quarta-feira, 10 de junho de 2015

Projeto leva economia justa a Cotijuba


*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 31/07/2014

BRENDA PANTOJA
Da Redação

      Um galpão pequeno, onde se pode ouvir o barulho que o vento faz nas folhas das árvores, é o ambiente de trabalho da artesã Danielle Conceição, 34. Com as mãos ágeis, ela manipula os fios que depois serão usados para compor as biojoias e bloquinhos de papel reciclado produtos do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB). A sede da entidade fica na ilha de Cotijuba, localizada a 40 minutos de barco da capital paraense, e vai ser o ponto de distribuição de artesanato regional para todo o país, via internet.
      Esta é a proposta do projeto Amazônia Justa, desenvolvido pelo MMIB em parceria com o Instituto Brasil Justo e com apoio da Petrobras. Em andamento há quatro meses, a primeira fase do projeto está terminando e consiste na realização de cursos, oficinas e compras de maquinários. O cronograma prevê a inauguração da loja virtual em fevereiro de 2015, no site www.istoesustentavel.com.br. Até lá, serão realizados eventos e exposições para divulgar a iniciativa. 
      Danielle aprendeu a confeccionar os acessórios a partir das folhas de priprioca, bananeira e sementes em 2009, quando se associou ao movimento. “Fazia algumas peças de crochê antes, mas, por distração. A partir do curso de biojoias vi que tinha um outro caminho, uma outra forma de ganhar dinheiro sem ter que ir para a cidade”, conta.
        Ela morou em Belém por cinco anos, para estudar, mas não pretende deixar a ilha novamente. “Aqui o ritmo de vida é outro, a gente trabalha com tranquilidade”, acrescenta. A artesã se divide entre o trabalho em casa, com os dois filhos adolescentes, e a ajuda no MMIB. “A gente sempre está produzindo, às vezes mais, às vezes menos, mas sempre tem peça para vender. As ações do Movimento tem atraído bastante público jovem, e eu que sou mãe fico de olho nisso, porque aqui os jovens não têm muita ocupação”, afirma. Além do Bolsa Família, que recebe mensalmente, ela complementa a renda familiar com o valor repassado pelo projeto para os integrantes, que varia
entre R$ 300 e R$ 500. 
        Segundo a coordenadora administrativa do MMIB, Adriana Lima, o Amazônia Justa é composto por seis mulheres e um homem, enquanto o Movimento conta com 68 associados. A entidade existe há 15 anos e promove outras iniciativas, como o projeto Vida e Companhia, que atende cerca de 100 idosos; o projeto Amazônia, que oferece cursos de empreendedorismo para 35 jovens entre 16 e 21 anos; e a conservação da planta ucuuba. O MMIB tem, ainda, um centro de inclusão digital, com aulas semanais de informática e formação de 20 pessoas por trimestre, além da sala de leitura, único espaço do tipo na comunidade.
       “Trabalhamos com biojoias há cinco anos, através de uma parceria com o Instituto Peabiru e a Mapinguari Design, mas a produção de papel artesanal começou em 1999. Agora, com o Amazônia Justa, é que juntamos os dois para comercialização e o principal objetivo é trabalhar, mas sem ter que sair de Cotijuba para vender”, explica. 
       O Movimento já recebeu uma prensa e uma guilhotina industrial, e aguarda uma máquina de corte e vinco. Com o reforço no maquinário, eles conseguem produzir, semanalmente, 100 folhas recicladas, 200 blocos de papel por semana e 50 terços, considerado o destaque do trabalho com as biojoias.  

