terça-feira, 26 de maio de 2015

Beijo gay enfrenta estigma na vida real

*Publicado em O LIBERAL de 16/02/2014

BRENDA PANTOJA
Da Redação

     O beijo gay exibido há duas semanas no último capítulo da novela “Amor à Vida”, protagonizado pelos personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), ainda é alvo de discussões polêmicas e o debate deve se prolongar com a construção de um novo casal homossexual no horário nobre da TV Globo. “Em Família” apresentou, nesta semana, Marina (Tainá Muller) e Clara (Giovanna Antonneli). “Estou preparada para contar uma história de amor, esse é meu desafio como atriz nessa novela. Se o autor escrever o beijo, será feito”, afirmou Giovanna, em entrevista ao portal Uol. O desenvolvimento do romance será um bom termômetro para avaliar a aceitação do público, que repercutiu positivamente o primeiro beijo nas redes sociais.
     Fora da ficção, no entanto, casais homossexuais enfrentam preconceito ao demonstrarem afeto em público. O analista judiciário Christian Maltez, 39, e o estudante Mauro Júnior, 20, namorados há pouco mais de um ano, conversaram sobre o assunto com O LIBERAL nos arredores da Praça da República, em Belém, e a reação das pessoas ao presenciarem demonstrações de carinho entre eles variou entre olhares desconfiados, espanto e risadas. Alguns vendedores de estabelecimentos próximos pararam para observar a entrevista, mas ninguém aceitou dar opinião sobre a liberdade para troca de afetos em público entre casais homoafetivos. 
     Christian e Mauro contam que nunca foram ofendidos ou agredidos. Para Christian, romper com a discriminação significa mais do que o direito de trocar carícias na rua sem ser desrespeitado. “A luta do movimento LGBT não se limita a definir onde um casal gay tem liberdade de se expressar ou não, o maior problema é que a sociedade discrimina quando não garante direitos ao cidadão homossexual”, afirma. Ele reconhece que os padrões de comportamento devem ser respeitados em público, o que é válido também para casais heterossexuais. “O objetivo não é afrontar e escandalizar, mas exercer a tolerância”, completa. 
    Christian argumenta que, mesmo com as recentes leis aprovadas a respeito do casamento e adoção, a rejeição do PLC 122, que criminaliza a homofobia, deixa muitas pessoas desamparadas. “O respeito que eu espero das pessoas é o mesmo que eu pratico e essa postura faz diferença no processo de aceitação da sociedade”, observa. A diferença de idade entre eles não é um problema no relacionamento e até realça os diferentes modos de pensar. “Estas expressões deveriam  ser vistas como algo natural, não foi algo que surgiu agora”, defende Mauro, mais novo, e participante recente do debate que somente há alguns anos ganhou maiores proporções. Já Christian pondera que a reação da sociedade é resultado de preconceitos enraizados, mas isso não justifica a intolerância.
     Para a sexóloga Elizabeth Cristina Mendes, a sexualidade é um tabu e a restrição na discussão é imposta a todos, englobando heteros, gays e idosos, por exemplo. “Todos têm desejo, mas a convenção social determina que você não expresse publicamente, reservando-o para espaços privados. Um casal gay confronta isso duplamente, pois a sociedade ainda se agarra a normas que ficaram no passado, como a ideia do sexo exclusivo para reprodução”, diz.

