dos ribeirinhos. O artista visual e grafiteiro resolveu aproveitar a comemoração dos 400 anos da capital paraense para prestigiar a população de uma outra Belém: a cidade insular que tem uma realidade bem distinta do continente. Nas fachadas das casas de madeira estão expostos os grafites feitos por ele e por outros artistas, formando a primeira galeria de arte fluvial do mundo. O projeto Street River foi montado para dar visibilidade às comunidades das ilhas por meio da arte e Sebá busca formas de dar continuidade e garantir um retorno social aos moradores.
Interessado pela arte e apaixonado pela região amazônica desde a infância em Santarém, Sebá viu na ideia de fazer uma galeria a céu aberto uma oportunidade de beneficiar quem vive no local. A primeira fase foi realizada em março de 2014, quando ele começou a dialogar com os habitantes e trabalhadores da área para pintar suas casas e barcos. Com tudo organizado de forma independente, as pinturas inspiradas no movimento dos rios e na floresta foram se espalhando, encravadas pela ilha. Nos dias 16 e 17 deste mês, ele pegou o barco junto com grafiteiros convidados de várias partes do país e atravessou a baía, com o objetivo de aumentar o “acervo” do furo Igarapé Combu, uma das quatro comunidades da Área de Proteção Ambiental da Ilha do Combu e que reúne cerca de 200 famílias que vivem do extrativismo vegetal e da pesca.
No fim de semana do evento idealizado pelo artista, sete novas casas foram coloridas, totalizando 12 residências grafitadas no Igarapé Combu. “Ao todo, tem umas 20 obras espalhadas pela ilha, fora os barcos. As pessoas estão sendo muito receptivas, uma característica do povo amazônico e o projeto está ganhando uma repercussão enorme. Essa é a hora de não só chamar a atenção para o grafite, mas para fortalecer a dignidade dos ribeirinhos”, afirma. Ele comenta que o Street River foi um investimento financeiro – tudo foi custeado pelo próprio Sebá, que aplicou em torno de R$ 30 mil na ideia - mas também de sentimento e de responsabilidade social.
“Fiquei muito incomodado ao ver que as programações do aniversário de Belém neste ano foram pensadas somente para os habitantes da cidade no continente e esqueceram, mais uma vez, os povos tradicionais. Aqui [no Combu], as dificuldades são grandes para conseguir educação, saúde e saneamento adequados”, critica. A inquietação do grafiteiro é antiga e o faz pensar na arte como uma ferramenta de inclusão social. Sebá morou em várias cidades brasileiras, passando pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e alguns meses na Europa. Há cinco anos, decidiu se fixar em Belém e o bairro do Reduto, zona portuária da cidade, se tornou um de seus espaços de experimentação.
Em 2014, ele promoveu o Reduto Walls como uma forma de ressignificar os ares do bairro, com a parceria de artistas nacionais, contribuindo para que a capital despontasse no cenário mundial do street art. “O Reduto é um dos bairros com maior índice de assalto. A preocupação social faz parte da minha formação, dei aulas para menores infratores no Rio e em Belém e essa experiência me mostra que ocupar a cidade com arte pode gerar uma consciência social ou até atrair investimentos para uma revitalização”, exemplifica.
Das ruas de asfalto para os rios que são as nossas ruas, ele manteve essa mentalidade na elaboração do Street River, que levou os artistas renomados Fael Primeiro (BA), Kajaman (RJ), Mundano (SP), Toys e Omik (DF), o coletivo Acidum Project (CE) e Gaspar (PA). Eles também abriram, gratuitamente, para um público de quase 90 pessoas que foi junto para conhecer a galeria e ver os grafiteiros em ação. “O projeto repercutiu bastante por causa da vivência proporcionada. Belém possibilita essa experiência de pegar um barco, ser bem recebido pelas famílias da comunidade e pintar em contato com a natureza, agregando valor à arte e ao ambiente”, pontua. 
Sebá é contundente ao dizer que não aceitou apoio do poder público para o Street River, pois percebeu, na conversa com os ribeirinhos, um descrédito em relação a iniciativas públicas. Em relação ao setor empresarial, ele acredita que a história pode ser diferente. “Conseguindo parcerias privadas, a verba seria usada para bancar os custos do projeto e tudo o que sobrasse seria aplicado em alguma necessidade da comunidade. Quando se fala em responsabilidade social, muitas empresas pensam logo em educação ou outras áreas, mas a arte é um poderoso instrumento de transformação e esse projeto se propõe a fazer algo concreto pelos moradores, visando melhorias que permaneçam na Ilha”, defende.