COOPERATIVA
       Em agosto, a Fundação Curro Velho vai promover uma formação para os participantes do projeto e moradores da ilha. “Além dos acessórios, usamos as sementes e folhas de árvores também nos blocos de papel. Como iremos expandir a distribuição, esta oficina vai ajudar a trabalhar o beneficiamento das sementes e manuseio dos produtos prontos, porque precisaremos fazer estoque e surgem  problemas como umidade e mofo. Também haverá oficina sobre cartonagem e encadernação”, informa Adriana. A ideia, de acordo com ela, é formar uma cooperativa a partir do MMIB, que possa trabalhar na ilha.
      “As propostas que recebíamos era sempre de deixar Cotijuba e ir para Belém para comercializar  nossa produção, mas isso criava mais dificuldades do que ajudava, pela questão de locomoção e dos gastos”, argumenta. Com um plano diferente, o Instituto Brasil Justo já garantiu parceria com o portal www.maniadepoesia. com.br, onde os produtos são vendidos em kits.
        Ainda em agosto, uma integrante do MMIB viajará ao Rio de Janeiro para divulgar os produtos na estação de metrô do Cantagalo, que possui um fluxo de clientes superior a 30 mil por dia, o equivalente a cinco vezes a população que reside na ilha. A oportunidade servirá como um meio de avaliar a aceitação dos produtos no mercado e assim rever padrões de qualidade, atendimento, velocidade de produção, forma de pagamento mais efetuada, dentre outros quesitos fundamentais para o aumento das vendas. 
       “A partir dessa organização poderemos ter uma produção contínua. Antes dependia muito de encomendas, mas agora a demanda vai aumentar naturalmente e não apenas isso, mas o crescimento virá acompanhado de conhecimento e qualidade”, ressalta Adriana.
      Esta também é a expectativa do artesão Delson da Conceição, 32, irmão de Danielle. Ele conheceu o Movimento quando participou da oficina de papel reciclado, há 15 anos, e desde então não abandonou a atividade. “Quem acompanha o trabalho do MMIB há muito tempo, sabe o quanto esperávamos por uma chance e agora chegou essa oportunidade.  Espero que tudo continue dando certo, que a gente possa envolver mais moradores da ilha e fazer desse trabalho uma renda fixa”, reforça.  Além de produzir os blocos e folhas, que ficam prontos entre 30 minutos e duas horas, dependendo do tamanho, ele trabalha fazendo diversos serviços em Cotijuba para aumentar a renda.
          Elcicleia Fernandes, 36, também trabalha como artesã e acredita que o projeto trará resultados positivos para a juventude da região. “Assim como eles, cheguei através de um curso e descobri um  talento que não sabia que tinha. É um trabalho que gosto muito de fazer e a minha filha, de 16 anos até já aprendeu e, de vez em quando, me ajuda com as encomendas”, diz.
          Os três artesãos concordaram que a atuação do MMIB tem atraído a atenção dos adolescentes e jovens, mas por causa das atividades que envolvem máquinas e vínculos empregatícios, são poucas as atividades que eles realmente podem participar. Ainda assim, alguns ajudam no projeto de conservação do ucuuba. Eles fazem monitoramento nos viveiros, catalogam plantas e mapeiam as espécies. 

CONVÊNIO
        Por isso, Adriana adianta que a associação está buscando convênio com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) para levar cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Sobre a trajetória do Movimento, ela pondera que foram muitos anos realizando pequenos cursos, mesmo sem enxergar como essas ações trariam, de forma concreta, grandes mudanças na realidade local. “Nós persistimos e apostamos em uma combinação importantíssima: conhecimento tradicional, produção artesanal e sustentabilidade. São 30 pessoas na entidade que vivem isso diariamente, se dedicando integralmente, e nós visualizamos que a geração de renda a partir disso não é um sonho impossível, pelo contrário, é uma realidade se concretizando”, defende. Para ela, eles nadam contra a maré ao promover um trabalho econômico e social como este, uma vez que é comum os jovens saírem de Cotijuba e percorrerem o estado atrás de oportunidade.