Preconceito marca luta contra AIDS

*Publicado em O LIBERAL de 01/12/2013

BRENDA PANTOJA
Da Redação

     “A vida é maior do que a Aids e o preconceito”, declara a estudante Maria Silveira, 36, que recebeu a confirmação de que era soropositivo há 13 anos. A luta dela e de milhares de pessoas que convivem com HIV/Aids é contra a discriminação e marca o Dia Mundial de Combate à Aids, celebrado hoje. Também entra na pauta a necessidade de ampliação das estratégias de prevenção e tratamento, pois o impacto social causado pelo diagnóstico de soropositivo ainda é muito grande e, atualmente, afeta diretamente mais de 4.800 pessoas no Pará. Este é o número de pessoas com HIV que estão em tratamento no Estado, das quais cerca de 140 iniciaram a medicação neste ano.
     Dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) mostram que, no ano passado, 1.270 diagnósticos positivos foram registrados, sendo 761 do sexo masculino e 509 do sexo feminino. O crescimento do número de mortes pela doença é um fator preocupante: o índice pulou de 154 óbitos, em 2000 para 513 em 2011. A capital paraense lidera as notificações, com 1.500 casos entre 2006 e 2011. Para Maria, a desinformação é a principal aliada do preconceito, que enfrentou logo nos primeiros momentos em que descobriu a doença e partiu do profissional de saúde responsável por orientar os pacientes. “A pessoa que me recebeu no pré-acolhimento deu informações distorcidas, disse que se eu transmitisse Aids para alguém poderia ser presa, dentre outras coisas. Como já havia lido algo sobre o assunto, procurei fontes mais confiáveis, mas se fosse com alguém menos esclarecido, isso teria influenciado negativamente e diretamente na forma de encarar a doença e
o tratamento”, conta. 
      A atitude adotada por aquela pessoa, anos atrás, é a que muitos repetem ainda hoje. “Na ocasião, me senti marginalizada por ser mulher, jovem e, na época, profissional do sexo. Muitas pessoas que convivem com HIV e Aids ainda se sentem à margem, o preconceito aparece, não importa quanta
informação seja divulgada sobre o assunto”, acrescenta. Maria lembra que teve o apoio da família e de entidades da sociedade civil, mas não conseguiu começar o tratamento imediatamente. Somente quatro anos depois do diagnóstico foi que iniciou a medicação, quando teve que ser internada. “Adoeci muito por causa da dificuldade em me medicar, na época não era fácil conseguir tratamento. Esse retardamento quase me levou a óbito, cheguei ao hospital com dez doenças oportunistas, mas depois que passei a seguir o tratamento à risca, vivo muito melhor”, afirma.
      Ela considera um agravante quando a discriminação vem da família. “É o ambiente onde a pessoa deve se sentir segura, ter apoio. Se não encontra isso dentro de casa, a autoestima e a confiança é afetada, ela fica desestimulada para se tratar”, avalia. Ao longo de 13 anos convivendo com o vírus, Maria garante que aprendeu muito ao trocar experiências com integrantes de organizações não governamentais (ONGs). “Aprendi que a força de vontade é maior do que a Aids. Consegui perceber que as pessoas precisam enxergar mais do que um transmissor em potencial da doença, mas sim um ser humano e quando o próprio paciente entende isso, consegue eliminar o preconceito de si mesmo”, relata. Ainda segundo ela, a conscientização também precisa partir dos soropositivos ao usarem preservativo, terem cuidado com o corpo, para que se tornem agentes multiplicadores na prevenção da Aids.
      Maria faz parte da ONG coordenada por Jair Santos, o Grupo Para Valorização, Integração e Dignificação do Doente de AIDS (Paravidda). A entidade tem cerca de 1.500 usuários cadastrados, mas nas ações que realiza atende, em média, sete mil pessoas por ano. Os serviços ofertados são de assistência social, creche, grupos de adesão ao tratamento, acompanhamento psicológico, entre outros. “A falta de apoio da iniciativa privada e dos governos, além do preconceito, é o principal gargalo do nosso trabalho. As ações do governo são muito importantes, são necessárias, mas devem ser sempre acompanhadas de informação. Não adianta entregar preservativos sem orientar sobre o uso, por exemplo”, observa. Ele  acredita que as ONGs são um canal de acesso direto, por falarem a linguagem do povo de forma mais próxima.