Grafiteiros elogiam a inusitada experiência que tem o rio como palco

Os artistas Tereza Dequinta e Robézio formam o coletivo de arte urbana Acidum Project, de Fortaleza, e ficaram responsáveis por pintar três lugares. A casa e o depósito de cacau da moradora mais antiga do furo, a dona Angélica Quaresma, e a sede da biblioteca comunitária que fica bem ao lado. O resultado foi uma linda explosão de cores para os moradores e visitantes, bem como uma experiência diferente de interação para a bagagem cultural dos grafiteiros, que destacaram o surgimento de novas atividades econômicas a partir do Street River.
“O projeto em si é inédito, por ter os rios como palco, mas não se trata de só vir pintar. Vejo como uma ação de inclusão social, pois movimentou a comunidade. Já tem barqueiros fazendo visitas guiadas pela galeria. Além do embelezamento, ele fortalece as conexões entre esses dois ambientes da cidade”, observa Tereza. Ao todo, ela e Robézio gastaram um dia em cada grafite, que é o tempo médio para a realização de uma obra no projeto, sempre abastecidos pelo saboroso café da dona Angélica, de 90 anos.
Figura conhecida no furo Igarapé Combu, até mesmo pelo tamanho da família Quaresma, ela conta que ficou até um pouco mais “famosa” depois que a propriedade recebeu “uma pintura tão linda”. De um tempo em que, ela jura, a mata da Ilha era habitada pelos personagens dos mitos amazônicos, dona Angélica nem pensa em trocar o Combu pela cidade. A construção de escola, de posto de saúde e a chegada da energia elétrica na região foram os principais avanços, mas ela está atenta para uma mudança na rotina que pode se intensificar com a realização do Street River. 
“Aparece gente de todo o canto do mundo por aqui, eles vêm curiosos para conhecer como a gente vive e a arte que deixaram vai chamar mais atenção. Junto com projetos desse tipo, e com o aumento dos visitantes, precisava vir mais assistência do governo”, diz. Assim como ela, todos os moradores que participaram confiaram nos artistas e deram passe livre para a criação, sem dar palpites. Sebá, que inclusive é daltônico, costuma pintar somente obras abstratas, mas chamam a atenção os imensos retratos de personagens locais, inspirados nos índios e caboclos da Amazônia.
Um deles é o rosto da dona de casa Leonice de Souza, 75, nascida e criada na Ilha. De início, ela não gostou da ideia, mesmo com os filhos e netos tentando convencê-la. “Acabou que eles pegaram uma foto minha escondidos e deram pro artista. Quando eu vi, fiquei surpresa, mas não tinha como ficar chateada porque sou louca por eles e porque a pintura ficou muito bonita”, admite, em tom afetuoso. O grafite na casa dela é de autoria de Sebá e Gaspar. Para ela, o projeto prestigia as famílias locais e valoriza as casas. “Muita coisa melhorou por aqui. Antes a gente vivia totalmente isolado e o acesso a serviços era bem mais difícil. Só que ainda falta melhorar muita coisa e a gente espera ser mais lembrado pelos órgãos públicos”, acrescenta.
Ari Gomes, 48, trabalha com colheita de açaí durante a semana e como barqueiro aos finais de semana e feriados. Ele não é tão otimista como as vizinhas Angélica e Leonice e tem uma visão mais crítica da situação do Combu, onde mora há duas décadas. Em todo esse tempo, as melhorias chegam muito lentamente. “O pior problema para nós é a saúde. Temos um posto para nos atender, mas funciona só no turno da manhã e ainda fecha aos finais de semana”, reclama. Outras deficiências são o abastecimento de água, a coleta de lixo e a falta de saneamento.
Como muitos ribeirinhos, Ari precisa atravessar para a cidade para comprar água mineral ou esperar o vendedor que passa duas vezes por semana com os galões de água potável. É uma dificuldade muito grande implantar poços, sistema de captação da água da chuva, fossas sépticas. O incentivo do governo é praticamente zero e os poucos projetos sociais que aparecem não conseguem se manter por muito tempo”, completa. Familiarizado com as obras do Street River, que possuem placas informativas na frente de cada casa, e com os moradores da comunidade, Ari espera ver um crescimento na renda das famílias.
“Para conhecer as pinturas, a pessoa explora mais o Combu, descobre outros bares e restaurantes... As famílias aproveitam e trazem frutas ou outros produtos para vender na margem, e os barqueiros tem mais um atrativo para mostrar e levar os passageiros”, avalia. Sebá garante que o projeto está apenas no início e quer instigar o interesse de uma parcela cada vez maior da sociedade. A próxima meta dele é concretizar os planos de, ainda nesse ano, mobilizar artistas internacionais para tornar a galeria ainda mais rica e diversa, além de consolidar a Amazônia na rota do grafite mundial.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Entre o saber tradicional e o acadêmico

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 21/01/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação

A Reserva Extrativista Marinha (Resex) de São João da Ponta, município paraense que fica a 130 km da capital, abrange uma área de 3.400 hectares e as principais atividades econômicas das comunidades são a extração do caranguejo e a pesca. Para as cerca de 400 famílias que tiram de lá o seu sustento, é fundamental conhecer bem o ciclo da maré, pois é ela que dita a rotina. Foi daí que surgiu o nome do projeto “Maré Solidária”, desenvolvido na região pela Universidade da Amazônia (Unama) como uma forma de abrir as fronteiras entre o saber tradicional e o meio acadêmico. 
A iniciativa foi lançada em outubro e conta com a parceria da Associação dos Usuários da Resex (Mocajuim) e do programa “Jovem Protagonista, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O objetivo é promover a responsabilidade socioambiental, trabalhando para capacitar e ampliar o conhecimento dos moradores da reserva. Em quatro meses de existência, já foram realizados cinco módulos e mais de 250 pessoas foram atendidas com serviços prestados por docentes e alunos da Unama.
O professor Igor Charles, coordenador do curso de Geologia e do projeto, explica que as formações ocorrem todo mês e são feitas em eixos temáticos. O cronograma vai até o mês de junho, mas há planos de levar o “Maré Solidária” para outros municípios que tenham populações tradicionais voltadas para a pesca. “A ideia é levar ferramentas para fortalecer a economia local. Ensinar novas técnicas a partir da utilização dos recursos naturais da região, assim como aprender com eles como aplicar na prática o conhecimento teórico da academia”, afirma.
Acadêmicos dos cursos de Geologia, Gastronomia, Moda, Farmácia, Educação Física, Comunicação Social, Nutrição, Estética e Cosmética, Enfermagem, Medicina Veterinária e Ciência da Computação participam do projeto, indo até a cidade para participar das programações, ou já estão montando oficinas para realizarem com a comunidade nos próximos eventos. A criatividade dos universitários e dos professores, aliada ao potencial dos habitantes da Resex, abre as portas para uma série de possibilidades. Uma delas é a oficina de culinária e de nutrição, que mostrou as boas práticas na cozinha e a alimentação rica baseada em peixes, turu, camarão e caranguejo. 
A criação de uma rádio comunitária e de uma rádio web, bem como a gravação de um CD com o grupo feminino de carimbó “Flores do mangue” também são ações em andamento, supervisionadas pelo professor Mário Camarão. Outro trabalho em planejamento é o “Maré Fashion Week”, desfile de moda com os materiais produzidos pelas pescadoras. Todos os trabalhos desenvolvidos ao longo das oficinas serão apresentados no encerramento do semestre, em 29 de junho, em uma culminância que ocorrerá durante a tradicional festividade de São Pedro. 
“Queremos trabalhar mais os assuntos voltados para a economia solidária. As mulheres ainda receberão mais treinamentos sobre moda, gastronomia e empreendedorismo, aprendizados que poderão desenvolver a economia local”, ressalta. O caráter interdisciplinar e a interação direta e respeitosa com o cotidiano das pessoas são o ponto forte da iniciativa, acredita o professor. Ele destaca que toda a atuação do “Maré Solidária” é pautada pelas demandas da Associação Mocajuim, por meio de um conselho deliberativo. “Eles têm bastante autonomia e isso é uma forma de empoderamento, então o fato da Associação ser o nosso canal tem contribuído muito para o êxito. Até pessoas de Curuçá (município vizinho) tem frequentado as ações para conhecer o projeto”, observa.

NOVA AÇÃO
Educação ambiental, resíduos sólidos, esporte, cultura e lazer já foram temas de formações realizadas pelo projeto na Resex. A última foi no dia 12 de dezembro e contou com uma programação bem animada, com sessões de ritmos e slackline para a população. A ação deste mês foi adiada para 23 de fevereiro, em função das férias. O foco será conscientizar e tirar dúvidas sobre saúde, abordando questões do dia a dia laboral dos pescadores de caranguejo. “Um exemplo é o produto utilizado por muitos deles como repelente de mosquitos: o óleo diesel. É uma substância que possui metais pesados e pode causar diversas doenças, como câncer ou afetar o sistema nervoso. É importante levar essas informações para eles”, acrescenta.
Igor pontua que a atividade prática de extensão é essencial na formação profissional dos alunos, ainda mais relevante quando aliada à responsabilidade social. “Nós percebemos que o aluno começa a entender na prática qual a importância da profissão que escolheu e ainda como pode ser um cidadão mais consciente e útil para a sociedade”, afirmou. 
Para ele, as pessoas da comunidade que recebem qualificação se sentem valorizadas e prestigiadas com um trabalho contínuo. “Algo que deixamos bem claro aos alunos é que o projeto não é uma forma de assistencialismo e que nós também temos bastante a aprender com eles”, enfatiza.