Portal mudará visão da população que ainda depende de bolsas do governo
      Força de vontade, técnica  e localização geográfica são as principais ferramentas de que a população precisa dispor para se conscientizar de que pode transformar a sua realidade, na visão do coordenador geral do projeto pelo Instituto Brasil Justo, Célio de Carvalho. “Isto ficará bem claro para a população quando o Projeto começar a gerar rendas maiores do que eles estão acostumados. Hoje a população está dependente de várias bolsas oferecidas pelo governo, além de empregos distantes de suas casas para se manterem. No futuro, com o andamento do projeto, isso vai mudar”, garante.
      Ele lembra que a ideia vem sendo discutida desde 2011, quando buscavam uma forma de incentivar a proteção da floresta amazônica e gerar renda para os pequenos produtores e associações locais. “O principal foco do Amazônia Justa é abrir um canal de vendas para as comunidades da Amazônia que possuem uma produção eco-sustentável e se localizam em regiões afastadas dos grandes centros”, define. 
      Segundo ele, os obstáculos encontrados, como a falta de subsídios, capacitação e renda, poderiam ser minimizados eliminando os intermediários e adotando o e-commerce. O mesmo portal também vai vender o mel produzido pela Associação de Meliponicultores de Curuçá (Asmelc) e os pacotes de turismos de base comunitária da agência de ecoturismo “La no Mangue Ecotour”. Célio de Carvalho diz que embora haja mercado para produtos sustentáveis, muitas pessoas ainda acham que são itens ruins, que apodrecem e possuem um prazo de validade curto. “Nosso desafio é aumentar a qualidade desses produtos, padronizá-los, criar um controle de qualidade e ganhar a confiança dos clientes. Para isso o projeto investe nas máquinas, cursos e realização de Procedimentos Operacionais Padrões (POPs) para cada produto”, aponta.
      O conceito exercitado pelo instituto é o da Economia Justa, que, em termos reais, é gerada quando o consumidor final paga o preço de mercado de um produto e mais de 70% deste valor vai para o produtor. Segundo ele, por meio do portal, 95% do valor da venda irá para o MMIB e os outros 5% serão utilizados para pagar o seguro virtual e impostos.

PLANO
     O instituto formatou um plano de negócios e de marketing para o projeto, que inclui a participação de artistas na fase de divulgação dos produtos, e começaram a inscrever a iniciativa em editais. No final do ano passado, o patrocínio foi aprovado pelo edital Petrobras Comunidades. “Vendendo o que os nativos produzem, criamos a possibilidade para que eles gerem renda familiar e permaneçam de forma sustentável em suas terras, protegendo-as. Aumentando a demanda das biojoias, demandaremos mais mão de obra da Ilha, gerando mais renda verde para a população local. Socioambientalmente  falando, tem coisa mais bonita que isso?”, resume. No site www.institutobrasiljusto.org.br, é possível encontrar informações sobre os outros projetos desenvolvidos pela organização.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Obra em condomínios ficará mais cara


*Publicado em O LIBERAL de 06/04/2014

BRENDA PANTOJA
Da Redação      

     As reformas de imóveis em condomínios ficarão mais caras a partir de 18 de abril, quando as obras feitas por moradores não poderão mais ficar a cargo do pedreiro de confiança ou do profissional autônomo conhecido como “faz-tudo”, devendo ser responsabilidade de empresas especializadas. A regra vale para propriedades residenciais e comerciais, novas e usadas, e foi estabelecida pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que publicou a norma NBR 16.280 e estabeleceu um roteiro de procedimentos para condôminos e síndicos.
    A principal exigência é a elaboração de laudos, assinados por engenheiro ou arquiteto, para serem aprovados pelo síndico, que deverá consultar especialista para analisar o laudo e propor as mudanças necessárias, caso entenda que a obra oferece risco à edificação ou aos moradores. Isso vale mesmo para obras mais simples, como pinturas interiores. Os custos da contratação de profissional para avaliar a reforma e fornecer um laudo são de, no mínimo, R$ 2.500 mais a taxa de R$ 250 por hora de trabalho, conforme a tabela do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape). 
      No Pará, o Sindicato dos Condomínios do Estado (Sindcon) orienta, desde 2012, os síndicos a cobrarem dos moradores o planejamento das obras. Segundo o presidente da entidade, José Nazareno Lima, a ação preventiva foi adotada depois que o Ministério Público do Estado (MPE) emitiu a recomendação 06/2012, por meio da Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor, exigindo os procedimentos. “Se deixar, as pessoas fazem o que bem entendem e quebram onde querem. Já era instrução nossa para eles, mas esta norma vai dar mais força e estimular o comprometimento de todos”, avalia.
      O Sindcon aconselha os administradores que denunciem aos Conselhos de Engenharia (Crea/PA) ou Arquitetura (Cau/PA) e recorram à justiça para embargar obras que contrariam as medidas de segurança. São cerca de 1.400 condomínios cadastrados na Grande Belém, de acordo com Nazareno, e ele acredita que será papel dos síndicos fiscalizar as obras. “Haverá muita reclamação, mas os moradores terão que se adequar”, afirma. O engenheiro civil e arquiteto Alexandre Ferreira, segundo vice presidente do Crea/PA, alerta que as normas da ABNT são obrigatórias e a responsabilidade do monitoramento será dos síndicos, mas diz que o órgão também poderá fiscalizar.