      “As entidades da sociedade civil são os maiores atores na conscientização, mas sabemos que o  preconceito é arraigado na sociedade. A Aids é uma doença crônica, mas o que a torna tão marginalizada é a transmissão através da relação sexual, que ainda é um tabu, pois é associado à promiscuidade”, pontua. Ainda de acordo com ele, o serviço público não está preparado para algumas situações e é aí que as ONGs entram, com o trabalho humanizado, fazendo o controle social do Sistema Único de Saúde (SUS) e monitorando as demandas de exames e medicamentos. ”O Dia Mundial de Combate à Aids, para nós, é mais um dia. A nossa luta é diária. Os governos precisam interagir mais com as pessoas que convivem com HIV/Aids, porque vidas não esperam”, completa.
       Entre os dias 27 e 29 de novembro, a Sespa realizou a Campanha de Luta contra a Aids e a Sífilis no Pará. Foram três dias de palestras, mesas redondas e debates sobre o tema, além do lançamento do projeto “Video Conferência”, onde profissionais poderão tirar dúvidas e dar orientações através da internet , e do aplicativo “AidsAPP”, um dispositivo móvel com informações importantes sobre a doença. As ferramentas foram desenvolvidas pela equipe do Núcleo de Tecnologia da Informação e Informática em Saúde (NTIIS) da secretaria. O software está disponível no site da Sespa (www.saude.pa.gov.br) e pode ser baixado em smartphones que dispõem de sistema Android. “Esse é mais um mecanismo que será utilizado de forma prática, para que possamos efetivamente fazer telemedicina. A iniciativa vai facilitar a chegada em vários cantos do Estado, para trabalharmos a educação continuada”, afirma o titular da Sespa, Helio Franco. A coordenadora Estadual de DST/Aids, Débora Crespo, adiantou que já há um cronograma para a realização de videoconferências em vários municípios do Pará, para ampliar a discussão sobre prevenção e tratamento da Sífilis e Aids.
       O novo protocolo adotado  pelo governo brasileiro, de expandir o tratamento aos portadores do vírus que não manifestaram a doença, é um dos avanços na luta contra a Aids, segundo ela. “O aumento dos Centros de Testagem e Acolhimento (CTA’s), que agora são 61 no Estado e o acompanhamento mais próximo das gestantes por meio da Rede Cegonha também colaboraram para ampliar o atendimento”, reforça. “Os municípios paraenses precisam agir em parceria, aqui temos desafios com áreas portuárias, áreas de mineração e locais onde o sexo vira moeda de troca e a prostituição começa muito cedo. Ao disponibilizar o remédio para todos que possuem HIV, a concentração do vírus diminui, caindo também o risco de transmissão e melhorando a qualidade de vida”, explica.
      Em relação ao preconceito, Débora destacou o trabalho da sociedade civil. “O estigma em torno da doença precisa ser quebrado, por isso o terceiro setor é importante, pois faz a ponte tanto com o poder público, quanto com pessoas que foram infectadas e podem dar depoimentos com propriedade”, defende. Ela detalhou também o uso do aplicativo desenvolvido pela Sespa. “É um programa educativo que traz instruções sobre o uso do preservativo feminino, mostra o perfil epidemiológico de várias localidades, assim como os endereços das redes de serviço”, complementa. A Unidade de Referência Especializada em Doenças Infecciosas e Parasitárias Especiais (Uredipe) é referência de atendimento aos pacientes com HIV/Aids e atende cerca de 5.200 pessoas atualmente, segundo a coordenadora, Jane Durans. “Temos observado o aumento de pessoas infectadas acima dos 60 anos, que somam quase 240, o que é reflexo da mudança no estilo de vida. Estamos vivendo mais e melhor, o que influencia na sexualidade, mas a informação é crucial para prevenir a doença, em qualquer idade e em qualquer grupo social”, destaca.
      Apesar de gays, bissexuais, profissionais do sexo, travestis, mulheres transexuais, usuários de drogas, detentos e moradores de rua serem apontados como a população mais vulnerável, Jane faz questão de frisar que todos estão suscetíveis ao HIV. “Uma vez identificado como soropositivo, o paciente é avaliado por uma equipe multiprofissional que vai ajuda-lo a absorver o impacto inicial do diagnóstico e tirar as dúvidas sobre tratamento, além de dar demais orientações”, assegura. Ela enfatiza que questões básicas como alimentação balanceada, higiene do corpo e do ambiente se tornam essenciais para a pessoa que convive com HIV/ Aids, pois ajudam a evitar as
infecções oportunistas.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Seurb vai mapear imóveis abandonados

