sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A fina arte do humor



*Publicada na revista Amazônia Viva de setembro de 2012


Com 30 anos de profissão, o cartunista paraense Biratan é um defensor do papel social da charge como fonte de reflexão. Para chamar a atenção sobre os problemas ligados ao meio ambiente, ele idealizou e coordena o Salão internacional de Humor da Amazônia, um dos eventos mais importantes do país na questão ecológica. Texto de Brenda Pantoja e fotos de Paula Sampaio.


Seja para promover uma reflexão ou arrancar uma gargalhada - ou até mesmo os dois juntos - o cartunista Ubiratan Porto surpreende com as suas criações. Nasceu na Belém dos anos 50, mas foi criado em Castanhal, onde deu seus primeiros passos, literalmente. E artisticamente falando. O cartunista assina como Biratan, com uma letra a menos e talento de sobra. São mais de 30 prêmios nacionais e internacionais que, se dependerem dele, não vão parar de surgir. “Quero chegar aos noventa anos trabalhando e produzindo”, resume.
Biratan usa papel e caneta – hoje com uma ajudinha das ferramentas digitais – para se expressar através do cartum, da charge e da caricatura, mostrando a realidade social, política e ecológica que vivemos. Ele confessa que o seu xodó é o cartum, porque funciona quase como uma terapia. É por meio do cartum que Biratan faz o leitor rir e pensar.
Em entrevista à revista Amazônia Viva, Biratan fala com a descontração que lhe é peculiar sobre os desafios e a importância do humor gráfico no que diz respeito à região amazônica. Sobre o sucesso do Salão Internacional de Humor da Amazônia, que já está na 4ª edição (este ano acontece no Hangar, de 21 a 30 de setembro, Biratan afirma que o destaque do humor ecológico ocorre porque o apelo pela natureza é o mesmo, de um lado a outro do planeta.

O Salão Internacional de Humor da Amazônia chega à sua 4ª edição e reúne 140 trabalhos de 30 países. Com o tema "Ecologia no Traço", o que representa essa participação do evento em nível mundial? Os cartunistas também estão antenados no que é ecologicamente correto?

Aqui no Brasil temos dois salões tratando desse tema. Tem o concurso de Cartoons Ecológicos promovido pelo Shopping de Brasília e o nosso Salão Internacional de Humor da Amazônia, que este ano deve ir para sua quarta edição. É claro que tem outros salões que eventualmente lançam esse tema. Como se trata de um problema mundial, o humor ecológico acaba atraindo cartunistas de muitos países. Os problemas são os mesmos: lixo, poluição de rios e mares, desmatamentos, aquecimento global, animais em extinção, água, etc. E o que a gente nota é que o assunto tem muita coisa a se explorar na área do cartum e da charge. Eu trabalho com humor ecológico há 30 anos, e já me rendeu três livros e várias animações. Vamos discutir ecologia aqui neste globo terrestre até mudarmos de mala e cuia pra Marte. É claro que a degradação do planeta ainda vai demorar umas boas centenas de ano.

• É preciso algum cuidado na hora de retratar a Amazônia para que o foco não seja sempre a questão ecológica?

Sim. Nesse bojo ecológico, tem outros assuntos importantes: Políticas várias que envolvem remanejamento florestal, povoamento planejado, comércio, pesquisas, combate ao tráfico da fauna e flora, implantações de indústria, obras que suscitam polêmicas de impacto ambiental e outros que acabam desestruturando o próprio amazônida.

• O cartum tem a intenção de ser uma ferramenta de conscientização social? Como trabalhas o senso crítico?

Essas modalidades, Cartum e Charge, têm fronteiras. A charge tem poder crítico mais corrosivo, ácido. Consegue importunar, incomodar o criticado. Muitos dizem que a charge tem a força de um editorial. Por isso tem destaque no jornal. Tem uma história lá pro Rio Grande do Sul, que uma charge do cartunista gaúcho Sampaulo, criticando um político local em época de eleição, tirou duzentos mil votos desse candidato, levando o pobre à derrota. Já o cartum é um tipo de humor só pra fazer rir o leitor. Não tem compromisso com fatos. Aborda mais o comportamento humano, suas fraquezas.

• O humor precisa ser dosado? Como distinguir os limites entre o cômico feito somente para rir e o cômico que denuncia mazelas sociais?

Cada cartunista, chargista tem uma pegada. Vai depender dele o seu traço editorial. Desenhar com todas as letras, ser um crítico audacioso, discordando muitas vezes da linha editorial do seu jornal é uma missão muito difícil. Aí vem a sua pergunta: e a dosagem do humor, da crítica? Claro que todos nós sabemos até onde podemos ir. Até o Cartum tem a sua dosagem, o seu limite. Sabemos que a qualquer hora algum leitor pode nos rotular de preconceituosos, porque tocamos em um assunto proibido, ou ferimos suscetibilidades.

• Tu tens observado um crescimento do público de amantes de cartuns na região? Existe uma tradição do cartunismo na Amazônia?