RESPOSTA
      “A medida surge em resposta ao acontecido no edifício Liberdade, no centro do Rio de Janeiro, há dois anos. É uma  necessidade para o setor, pois fecha o cerco ao amadorismo e vai coibir a atuação de quem não estudou para fazer essas intervenções”, reforça. Para ele, antes da regulamentação, os condôminos sentiam-se livres para fazer alterações perigosas na estrutura dos prédios, modificações que não constavam no projeto inicial e poderiam prejudicar as fundações, principalmente em prédios mais antigos. “A norma pode parecer dura quando inclui ações simples, como a pintura das paredes, mas não está errada. É comum o morador começar com uma pintura e decidir fazer outros serviços durante a reforma”, justifica.
      A arquiteta Albanice Pantoja diz que, na maioria das vezes, se dispensa a apresentação de laudos para poupar tempo e dinheiro. “É preciso conversar para mostrar ao cliente que o laudo é importante se a obra for causar alguma mudança estrutural, em alguns casos a gente até se recusa a fazer sem a supervisão de um especialista”, conta. Mesmo uma troca de revestimento pode afetar a edificação, exemplifica. “Teve um caso em que o morador queria colocar o piso de granito por cima do atual, o que iria acrescentar peso no andar. Pode parecer pouco, mas se outros moradores fazem o mesmo, representaria um peso não calculado no projeto”, esclarece. Para ela, a segurança será o principal ganho para todos.
     O professor aposentado Mauro Castelo Branco, 65, é síndico há quatro anos em um edifício na avenida Conselheiro Furtado e diz que foi pego de surpresa pela nova regra. “A gente se guiava pela conversa e pelo bom senso. O morador me avisava, assim como aos vizinhos ao lado e abaixo, mas não era obrigado a mostrar projeto técnico. Alguns até apresentavam o engenheiro ou arquiteto, mas informalmente. A norma traz mais respaldo e segurança, principalmente para o síndico, que também responde em casos de complicação na estrutura do prédio”, pontua. Ele se comprometeu a buscar mais informações sobre a norma e repassar aos condôminos, já que o prédio tem algumas reformas em andamento. “Em todos os anos que moro aqui, a estrutura nunca correu risco por causa de obras indevidas. O maior problema, geralmente, é quando os vizinhos reclamam do barulho e sujeira. Com a contratação de profissionais especializados, os custos vão aumentar e isso vai exigir negociação, se representar gastos para o condomínio”, diz ele.
    A NBR 16.280 é intitulada “Reformas em edificações – Sistema de Gestão de Reformas – Requisitos” e tem 17 páginas, com etapas a serem seguidas antes, durante e depois das reformas, assim como as responsabilidades dos profissionais, clientes e síndicos. O documento está disponível para venda no site www.abnt.org.br, no valor de R$ 67. 

Entenda a norma NBR 16.280 da ABNT
• O documento contém os procedimentos exigidos para obras (mesmo que somente no interior) em edificações novas e antigas, comerciais e residenciais. As normas passarão a valer em 18 de abril, mesmo para obras como pinturas ou troca de revestimento.
• Toda reforma deverá ser comunicada ao síndico, que poderá autorizá-la ou não.
• Todo o programa da obra deverá ser descrito em um laudo, elaborado por um arquiteto ou engenheiro.
•  Não será permitido contratar apenas um pedreiro ou pintor de confiança, mas sim empresa capacitada ou especializada, com um responsável legal pelo projeto.
• Contratar um profissional para avaliar e produzir um laudo custa, em média, R$ 2.500 mais R$ 250 por hora de trabalho
• Será responsabilidade do síndico fiscalizar se os documentos estão regularizados. Caso as normas sejam desobedecidas, ele poderá procurar os Conselhos de Engenharia ou de Arquitetura, a prefeitura ou a justiça para embargar a obra.