*Publicado em O LIBERAL de 24/11/2013

BRENDA PANTOJA
Da Redação
   
    Três imóveis estão abandonados na rua Jerônimo Pimentel e são motivo de preocupação para os vizinhos. Os locais tornaram-se abrigo para moradores de rua e acumulam lixo, aumentando a proliferação de ratos e insetos. As casas ficam entre as travessas Marquês de Pombal e Soares Carneiro, mas a situação se repete em diversos pontos de Belém. O Código de Posturas do Município de Belém obriga os proprietários a manterem limpos os terrenos imobiliários e, caso não estejam habitados, o acesso público à propriedade deve ser impedido. Para identificar esses pontos, a Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb) iniciará, ainda esse ano, um levantamento em todo o município.
          Atualmente, a prefeitura depende de denúncias da população para chegar a esses locais e, ainda assim, os pedidos de limpeza se concentram na Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), que possui um canal telefônico específico para esse tipo de reclamação. Para denunciar abandono de imóveis à Seurb, é necessário ir ao prédio do órgão e protocolar a queixa, o que desestimula muita gente. “Temos a proposta de criar um meio de concentrar essas denúncias e estamos trabalhando em um canal, que pode ser por telefone ou internet, mas a ideia é combater essa prática com uma ação conjunta de vários órgãos”, anunciou o titular da Seurb, Adinaldo Souza de Oliveira.
        Além das secretarias de Urbanismo e de Saneamento, o projeto envolve a Secretaria Municipal de Finanças (Sefin), a Companhia de Desenvolvimento da Área Metropolitana de Belém (Codem) e a Fundação Papa João XXIII (Funpapa). “A Sefin nos ajudará a saber a situação cadastral de cada imóvel, bem como dos proprietários, enquanto a Codem auxiliará no mapeamento georreferenciado das áreas com mais ocorrências. A Funpapa vai atuar junto aos moradores de rua que geralmente ocupam esses terrenos”, detalhou.
         O objetivo é trabalhar de forma global e não pensar apenas em ações isoladas. Trabalhando em parceria, os órgãos irão notificar os proprietários, aplicar multas, realizar ações de limpeza e desocupação, ou, em casos mais extremos de descaso, buscar judicialmente a desapropriação da
área. “Uma das razões mais comuns para tantas propriedades serem abandonadas é a especulação imobiliária. Os donos não têm interesse em fazer reparos esperando que a área valorize”, afirmou.
         Batalhas judiciais também são motivos comuns, como no caso de uma das casas na Jerônimo Pimentel. De aparência clássica e completamente construída, o imóvel de número 934 já foi saqueado. Sem portas nem janelas e cercada pelo mato, a propriedade definha por causa de um conflito por herança de família que se arrasta ao longo dos anos, segundo os moradores próximos. O mesmo quadro é visível nas casas de número 918. A universitária Angélica Monteiro, 20, mora a uma casa de distância dos terrenos abandonados e já foi assaltada cinco vezes no portão de sua residência. “A insegurança aumentou bastante há cerca de três anos, quando abandonaram de vez a área. Eu evito andar por essa calçada. Duas mulheres já foram violentadas lá dentro”, reclamou.
          O lixo está espalhado por toda a parte, até mesmo na calçada, que também foi danificada. “A polícia já foi acionada várias vezes, mas eles apenas tiram os mendigos, que em pouco tempo retornam. Dos donos não se tem nem notícia”, contou. De fato, os portões dos imóveis não impedem o acesso, o que põe em risco a vida de quem mora ao lado. O webdesigner Rônis Oliveira, 34, mora em uma vila próxima, mas os fundos da casa são colados ao quintal dos imóveis abandonados, o que o obrigou a levantar o muro para evitar invasões e contratar um dedetizador. “A quantidade de mosquitos, ratos, baratas e até carrapatos incomoda demais e afeta diretamente a saúde da minha família. Eu e meu filho desenvolvemos alergias por causa disso”, queixou-se. 
           Na avenida Fernando Guilhon, entre as travessas Generalíssimo Deodoro e 14 de Março, uma casa está com o chão totalmente recoberto de lixo e entulho e o abandono já dura tanto tempo, que algumas espécies de árvores cresceram na laje. O imóvel está abaixo do nível do asfalto e segundo João Batista, 77, esse foi o problema inicial dos antigos moradores, há 15 anos. “Quando a rua foi aterrada, a casa alagava muito e a estrutura ficou comprometida. Como o terreno era da Caixa Econômica, mas a casa foi construída pelos compradores, nunca ficou decidido quem pagaria pelo prejuízo”, explicou. Ele ressalta que a história é antiga e ninguém mais tem contato com os donos do imóvel. 
         Enquanto a solução não chega, a maior prejudicada é a família da professora Bernadete Tavares de Souza, que é vizinha do local. “As pessoas não jogam só entulho, também jogam lixo doméstico, que atrai bichos. Virou criadouro de mosquito da dengue, moradores de rua se reúnem durante a noite para consumir drogas, fazem necessidades e o cheiro fica insuportável”, criticou. Para minimizar o incômodo, eles precisam espalhar veneno pelo quintal e manter as janelas fechadas. Os portões e grades de ferro da antiga construção foram levados. Vizinhos e até moradores de outra rua acostumaram-se a jogar lixo em todo o terreno, sem se preocupar com o prejuízo que a prática acarreta. “Quando chove, parte desses resíduos é arrastada para a rua, entupindo os bueiros. Ligamos pra Sesan e até pra Sesma, por causa dos focos de dengue, mas nada de concreto é feito”, acrescentou.
       Adinaldo Oliveira reconhece que “não havia” ação clara e definida no sentido de solucionar esses impasses, mas o mapeamento, segundo ele, será fundamental na elaboração de um plano de ação. “Os técnicos de levantamento irão às ruas para fiscalizar setor por setor, o que possibilitará visualizar espacialmente o cenário e agir de forma coordenada, com a intenção de reduzir o impacto dessa infração para a população”, complementou.