Oficinas levam conhecimento e ajudam a fortalecer as comunidades

Presença certa nas oficinas do “Maré Solidária” e do “Jovem Protagonista”, Franciane Rodrigues Coelho mora em São João da Ponta e tem 21 anos. Ela cresceu vendo o pai trabalhar como pescador, profissão que o irmão dela também adotou, e cultivava o desejo de se tornar pescadora, ocupação exercida por muitas mulheres na região. Por causa de um problema na coluna, os planos tiveram que mudar e ela se viu meio sem perspectiva após o término do ensino médio. “Esses dois projetos têm sido uma lição para mim, em vários sentidos. Hoje penso em alternativas que antes nem contemplava. As ações despertaram o interesse de muitos jovens para várias áreas”, comenta.
A formação gastronômica foi uma das preferidas da jovem, que adora cozinhar. O contato com estudantes e professores de Geologia também chamou a atenção de Franciane, que gostaria de seguir uma carreira em que pudesse contribuir para a preservação ambiental. “Essa oportunidade, de aprender sobre todos esses assuntos, é imperdível. A gente sabe que não dá para contar com o poder público, então quero tirar o máximo de proveito desses trabalhos”, diz. Ela espera ver as comunidades fortalecidas a partir das oficinas, pois percebe que os grupos de pescadores e agricultores – estes últimos uma minoria na reserva – têm muita determinação e empenho, mas precisam se organizar melhor.
Ainda segundo ela, o artesanato é uma atividade comum entre as moradoras, embora tenha pouco mercado no município. “A minha mãe é uma das que faz peças de artesanato. Acho que se as mulheres formassem um grupo, uma marca, poderia gerar uma renda maior”, opina. O pai de Franciane, João de Lima Coelho, 53, integra o conselho deliberativo de Mocajuim e representa a classe dos caranguejeiros. Ele considera muito bem-vindas as ações como o projeto da Unama, não só pela capacitação, mas pelos laços afetivos que se formam entre os integrantes e os habitantes.
“Temos entre 50 e 60 jovens participando ativamente do projeto, bem interessados, além do público de outras faixas etárias. Mas especialmente para os jovens é uma chance muito especial, pois ajuda a capacitar essa futura geração que também precisa estar consciente da importância do mangue”, reforça. De fato, 60% do território da Resex é composto por manguezais e ela engloba todos os mangues de São João da Ponta, que têm uma biodiversidade riquíssima. A informação é do gestor da reserva pelo ICMBio, Waldemar Vergara Filho.
Na visão dele, que convive diretamente com as comunidades da área, o “Maré Solidária” surge como uma ponte, preenchendo lacunas e como uma ótima ferramenta de responsabilidade social. “O que o projeto, em parceria com o Jovem Protagonista, proporciona aos moradores é uma forma de revelar a eles espaços que antes estavam ocultos. Além disso, é uma forma da Unama, que leva a Amazônia no nome, cobrar uma atuação mais humana de seus professores e alunos, os futuros profissionais do mercado”, complementa.
Um dos estudantes envolvidos desde o começo é o acadêmico de Geologia Jorge Nadir, 19. Ele está no terceiro semestre e também ajuda na organização das ações. “Conversamos muito com os moradores sobre técnicas de coleta, eles nos ensinaram um método que criaram para reduzir a morte dos caranguejos durante o transporte. Ver a interação deles com o ambiente acrescenta muito como profissional e no desenvolvimento pessoal”, declara. Mesmo quando não há uma oficina sobre a área que ele estuda, Jorge faz questão de visitar a Resex. “É um lugar muito afastado e a gente percebe que faltam opções de atividades. É isso que queremos levar. Pretendo continuar participando das ações e levar esse aprendizado”, conclui.

“Maré Solidária” recebeu convite da Unesco

De acordo com o professor Igor Charles, a possibilidade de dar seguimento ao “Maré Solidária” em outras localidades surgiu a partir de um convite da Unesco no Brasil. “A vontade de fazer o projeto nasceu em fevereiro, durante uma visita do curso de Geologia à Resex. Passamos o resto do ano articulando até que conseguimos botar para rodar em outubro. Nós consideramos um programa piloto, que está dando muito certo. Queremos aprender com nossos erros e aprimorar nossos acertos para estender a atuação”, detalha. 
Um dos destaques do projeto é o apoio ao grupo “Flores do mangue”. O coordenador conta que a intenção de gravar um CD chamou a atenção da Unesco, que garantiu a produção e a distribuição de três mil cópias. Mesmo depois do encerramento, em junho, Igor pretende dar prosseguimento ao projeto com um segundo momento. Ainda neste ano, ele quer trazer moradores da Resex para os campi da Unama, em Belém. “Alguns já vieram e foi uma experiência enriquecedora, principalmente para os jovens. Com isso, queremos ampliar a perspectiva e estimular a continuidade do trabalho”, completa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Na contramão da desigualdade social