domingo, 31 de maio de 2015

Relatos de um certo Milton Hatoum

* Publicado no Guia da XVIII Feira Pan-Amazônica do Livro, encartado no jornal O LIBERAL em 30/05/2014 


O escritor amazonense de origem libanesa será um dos principais homenageados da Pan-Amazônica deste ano. Para ele, o convite reforça o seu amor pela capital paraense.

     Nascido em Manaus e com descendência libanesa, o escritor Milton Hatoum, de 61 anos, não esconde o carinho por Belém. Ele diz que o convite para ser o escritor homenageado da Feira Pan-Amazônica deste ano, juntamente com o título honorífico de “Cidadão do Pará” concedido no ano passado pela Assembleia Legislativa do Estado, reforçaram um “antigo caso de amor” com a capital paraense. 
      Mesmo contemplado quatro vezes com o Prêmio Jabuti, o amazonense conta que não acredita muito em “méritos”. Mas ele é considerado um dos grandes escritores do Brasil e sua obra inclui romances como “Relato de um Certo Oriente”, “Dois Irmãos”, “Cinzas do Norte”, “Órfãos do Eldorado” [onde deixa escapar seu amor por Belém], além dos livros de contos, crônicas e poesia. Com publicações traduzidas  em 12 línguas e lançadas em 14 países, Hatoum fala sobre a conexão com a cultura árabe e de sua relação com a produção literária regional.

Além do senhor, que tem descendência libanesa, o Qatar também será homenageado nessa edição da Feira, numa abordagem da cultura árabe em geral. Por que se destacar a integração entre duas culturas tão ricas?
Nós somos mestiços, como todos os brasileiros. Homenagear a cultura árabe passa obrigatoriamente pela brasileira. Alguns traços dessa cultura já foram trazidos pelos colonizadores portugueses. Na nossa língua há uma herança árabe, por causa da presença daquele povo por sete séculos na Espanha e três séculos em Portugal. Temos estudos maravilhosos sobre essa influência. 

Sua obra será tema de um seminário, onde serão abordadas as memórias acerca de Manaus e você ministrará uma palestra “Passagens para um Certo Oriente”. Como o seu trabalho faz essa ponte entre Ocidente e Oriente? 
Durante o seminário vou falar das origens do romance [Relato de um Certo Oriente], de como ele surgiu, da relação entre a vida e a literatura, do que me inspirou e quais foram as dificuldades técnicas de construir essa narrativa. Foram quase seis anos de trabalho para terminar esse livrinho, que completa agora 25 anos. Vou dividir as minhas impressões acerca desse Oriente meio difuso, dessa língua árabe que me escapou, mas está na minha alma e memória como uma melodia, uma linguagem da infância. Ela existe como sons, como prosódia e essa carnalidade da língua, que é puramente o som, é muito familiar para mim. Embora eu não fale o árabe, eu o sinto. Isto é algo que se perdeu muito entre os imigrantes, já na segunda terceira geração. A minha família é um exemplo, pois o meu pai era libanês, mas a minha mãe era amazonense.