domingo, 16 de novembro de 2014

Icoaraci perde legado dos seus casarões

*Publicado no jornal O LIBERAL de 27/10/2013

BRENDA PANTOJA
Da Redação

     Quem visita a antiga casa do poeta paraense Antônio Tavernard, em Icoaraci, encontra o abandono. A placa em frente informa que se trata de um “casarão antigo do século passado”, mas está em ruínas e tomado pelo mato. A situação se repete com outras construções históricas do distrito, que se 
deterioram sem restauração. A Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel) diz que planeja um novo inventário do patrimônio histórico e arquitetônico no próximo ano. O último, de 1994, está desatualizado, segundo a presidente da fundação, Heliana da Silva Jatene.
     A antiga Estação de Trem e o Chalé Tavares Cardoso, que abriga a biblioteca Avertano Rocha, também estão em péssimo estado de conservação. A Associação dos Agentes de Patrimônio da Amazônia (Asapam), coordenada pelo historiador e especialista em patrimônio cultural Jeancarlo Pontes Carvalho, reúne informações sobre o estado desses e de outros imóveis históricos, repassa aos órgãos competentes e cobra melhorias. Recentemente, a denúncia de que um casarão na rua Manoel Barata, entre as travessas Berredos e Andradas, seria demolido para a construção de um supermercado foi divulgada na página da entidade e teve ampla repercussão nas redes sociais. “Não há imóvel histórico com autorização para ser derrubado em Icoaraci, no máximo o local pode ser revitalizado”, rebateu a presidente da Fumbel. 
     Jeancarlo observa que os casarões de Icoaraci fazem parte da história do Pará. “Infelizmente, os casarões históricos da vila, assim como a grande maioria em todo o Pará, padece o descaso da sociedade, é provável que 90% estejam em péssimas condições”, avalia, ao citar a antiga Estação de Trem. A fachada indica que uma Cooperativa de Artesãos funcionou no local, mas o prédio permanece com as janelas e portas trancadas, cercado pelo mato alto. Vizinhos afirmam que uma família sem-teto ocupava o imóvel. Revitalizar os bens patrimoniais reforça a grandiosidade da cultura paraense, defende Jeancarlo. “A importância da preservação é deixar às próximas gerações essa herança, legado de um passado importante ao desenvolvimento da nossa cidade”, definiu. Ele e a presidente da Fumbel sustentam a necessidade de um relatório atualizado que possibilite acompanhar a situação dos imóveis.
     “O Chalé Tavares Cardoso é o exemplo mais notório de abandono. Está cheio de infiltrações, rachaduras e algumas estruturas da casa ameaçam desabar”, denuncia Jeancarlo Carvalho. O prédio é tombado pelo município, mas o terreno ao lado, constantemente alagado, pode prejudicar as fundações da casa. A situação piorou depois que uma construção irregular em frente ao chalé obstruiu o escoamento da água do esgoto e da chuva, fazendo ela se acumular na propriedade histórica. 
       As obras para uma nova galeria subterrânea que comporte o fluxo do terreno deverão começar até o final do ano, anuncia Heliana Jatene. Segundo ela, a Fumbel pediu apoio à Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) para solucionar o problema. “O chalé precisa de providências imediatas de restauração, mas a Sesan informou que não adiantava bombear a água novamente, por isso estão estudando para definir a melhor maneira de escoar”, acrescentou. Ela explicou que a Prefeitura não conseguiu incluir o chalé entre os patrimônios tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que não aceitou a proposta sob a alegação de que o imóvel não faz parte do centro histórico de Belém. 
        “Este casarão, sem dúvidas, está com os dias contados. Se as secretarias responsáveis ficarem de braços cruzados, é provável que, em alguns anos, ele tombe, literalmente”, critica Jeancarlo. A indignação dos integrantes da Asapam se estende ainda à casa Senador José Porfírio, com traços do Art Nouveau que marcou o final do século XIX em Belém, mas hoje com a estrutura danificada, mato
e lixo ao redor. Ele defende que os espaços sejam transformados em pólos culturais e turísticos. “Os casarões são a prova material da nossa história e testemunho dos períodos da Belle Époque e o ciclo
da borracha que se desenvolveu no Pará”, argumenta. 