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 14/01/2016 


BRENDA PANTOJA
Da Redação

Belém apareceu entre as 20 cidades mais violentas do mundo, ocupando a 18ª colocação na pesquisa, divulgada no ano passado pela organização não governamental (ONG) Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, do México. Os dados mostraram que a capital paraense tinha registrado 53,06 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Outro estudo aponta que os 205 mais ricos da cidade detêm 70% da riqueza, enquanto apenas 5% ficam com os 20% mais pobres. O levantamento, que é do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), constata ainda que 33% dos habitantes são vulneráveis à pobreza, bem como, quase 30% da população ocupada não possui o fundamental e nem carteira assinada.
Os índices estão diretamente ligados e dizem muito sobre a desigualdade social na cidade que acabou de completar 400 anos. Quem destaca as informações é o professor Reinaldo Nobre Pontes, do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Pará (UFPA). Assistente social com doutorado em Sociologia pela Universidad Complutense de Madrid, ele defende que a desigualdade social é a verdadeira nascente da violência. A relação entre estes dois aspectos precisa ser repensada, o que exige outro olhar sobre a criminalidade em Belém. 
Em 2012, Belém chegou a ser eleita a 10ª cidade mais violenta do mundo pela mesma ONG. Logo após a divulgação da pesquisa, a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) contestou a inclusão de Belém, afirmando que os dados analisados misturavam homicídios dolosos e culposos, mortes no trânsito, suicídio e outras situações que levam ao óbito. No entanto, o ranking brasileiro estabelecido pelo Mapa da Violência, coordenado por Julio Jacobo Waiselfisz, demonstra que entre 2000 e 2012 a taxa geral de homicídios em Belém cresceu 43,6%, enquanto as mortes violentas entre os jovens aumentaram em 62,5% no mesmo período.
Em bairros como Cabanagem e Benguí, a debilidade de políticas públicas favorecedoras de mais justiça e igualdade social, bem como a dificuldade de acesso a serviços básicos como educação e saúde de qualidade, são questões sérias, que podem impactar profundamente a vida de seus moradores. É o caso dos adolescentes Patrick Mesquita, Marcos Yan e Danúbia Rodrigues. Todos eles têm 15 anos e frequentam há mais de um ano o polo Mangueirão do projeto Pro Paz nos Bairros. Os meninos moram no bairro da Cabanagem e Danúbia vive no Benguí, onde contam que a violência urbana e institucional são situações rotineiras.
Danúbia, que cursa o nono ano do ensino fundamental, considera a precariedade da educação o maior retrato de uma sociedade desigual. “Lá no bairro, tem escolas que são dominadas pela malandragem, outras que são constantemente assaltadas, tem alunos que consomem droga lá mesmo. O colégio se torna um ambiente errado, justamente quando a educação deveria ser a base de tudo”, critica. Marcos foca em outro ponto, falando das dificuldades para conseguir atendimento médico no bairro.
“Os serviços de saúde já são complicados, são demorados e ainda acontecem assaltos nas unidades. Semana passada, levamos minha irmã, que está grávida e passou mal, ao posto, mas estava fechado porque tinha sido roubado”, conta. Os assaltos são frequentes no bairro e Patrick critica o aparente reforço no policiamento, mas que ainda não surtiu efeito. “Para mim, o que mais representa a desigualdade social é o fato da malandragem comandar algumas áreas. Na minha rua tem polícia passando 24 horas, várias viaturas circulando, mas a ação dos bandidos não diminui”, observa.
Os três adolescentes comentam que a falta de perspectiva é uma grande armadilha e que percebem isso ao conversarem com colegas e vizinhos e notarem a dinâmica do lugar onde estão inseridos. “Alguns amigos ficaram presos na criminalidade ou no tráfico porque não buscaram outros caminhos, acham mais fácil ganhar dinheiro dessa forma. Mas, na verdade, tem muitas possibilidades”, reforça Danúbia. Ela e Marcos já terminaram um curso de informática, que conseguiram por meio do Pro Paz. Ela se prepara para iniciar um curso de auxiliar administrativa e para fazer o teste do time de futebol da Escola Madre Celeste, que pode render uma bolsa de estudos.
Patrick descobriu uma paixão pela música no projeto e as aulas de percussão são as atividades preferidas dele, que pensa em se profissionalizar na área. “Quero fazer faculdade de música e também um curso na área de logística”, diz, mostrando que não pretende se limitar. Poder ampliar os horizontes é uma das vantagens mencionadas por eles sobre o Pro Paz, que também trouxe melhoria na saúde física e no desenvolvimento escolar. Ao todo, o polo Mangueirão atende cerca de 500 crianças e adolescentes, entre 8 e 18 anos, oferecendo as modalidades de atletismo, boxe, basquete, dança contemporânea, futsal, futebol de campo, caratê, capoeira, jiu-jítsu, matemática, leitura e informática.
A pedagoga Érica Johnston coordena o polo e acompanha a evolução não só dos meninos e meninas atendidas, mas também das famílias. “Trabalhamos com eles a cultura de paz e os valores, sempre perto da comunidade. Para muitos pais que trabalham fora o dia inteiro é importante saber que, no contraturno da escola, os filhos não estão ociosos na rua”, pontua. Ela avalia que a mudança de mentalidade e de visão é uma peça fundamental do projeto, uma vez que a equipe do polo orienta as famílias sobre vários direitos e estimulando o envolvimento dos filhos com as atividades desenvolvidas, mesmo fora do Pro Paz ou depois que eles completam 18 anos.
“É de grande importância a parceria que temos com diversas associações de moradores. Eles identificam crianças que podem ser atendidas e trazem para cá e nós também acompanhamos as demandas deles por emissão de documentos ou cadastro em benefício”, assegura. Os cursos profissionalizantes no Pro Paz nos Bairros são outras ferramentas de redução da desigualdade social,
fornecendo capacitação gratuita. Uma nova agenda será divulgada em março, de acordo com o presidente da Fundação Pro Paz, Jorge Bittencourt.
Ele frisa que a instituição atua em outras frentes e forma uma rede de articulação com órgãos públicos e movimentos sociais dos bairros. Desde o segundo semestre do ano passado, o Pro Paz nos Bairros começou a atender adultos das comunidades onde está inserido, contabilizando 1.200 alunos participando de hidroginástica, caminhadas, dança de salão, palestras e outras ações. “Acredito que a desigualdade está muito ligada à falta de oportunidades e queremos justamente oportunizar o acesso às politicas públicas existentes e construir juntos um novo caminhar, se preocupando primeiro com o resgate de valores nas famílias e nas comunidades. Se não plantarmos a semente no ambiente micro, não conseguiremos um resultado no macro”, acrescenta.
Como exemplo da parceria com projetos sociais independentes, Jorge cita o trabalho com o Terra Firme Esporte Clube para abrir vagas às crianças do bairro, assim como com a Associação Escolinha do Chuvisco, também voltada ao futebol, no Distrito Industrial. Atualmente, existem mais de 2.500 vagas nos cinco polos do projeto em funcionamento na Região Metropolitana de Belém (RMB): Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), Estádio Olímpico do Pará (Mangueirão), Praça Dorothy Stang (Sacramenta), e Instituto de Ensino em Segurança Pública do Estado (Iesp), em Marituba. Neste semestre, haverá ampliação do atendimento com novo polo a ser estabelecido no município de Ananindeua, no ginásio Abacatão.