O que representa, para o senhor, ser o escritor homenageado da Feira e poder interagir com um público tão diversificado, composto em boa parte de jovens leitores? O que espera desse contato?
Sinto-me muito honrado e contente em ser homenageado, em especial, porque agora sou oficialmente também um paraense, pois ganhei o título de “Cidadão do Pará”. Tenho uma verdadeira paixão por Belém, já é um caso antigo. Dois dos grandes amigos da minha vida são de Belém, a Maria Lúcia Medeiros e o Benedito Nunes, com quem publiquei em parceria o livro “Crônica de Duas Cidades: Belém e Manaus”. Foram amigos queridíssimos, com eles aprendi muito, não só a aprendizagem intelectual. Benedito foi, inclusive, um dos primeiros críticos a falar de “Relato” e escreveu um ensaio belíssimo sobre “Dois Irmãos”, que está em sua obra “A Clave do Poético”. A Feira é um evento muito necessário no momento em que não só o Brasil, mas o mundo todo optou pela banalidade e pela trivialidade. Uma secretaria de Cultura que investe numa feira de livros de qualidade está apostando na formação de leitores e consequentemente no fortalecimento da cidadania e consciência crítica. Dar aos jovens a possibilidade de ler bons livros é um alcance incrível do evento. Discutir literatura com eles, com professores e leitores de modo geral será um imenso prazer e é uma coisa fundamental. Em Manaus, a feira começou a ser realizada há poucos anos. Do ponto de vista da cultura, Belém sempre foi muito viva e vibrante e, às vezes, não depende da economia do Estado, depende das mentes que coordenam uma política cultural. 

O livro “Órfãos do Eldorado” explora Belém e está sendo adaptado para o cinema. As filmagens já terminaram? Há novos projetos de adaptação das suas obras?
Sim, a adaptação do livro já terminou e o filme deve ser lançado agora no segundo semestre. Tiveram várias cenas rodadas em Belém, inclusive a Dira Paes (atriz paraense) está no elenco. Espero que passe no circuito comercial de Belém e Manaus, seria tristíssimo se ele ficasse de fora das salas. Mas também há novos projetos. “Relato de um Certo Oriente” vai ser adaptado por Marcelo Gomes, diretor de “Cinema, Aspirina e Urubus”, mas ainda estão trabalhando no roteiro e deve demorar mais. Já o “Dois Irmãos” vai ser mesmo uma minissérie da Rede Globo, dirigido pelo Luis Fernando  Carvalho [que comandou a microssérie “Capitu”, baseado no livro “Dom Casmurro”]. Parece que as filmagens ainda não iniciaram e deve ser lançado somente no próximo ano. 

Como é a sua relação com a produção literária da região?
Gosto muito e observo sempre. A vida cultural em Belém é muito intensa, tenho uma ligação afetiva não só com a cidade, mas com as pessoas. Por exemplo, o fotógrafo Luiz Braga é o autor de muitas capas dos meus livros. A literatura paraense tem grandes poetas, como o Max Martins e João Jesus de Paes Loureiro. Antônio Moura e Marcílio Costa são poetas mais jovens que li recentemente, quando eles gentilmente me entregaram seus exemplares e gostei muito. Não podemos esquecer de Haroldo Maranhão e Vicente Cecim, que é uma espécie de mago da linguagem, um peregrino e transgressor. Todos são escritores que eu admiro. Da própria Maria Lúcia Medeiros, gosto muito dos contos. Na região há toda uma formação de críticos que herdaram a obra do Benedito Nunes, para o estudante de literatura e filosofia do Pará, já é uma referência muito consistente. Então, acredito que se eu fosse aconselhar os jovens, diria que lessem “O Tempo na Narrativa”, de Benedito, que é um livro maravilhoso sobre o tempo nos grandes romances. Usava bastante quando era professor e os alunos gostavam muito.