INVENTÁRIO
     “A atual gestão recebeu a Prefeitura sem informações sobre os bens patrimoniais do município. Para fazer esse acompanhamento é necessário elaborar um inventário e essa é a prioridade da Fumbel no momento”, informou Heliana Jatene. A ideia é convocar os cursos de Arquitetura, da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade da Amazônia (Unama), para auxiliar na elaboração do inventário, que vai abranger Belém, Icoaraci, Mosqueiro e Cotijuba. Ela informou que a proposta já foi enviada às instituições, mas não houve resposta. Não há um prazo para se iniciar o projeto e ainda será definido quais serão as atribuições de cada órgão, mas a expectativa é iniciar o levantamento no ano que vem. “No entanto, não é uma tarefa fácil e nem rápida. Somente depois do trabalho concluído poderão ser providenciadas licitações para restaurar os imóveis”, ressaltou.
     A casa do poeta Tavernard, de acordo com a Fumbel, está em processo de tombamento pelo município. “O abandono muitas vezes ocorre pela falta de atitude dos proprietários. É bom lembrar que o Ministério da Cultura oferece um financiamento para os donos de imóveis históricos”, pontuou Heliana, ao apontar as denúncias de abandono e depredação como a principal forma de ajudar a Fumbel a preservar o patrimônio. As informações podem ser fornecidas pelos telefones 3230-3684 ou 8733-3929.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Círio de Vigia emociona 250 mil fiéis