Violência é muito mais do que um problema moral e ético, diz professor

Para o professor Reinaldo Nobre Pontes, altas taxas de desemprego e informalidade, associadas a uma educação de baixa qualidade e que exclui os mais vulneráveis são ingredientes que, se somados às desigualdades, propiciam a elevação da violência na forma de criminalidade. “A concentração de riqueza é a grande expressão da desigualdade. Para muitos, a violência parece espontânea ou como um problema moral e individual, mas não se resume a isso. O Brasil já é o quarto país que mais prende, tem aumentado cada vez mais seus gastos com segurança pública, mas a violência não diminui”, afirma.
Segundo ele, Belém é uma cidade paradoxal e desigual desde o início da sua ocupação. Esse processo deixou o que ele chama de “cicatrizes” na cidade. “Eu falo em cicatrizes porque é um cenário que pode ser visto do alto, com a cidade nitidamente cindida entre regiões mais aquinhoadas e outras mais empobrecidas”, detalha. O professor ressalta que este quadro se repete no mundo todo, pois se trata de um problema estrutural da sociedade.
Reinaldo enfatiza que uma mudança nesse modelo pode levar décadas e décadas para se desenvolver, além de passar por redução na desigualdade, por acesso a serviços essenciais básicos e geração de trabalho, abrindo outras possibilidades de distribuição de riqueza. “Aumentar policiais, vagas em presídios e cadeias não é a solução, embora seja necessário”, completa. É indispensável promover o debate em diferentes ambientes. “A violência pode acontecer na Terra Firme, mas o preconceito social não é uma violência? Assim como o preconceito racial e a homofobia? Não tem muito mais violência em roubar milhões da saúde, que está um caos, do que no roubo de um celular por um adolescente?”, questiona.
A discussão precisa ser feita, acredita ele, para que a violência deixe de ser enxergada meramente como um problema moral e ético. “Estes valores fazem parte, mas enquanto acreditarem que a pessoa é pobre e violenta porque quer, estaremos longe da solução. Temos que atacar nas frentes das políticas públicas, do conteúdo da educação na escola e da formação familiar”, complementa. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Iniciativa muda a rotina de hospitais

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 07/01/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação

 Balões, bolhas de sabão, brinquedos e o principal: sorrisos, muitos sorrisos. Essas são as principais ferramentas do Grupo Sorria, da Unimed Belém, para amenizar o ambiente de tensão em hospitais e trazer mais alegria aos pacientes e acompanhantes. A iniciativa, que completa uma década neste ano e já alcançou milhares de pessoas, quer expandir o trabalho. Em Belém, outros grupos também atuam na mesma linha e alguns são totalmente independentes, contando apenas com a disposição de voluntários que querem melhorar a situação daqueles que estão enfrentando uma doença. Afinal, a sabedoria popular garante que rir é o melhor remédio.
Pelos corredores de um hospital no bairro de Batista Campos, o ambiente ia mudando nitidamente por onde passavam o Dr. Tonton, a Dra. Moranguinho, o Dr. Bugiganga e a Dra. Morenuxa, alguns dos personagens que fazem parte do grupo, composto por 35 membros, entre voluntários e colaboradores da Unimed. Na enfermaria onde estava internado Lucas Vítor, 10, as brincadeiras dos palhaços vieram em boa hora. “Ver ele interagindo, se distraindo é muito bom. Faz bem para a família também porque as crianças sentem no ar a tensão. Seria tão bom se essas visitas fossem diárias e adotadas também na rede pública”, comentou a mãe do garoto, Eliângela Gonçalves, visivelmente emocionada.
Para ela, as dinâmicas foram uma válvula de escape para a pressão. “Ele está doente desde o dia 23 e estamos indo e vindo do hospital. Hoje decidiram internar e vamos fazer mais exames para definir o melhor tratamento. Uma ação como essa acrescenta muito para a nossa autoestima”, acrescentou. A analista de sistemas Raquel Cohen, 25, também estava angustiada, mas acabou se divertindo junto com o filho Miguel, de apenas 2 aninhos, durante a atividade. Por causa de uma picada de inseto que infeccionou perto do globo ocular, o menino ficou em observação por 48 horas. “Eu e ele estávamos aflitos, mas a visita do grupo melhorou totalmente o nosso dia. Só de ver o nosso filho brincar e rir, a gente relaxa um pouco”, disse.
A partir da técnica de art clown, o projeto leva otimismo, atenção e mais qualidade no acolhimento aos pacientes, reforçou o vice-presidente da empresa e coordenador das ações de Responsabilidade Social, o médico Antônio Travessa. “Essa técnica é difundida em todo o mundo. Existem estudos que comprovam, e nós podemos ver isso continuamente nos nossos clientes, o impacto na recuperação quando se busca melhorar o espírito, a confiança”, destacou. 
Por trás das maquiagens e roupas coloridas estão pessoas como Nelson Delgado, 36, profissional de Tecnologia da Informação. Há quatro anos, ele é o Dr. Tonton e para realizar o trabalho voluntário foi treinado pelo ator Ricardo Tomaz, instrutor do Grupo Sorria desde a sua criação. Ricardo explicou que há muita preparação para aplicar a terapia do riso. “Todos que entram passam por oficinas para aprender a técnica do palhaço de hospital, oficinas de balão, musicalização, maquiagem e construção de personagem”, contou.
A intenção não é mudar o paciente, mas sim modificar o ambiente do hospital. “Quando eles chegam, vão quebrando aquele paradigma do silêncio, da rotina, da hora marcada. Antes, tem um diálogo com a equipe sobre a situação dos pacientes e eles ficam livres para brincar, levar um pouco de esperança”, acrescentou a assistente social Vanessa Camarão. O grupo se reveza para fazer, em média, oito visitas por semana e vai a pelo menos 12 instituições parceiras, incluindo hospitais da rede pública e outras unidades da rede privada. Eles também costumam participar de ações pontuais em comunidades ribeirinhas, creches e escolas.
Para este ano, a meta é resgatar antigos voluntários que passaram pelo Sorria, para dar mais fôlego ao projeto. “Como voluntário, eu aprendo muito e o diferencial desse trabalho é que acontece o ano inteiro, não só em datas especiais. Ver a resposta do público nos marca muito porque muitos agradecem e se emocionam”, completou Nelson. O grupo faz parte do Programa Viver Bem, da Unimed, que inclui outras ações de responsabilidade social. Helena Balbinot é psicóloga do Viver Bem e sustenta a eficiência das visitas. 
“Além do paciente e seus familiares, a ação também mexe com a equipe multiprofissional, que passa por muita tensão. O ambiente geralmente é de ansiedade e tristeza e pesquisas mostram que o estado emocional pode interferir no agravamento de uma patologia. Por isso é tão importante levar entretenimento e alegria a este público”, frisou.