sexta-feira, 29 de maio de 2015

Preço da refeição é mais alto em Belém

 *Publicado em O LIBERAL de 27/04/2014

BRENDA PANTOJA
Da Redação      

      A tradicional combinação de feijão com arroz continua muito querida pelos brasileiros, principalmente na região Norte, onde a procura pelo prato nos restaurantes cresceu mais de 40%, ficando acima da média nacional de 30%. A pesquisa feita pela Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador (Assert) constatou também que o preço médio de uma refeição, em Belém, é mais caro do que o valor médio nacional de R$ 30,14. Na capital paraense, é preciso desembolsar R$ 32,46 para pagar um prato mais bebida, sobremesa e café.
       Foram analisados os restaurantes que trabalham nos sistemas comercial, autosserviço, executivo e à la carte. O levantamento, intitulado “Refeição Assert Preço Médio 2014” verificou que o feijão com arroz é democraticamente oferecido em 89% dos estabelecimentos pesquisados em todo o país. Analisados separadamente, o feijão lidera o gosto popular. Segundo a Assert, na região Norte, a preferência pelo feijão cresceu 43%, enquanto a procura pelo arroz aumentou em 41%. Osberto Marques gerencia um restaurante no centro de Belém, no bairro da Campina, e observa esta diferença no consumo, fator que leva em consideração na hora de montar as refeições.
      “Um prato feito pesa cerca de 600 gramas e mais da metade disso é composto por arroz e feijão, podendo incluir também macarrão. Se coloco 180 gramas de arroz, vão duas conchas de feijão, que dá uns 250 gramas”, calcula. A proporção foi elaborada por ele quando entrou no segmento, há quatro anos, depois de quase três décadas trabalhando com cozinha industrial e executiva. “Trabalhei muito tempo com acompanhamento de nutricionistas e resolvi mudar para o público comercial porque queria um rendimento maior. De fato, são clientes que se fidelizam; tem pessoas que almoçam diariamente comigo desde que o restaurante abriu”, conta.
     Pelo próprio perfil dos fregueses dele, que compram o almoço pronto por R$ 8, o cardápio não varia muito. “Eles reclamam se faltar, por exemplo, carne assada e calabresa acebolada. Os tipos de carne não mudam muito, assim como a salada. A grande variedade de pratos é característica de buffets self-service”, diz. Para os paraenses, no entanto, há um diferencial que a pesquisa da Assert não levou em consideração. O açaí faz parte da refeição principal e no restaurante de Osberto, o prato feito pode vir acompanhado de uma porção de açaí, por mais R$ 2.
      Ele oferece a opção de pagar por quilo, mas não é a que faz mais sucesso. “Com a disparada no preço da carne no último ano, eu tive que subir também o valor do prato, mas foi pouca coisa e não  prejudicou as vendas. Aumentou em um real e os clientes não reclamaram, porque eles também sentiram a inflação em casa”, ressalta.

Programa alimentar do governo é considerado ferramenta de inclusão

     O estudo da Assert avaliou ainda que Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), do Ministério do Trabalho e Emprego, é uma ferramenta de inclusão, uma vez que um trabalhador gasta um montante significativo por mês para se alimentar durante o expediente. 
       O programa beneficia 17 milhões de trabalhadores com registro em carteira, sendo que 80% têm renda até cinco salários mínimos. “Ao atender prioritariamente a população de baixa renda, o PAT assume um forte componente social de inclusão, pois garante a quem mais precisa o acesso à alimentação. Ao elevar a produtividade dos trabalhadores, conforme já comprovado por estudos, ele contribui também para a competitividade da economia brasileira”, destaca Artur Almeida, presidente da Assert. Ele também chama a atenção para o fato de que os estabelecimentos, como o de Osberto, representam uma ótima relação custo-benefício com boa perspectiva de equilíbrio nutricional e no preço. 
      Nestes estabelecimentos o carro chefe é o prato típico da culinária brasileira, onde a base é a mistura de feijão com arroz, rica nutricionalmente, além de algum tipo de carne (bife, frango, filé de peixe) e salada. No Norte, o preço médio do prato nos restaurantes comerciais, acrescido de bebida, sobremesa e cafezinho é de R$ 17,87. Apenas para 40% do público deste segmento, arroz e feijão estão associados a uma alimentação saudável. O técnico judiciário João Batista Abreu, de 53 anos, almoça fora de casa diariamente e faz o possível para controlar os gastos e balancear a alimentação.
      “Prefiro restaurantes populares, de comida a quilo, porque geralmente têm mais opções”, afirma. Em relação aos preços, o aumento foi notado claramente por ele nos estabelecimentos dentro de shopping centers. “Enquanto é possível perceber restaurantes comerciais que ficaram 10% mais caros, esse crescimento pula para até 30% nos shoppings. Só vale a pena quando a gente sai da rotina, pois arroz e feijão ainda são o melhor custo-benefício para quem inclui a alimentação fora de casa no orçamento”, completa.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Belém tem 80% dos poços contaminados