*Publicado no jornal O LIBERAL de 09/09/2013

BRENDA PANTOJA
Da Redação

      Aproximadamente 250 mil fiéis lotaram as ruas de Vigia, ontem, para participar do Círio de Nazaré, que chegou à 316ª edição e é considerado o círio mais antigo do Pará. A diretoria da festa calcula que cerca de 300 mil pessoas circularam pela cidade durante os três dias de festividade, que teve como tema “Pela fé, como Jesus e Maria, sejamos obedientes ao Pai”. História e devoção se unem à tradição da romaria, que cresce a cada ano, mas mantém algumas raízes da simplicidade de sua origem. Uma delas é o Carro dos Fogos, que é puxado por um búfalo e abre a procissão com queima de fogos; o Anjo do Brasil, uma garota vestindo  as cores da pátria e carregando a bandeira brasileira; e ainda a apresentação de bandas de música locais.
A programação iniciou-se com uma missa às 6 horas da manhã na Igreja de São Sebastião, no bairro de Arapiranga, ponto de partida da romaria. A igreja tem capacidade para 400 pessoas e ficou completamente lotada. “Para acomodar melhor o número cada vez maior de devotos estamos fazendo uma reforma de ampliação. No entanto, a obra ainda não tem previsão de conclusão, pois depende dos recursos arrecadados pela paróquia”, ressaltou o pároco José Carlos Silva da Cruz, que celebrou a missa. É o primeiro ano em que o padre participa da organização e diz que se sentiu honrado com a responsabilidade de ajudar a promover uma festa dessa importância para a cidade e para o estado.
A saída da imagem atrasou e ocorreu às 9 horas, mas não comprometeu o cronograma, que foi cumprido com a chegada da imagem na Igreja Matriz às 11h45. Logo em seguida iniciou-se a celebração da missa festiva que encerrou as atividades de ontem. Por onde passava Nossa Senhora de Nazaré era saudada com orações e emocionava os devotos. Mutios choravam. A imagem estava envolta em um manto em tons de branco, azul e dourado e abrigada na berlinda decorada com rosas vermelhas.
A coordenadora geral do Círio, Licely Magalhães, citou o novo carro que conduz o andor. “O veículo antigo foi trocado por estar danificado e para evitar que comprometesse o andamento do cortejo, pois o Círio é composto de cinco estações além da berlinda”, contou. A romaria tem ainda as barcas de São João, São Pedro e São José, que levam as crianças vestidas de marinheiros, a barca dos Milagres, que recolhe os votos atendidos dos promesseiros  e o Carro dos Anjos. O percurso foi de quase quatro quilômetros e 400 metros de corda foram levadas pelos romeiros até o final, quando ela foi cortada e repartida entre os fiéis.
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A Polícia Militar não registrou nenhuma ocorrência, segundo o major França do 12º Batalhão. “Nós disponibilizamos 50 policiais para a procissão, além do apoio de outras guarnições”, informou. Ao todo, o efetivo foi de 100 policiais, além dos 300 agentes da Guarda da Santa. No decorrer da procissão, 12 pessoas foram atendidas por desmaio e duas por arritmia cardíaca, de acordo com o comandante Pinheiros do Corpo de Bombeiros, que trabalhou com 20 militares e teve com a colaboração de 20 voluntários da Cruz Vermelha. “Muitas pessoas vem sem a alimentação adequada, que deve ser reforçada principalmente para quem vai na corda. O forte calor e a falta de hidratação também contribuem
para o acometimento de mal súbito”, explicou.
O autônomo Antenor Moraes, 48, tomou todos os cuidados necessários para acompanhar a romaria na corda e cumprir a promessa em agradecimento ao reestabelecimento da sua saúde. Há três anos ele começou a sentir pontadas no peito, mas nenhum exame diagnosticava o problema, até que resolveu pedir a cura a Nossa Senhora e as dores passaram. “O círio já tinha um significado especial, mas na corda é mais emocionante, mais gratificante, pois fortalece a fé”, afirmou. Logo no início da procissão, o tempo fechou por alguns minutos e ameaçou chover, mas a multidão só aumentava a cada trecho e a partir da metade da procissão o clima voltou a esquentar, fazendo as pessoas seguirem com sombrinhas e leques para se protegerem do sol e do calor.
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Os devotos iniciaram a caminhada  na rua São Sebastião e seguiram para a avenida Santana de Medeiros, avenida Barão de Guajará, travessa Vilhena Alves, rua Nazaré, travessa Hilário Cardoso e a avenida professora Noêmia Belém, para chegar à Igreja Matriz. Em todas as vias as janelas das casas estavam abertas e as fachadas decoradas para homenagear a santa. Faixas, flores, balões e berlindas coloriram as ruas centenárias de Vigia e simbolizaram o carinho da população a Nossa Senhora. A ornamentação especial para a ocasião faz parte da comemoração na família da professora Celeste Barbosa, 68. De cada lado do portão ela posicionou duas réplicas em tamanho menor da berlinda com a imagem, cercada de adornos. “Todo Círio a casa é enfeitada para acompanharmos a passagem da santa e depois acontece reunião em família para, em média, 50 pessoas”, disse.