Na região toda não tenho ideia, mas aqui em Belém do Pará temos já várias gerações de desenhistas de humor. Pelas pesquisas do nosso querido professor e pesquisador Vicente Salles, lá por 1870 aportou aqui em Belém um alemão chamado Karl Wiegandt. Esse cidadão, que era exímio desenhista, caricaturista, montou a primeira oficina litógráfica aqui na cidade. Imprimiu os primeiros jornais e recheou com suas charges e caricaturas de figurões da época. Gostou tanto de Belém que viveu aqui 38 anos produzindo e ensinando sua arte pra muitos Paraenses. Faleceu em 1908. Depois dele, na década de 40 vem outra geração de bons desenhistas paraenses: destacam-se Cripim do Amaral, Manoel do Amaral, Ângelus e Teodoro Braga, que eram pintores e também caricaturistas. Sobressaem-se também João Pinto, Cotta. Todos excelentes artistas gráficos. Nos anos 70 já surge a nossa geração. Toda muito influenciada pela onda do Pasquim: Luíz Pinto, Felix, Biratan, Walter Pinto, Sebastião Godinho, Ropi, Nilson Brasil, Emanuel Nassar, Osmar Pinheiro e outros. Em seguida aparece a nova geração que são esses atuantes  e premiados cartunistas que curtimos em nossos jornais: J. Bosco, Waldez, André Abreu, Arnaldo Torres e Casso.

• O Salão de Humor pode ter influenciado esse crescimento?

Sem dúvidas. Tivemos um crescimento de 80% na participação desenhistas do primeiro para o segundo salão de Humor da Amazônia. O Salão já faz parte do calendário de humor do Brasil e do exterior. Tivemos uma média de 35 países participando do nosso evento de humor. E obviamente é um intercâmbio que
contribui muito para o crescimento de novos e antigos cartunistas.

• A linguagem quase exclusivamente visual das charges e cartuns chega a ser um desafio?
Sim. O desenho de humor é uma fina arte. Há quem diga que é a oitava arte. Vejam os trabalhos do Quino, criador da Mafalda, os geniais Gosciny e Uderzo, Ziraldo, Millôr Fernandes, Cassio Loredano e tantos outros monstros sagrados do desenho de humor gráfico.

• Mesmo sendo um mercado onde não é fácil se destacar, tu inovaste com as "Caricaletras". Como surgiu a ideia? Teve uma boa aceitação?

Graças que continua tendo uma boa aceitação. As caricaturas de letras começaram em 2002. A primeira que fiz foi a do Carlos Drummond de Andrade. Inscrevi no concurso nacional de caricaturas em homenagem ao poeta, realizado em Minas Gerais. Ganhei uma Menção Honrosa. Fiquei muito feliz. A partir daí continuei produzindo as caricaturas de letras. O resultado final foi tão bom que rendeu um livro, lançando em abril do ano passado na Fox Video. Fiz também um lançamento só para cartunistas no Rio e em São Paulo.

• A internet é um espaço bastante democrático, onde as pessoas não encontram dificuldade para se expressar. Tu achas que a charge perdeu a força que tinha quando era veiculada apenas no meio impresso? Ou ela tem se utilizado das novas tecnologias pra garantir sua influência?

A mídia impressa já reinou por décadas. É claro que a charge política, a caricatura, a ilustração tiveram muitos anos de glória e visibilidade. O tempo é de transição. E a mídia eletrônica grassou mundo afora. Os próprios meios de comunicação impressos estão migrando aos poucos para esse mundo cibernético. Pra mim fica bem claro que as redes sociais, esse admirável mundo novo da internet, passaram a ser as grandes passarelas para exposições de produtos, vaidades, curiosidades, artes em geral. A charge, o cartum, o humor gráfico também estão rezando nesta mega procissão do cyber espaço.

• Voltando à proposta central do Salão de Humor da Amazônia. Como o cartunismo pode colaborar com a abertura de ideias em relação ao meio ambiente na região?

Através do riso e da reflexão. Esse passeio que as pessoas farão por essas obras de diferentes artistas do mundo inteiro deixará uma conscientização ecológica, sem dúvidas.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Amor em canção


O nosso amor merece a canção mais bela. Ah, se o nosso amor fosse uma música, as notas dele vibrariam pelo recinto e quem o escutasse se sentiria completo. E dançaria com uma expressão apaixonada. Mas quando, de repente, os acordes ficassem tensos, as sobrancelhas se curvariam. A melodia ficaria lenta sem perder sua beleza.
Os ouvintes entenderiam que o nosso amor passou por momentos difíceis.Após breves murmúrios de saudade, o reencontro! Notas rápidas e ternas soariam com urgência de minimizar a distância imposta. Passada a euforia, a música tomaria ares de elegância, mostrando-se madura e cada vez mais romântica. Seu desfecho seria suave e contínuo, pois o nosso amor não caberia nem em todas as canções do mundo, meu bem.




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