Trabalho do Grupo de Ouro Nacional vai além do ambiente hospitalar

Com atuação, principalmente, no bairro da Terra Firme, o Grupo de Ouro Nacional (GON) vai a hospitais e associações que recebem crianças que enfrentam o câncer, levando grupos de contadores de histórias e personagens para promover atividades lúdicas no Hospital Ophir Loyola e outras instituições. Criado há três anos, eles também tem outra vertente, que é o contato domiciliar com os pacientes oncológicos. Semanalmente, os voluntários vão às casas das pessoas cadastradas para fazer o acompanhamento, que pode incluir ajuda com remédios, cesta básica, encaminhamentos médicos, ou simplesmente fortalecer os vínculos afetivos.
O autônomo Cláudio Alves, 46, não tem dúvida de que o apoio do GON foi determinante para que o filho, Kennedy, conseguisse fazer um transplante bem sucedido de medula óssea. Diagnosticado com leucemia no dia 13 de fevereiro, a família logo descobriu que o filho mais velho era compatível, mas este foi só o começo da batalha. A operação não era realizada no Pará e ele teve que ser transferido para Recife. “Só a burocracia com documentação demorou um mês. Fora os custos. Calculo que gastamos mais de R$ 30 mil. Foi aí que entrou o GON. Nós realizamos uma caminhada em prol do meu filho e conseguimos levantar o valor necessário”, recordou.
Outra ajuda do GON foi com campanhas de doação de sangue. “Por duas vezes, durante o tratamento, meu filho ficou sem sangue para receber. Se não fosse a gente correr atrás, divulgar e pedir, sabe lá quanto tempo teríamos que esperar”, ressaltou. Kennedy foi operado em novembro e a notícia tão esperada foi confirmada: não houve rejeição da medula. Ele está no pós-operatório em uma casa de acolhimento em Recife e a previsão é que volte para Belém no fim do próximo mês. Cláudio se tornou um dos 30 voluntários e acredita que o suporte emocional precisa ser olhado com mais atenção pelos hospitais da rede pública.
A dona de casa Odineide Nery, 40, é uma das cadastradas que contou com a assistência emocional do grupo e acredita na relevância de trabalhos com esse propósito. O diagnóstico do câncer de mama e a cirurgia para retirar o tumor ocorreram há mais ou menos um ano, depois vieram algumas sessões de radioterapia e quimioterapia. “Durante todo esse processo, o GON me acolheu. Graças a Deus, não precisei de apoio financeiro mas o incentivo e a força que eles me deram, assim como a família, fez muita diferença na forma de encarar o tratamento”, assegurou. Ela já deixou as sessões e está somente em fase de acompanhamento.
A universitária Keila Paiva, 18, é voluntária do GON desde o começo e é responsável pelas campanhas de mobilização. Segundo ela, o ponto forte da entidade é a articulação. Quando visitam lugares como a Casa Ronald McDonald Belém, que abriga crianças e adolescentes do interior do Pará em tratamento contra o câncer, o grupo procura parcerias com coletivos culturais, grupos de dança, teatro e música do bairro. “Esses momentos, em que arrancamos sorrisos deles, são maravilhosos. Tem, ainda, o trabalho de conscientização nas escolas. Levamos toda uma programação para falar sobre prevenção e diagnóstico precoce”, detalhou. Em 2016, o GON quer aumentar o número de famílias cadastradas, que já são em torno de 50, e montar uma agenda fixa mensal de visitas a instituições. 

“Os EnferMágicos” levam humor e esclarecimentos aos pacientes

“Os EnferMágicos” também apostam na descontração e no humor para ter um impacto positivo nos usuários do sistema público de saúde, mas eles também fazem questão de levar informação. Através dos “educa-shows”, a equipe de seis voluntários consegue captar a atenção do público e promover a educação. Idealizado em 2014 pelo estudante do 5º semestre de Enfermagem da Universidade Federal do Pará (UFPA), Marcos Trindade, o lema principal deles é: “A magia de cuidar é cuidar com amor”.
Todos caracterizados com figurinos de enfermeiros mágicos, vestidos de jaleco-smokin, as apresentações são regadas a muita música, brincadeiras e brindes numa perspectiva de conscientizar e promover a prevenção. Recentemente, eles estiveram no Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza para alertar sobre o zika vírus, além de ações especiais com a terceira idade em abrigos e projetos. “Quando levamos esses dados importantes em uma linguagem mais acessível e de forma divertida, estamos contribuindo para incentivar hábitos saudáveis, além de humanizar o espaço hospitalar. É interessante tanto para os pacientes, que se sentem mais próximos e imediatamente ao final vem tirar dúvidas, quanto para a formação de profissionais mais sensíveis”, defende. 
Por enquanto, o grupo é formado exclusivamente por estudantes de Enfermagem, mas Marcos está empolgado com a ideia de ampliar a atuação. A iniciativa é totalmente independente e sem ligação trabalhista com a UFPA, portanto não oferece bolsa ou carga horária. Com a greve de quase quatro meses dos professores e técnicos no ano passado, o grupo conseguiu realizar poucas apresentações. “Antes de montar cada educashow, a gente se prepara com muita pesquisa. Recebemos contato de alunos de várias áreas, desde Biblioteconomia até Educação Física, e queremos incluir mais gente no projeto. Estamos montando nosso cronograma de ações para este ano, além de estarmos em busca de apoios e doações, pois os recursos são poucos”, complementou Marcos, que também é músico e compositor.