Para ela, que é historiadora e devota, o Círio de Vigia é duplamente importante. “A relação de fé da população daqui é ainda mais antiga que em Belém, e já era expressada antes mesmo das romarias serem nomeadas  de Círio. A cidade de Vigia é mariana e essa essência passa de geração em geração  sem se perder, pelo contrário, só se multiplica”, observou. A professora reforçou a mensagem transmitida durante a festa religiosa, que ”consiste em promover um momento de reflexão individual, mas sem esquecer o amor ao próximo”.
            A adolescente Dayane Nunes, 17, participou do percurso pela primeira vez e estreou de uma forma muito bonita: tocando saxofone na Banda Sinfônica Maestro Vale, uma das que acompanha a romaria. “Futuramente tenho vontade de ir na corda, mas só tocar em honra a Nossa Senhora já é um grande privilégio”, comentou animada. Ela está em ano de vestibular, pretendendo ingressar no curso de Música, e aproveitou para pedir a aprovação no processo seletivo, com a promessa de continuar acompanhando a procissão daqui para frente. “Foi um mês de ensaio puxado, mas deu para conciliar com os estudos e o esforço de tocar durante todo o trajeto vale a pena, é um jeito de ser grata à santa”, completou.
            Esta edição do Círio também foi marcante para a lavradora Nair de Sousa, 53. Os braços levantados e a   maquete de uma casa em cima da cabeça simbolizam a compra da casa própria, uma vitória esperada há muito tempo. “Sou bragantina e frequentava o Círio de lá, mas há oito anos me mudei para cá e participo sempre, pois a devoção é a mesma em qualquer lugar”, declarou. Para ela, o sentimento é uma mistura de felicidade, orgulho e devoção por poder cumprir uma promessa feita há muito tempo.
            Na família da agricultora Maria Gracinete Paes, 32, a devoção foi compartilhada. No ano passado, o filho  mais velho dela sofreu um acidente e precisava fazer duas cirurgias. “Foi quando a minha caçula ficou muito preocupada e prometeu à Nossa Senhora que se ele ficasse bom rapidamente ela iria como anjinho no próximo Círio”, complementa a mãe. O pedido foi atendido e o Lucas, de 14 anos, teve uma recuperação ótima sem necessidade da segunda operação. A pequena Lívia, 6, honrou a promessa e participou do Carro dos Anjos, acompanhada de perto da mãe e do irmão.
            Andrey Miguel, de apenas 4 anos, acompanhou o Círio pela primeira vez e de maneira especial. Ele e mais dois primos estavam no carro dos marujos, com roupas de marinheiros. “Eu e minha irmã decidimos colocá-los para participar no carro em agradecimento ao ano passado, em que muitas bênçãos foram recebidas”, justifica a mãe dele, a autônoma Andréa Torres, 30. É também a primeira vez que a família faz o trajeto toda junta e ela acredita que a experiência será positiva para as crianças. “É importante para que eles aprendam desde cedo o valor da fé e se tornem pessoas de bem. O Andrey até participa do catecismo mirim em uma paróquia daqui. Sem falar que eles se divertem”, brincou, apontando para os meninos que riam em cima do carro.
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            O Círio de Vigia atrai devotos de outras localidades que vão a Vigia louvar Nossa Senhora de Nazaré, como é o caso da funcionária pública Lucimir Lira, de 51 anos. Ela é moradora de Mosqueiro e acompanha a procissão no município há sete anos. “Antes tinha o costume de participar da romaria de Nossa Senhora do Ó (realizado no distrito) e do Círio em Belém, mas vi no Círio daqui uma oportunidade a mais de agradecer as graças recebidas na família. A festa aqui também é muito bonita”, elogiou. Ela foi para Vigia com um grupo de 30 pessoas, entre parentes e amigos, e alugou uma casa para poder aproveitar bem todos os dias da festa.
A professora Ana Pantoja, 63, apesar de ser natural de Vigia, só acompanhou o Círio até os 18 anos de idade, quando se mudou para a capital paraense. Com saudade da festividade, ela voltou a frequentar o Círio na terra de origem desde o ano passado. “Quando saí daqui, a festa já era grande e tradicional, mas desde então a fé da população tem crescido e agregado mais valor ainda ao Círio”, observou.
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O Círio também é oportunidade de trabalho para muitas pessoas, principalmente camelôs. O ambulante Assis Ferreira, 48, se deslocou de Belém para a cidade para vender toalhinhas decoradas especialmente para a festividade. “Trouxe mil unidades que começaram a ser confeccionadas em maio, com a ajuda da minha esposa e filho”, relatou. Apesar do esforço para vender toda a mercadoria nos três dias do evento, ele disse que sempre sobram cerca de 50 unidades e que ao acompanhar a procissão trabalhando, é impossível não se comover. “Aproveito para agradecer pela saúde da minha família, pela disposição para batalhar pelo meu sustento”, acrescenta ele, que costuma viajar para as maiores romarias do Pará  vendendo as toalhas.