*Publicado em O LIBERAL de 23/03/2014

BRENDA PANTOJA
Da Redação

     O portão de madeira da casa de Neuza Palheta Favacho dificilmente é encontrado fechado. No meio de um jardim bem conservado, fica um poço que é visitado por boa parte da vizinhança que não dispõe de água encanada na rua Tiradentes, conjunto do Paracuri II, em Icoaraci. Ela é dona de um dos quase 40 mil poços particulares encontrados na Região Metropolitana de Belém (RMB) por pesquisadores da Universidade Federal do Pará. Deste número, eles estimam que a média de contaminação chegue a 80%, mostrando que entre 600 mil a 700 mil habitantes da área consomem água de baixa qualidade.
        Dona Neuza não revela a idade, dizendo apenas que “são mais de 80 anos”, mas contou que mora na mesma rua há onze anos e o poço já estava lá quando se mudou. A água só chegou à torneira dela há cinco anos, quando uma ligação clandestina foi feita. “Mesmo assim deixei o poço, porque a maior parte da rua não tem água. Fico com muita pena deles, principalmente das crianças. Enquanto esse poço não secar não tenho porque fechar”, diz. A doméstica Laura Silva, 37, é vizinha dela e a ajudou com o abastecimento. “Quando puxei a ligação pra minha casa, puxei para a dela também, para facilitar e não deixar ela usando só água de poço, ainda que a água da torneira seja mais amarela. A do poço é ótima para lavar roupa, deixa tudo branquinho e não mancha”, afirma. 
      Por morar sozinha, dona Neuza não tem como controlar efetivamente a manutenção do poço, mas faz o que pode. “Se vejo que o balde está muito sujo, lavo ou troco ele. Mas quando a equipe da saúde vem, eles sempre jogam uns produtos para limpar e até agora ninguém da rua reclamou dessa água”, relata.
    A dona de casa Ana Costa Jardim, 70, não confia na água fornecida pelo Sistema de Abastecimento Autônomo de Água e Esgoto de Belém (Saaeb). Também moradora da rua Tiradentes, o genro foi quem cavou o poço e colocou uma bomba para puxar água para a caixa, que supre todas as  necessidades da família. “Uso um pedaço de pano na torneira e em um dia com a água da Saaeb ele fica mais sujo do que em uma semana usando a água do poço”, compara. O uso da bomba representa um gasto extra na conta de energia elétrica, mas ela acredita que compensa por poder usar uma água mais limpa e sem “gosto de ferrugem”.
       Entre os cuidados que ela toma, estão a tampa improvisada para não deixar cair lixo ou bichos, jogar água sanitária uma vez por mês e fazer os filhos limparem o poço anualmente. Assim como Neuza, ela não sabe precisar a profundidade do reservatório. “Quando os vizinhos das outras ruas pedem para encher os garrafões eu deixo, porque água não se nega para ninguém. Além do mais, ninguém nunca passou mal e a gente consome todo dia. Uso para cozinhar e beber, mesmo sem ferver ou filtrar”, admite. Poço amazonas ou poço escavado é o tipo existente nas casas de Ana e Neuza, também conhecida popularmente como “poço de boca” e geralmente com 2 a 20 metros de  profundidade, segundo o professor Milton Antonio da Silva Matta.

DOENÇAS
       Ele é um dos pesquisadores do Instituto de Geociências e coordenador do Mestrado Profissional em Recursos Hídricos da UFPA. Matta monitorou a incidência dos poços na RMB na última década e observou que o número dobrou neste período. “A prática se intensificou, pulando de cerca de 20 mil para 40 mil. A população não confia na água fornecida, que em muitas áreas é de baixa qualidade, quando tem. No entanto, o poço é uma fonte de doenças de veiculação hídrica e não é recomendado”, explica. Ele esclarece que o principal problema dos poços é a ausência das condições adequadas de higiene, por serem mal construídos na maioria das vezes. “Mesmo fervendo esta água, existem bactérias termotolerantes, ou seja resistentes ao calor. O uso de filtro também não é o suficiente”, alerta. 
       Ainda de acordo com ele, o potencial de contaminação bacteriológica dos poços é muito alto e doenças como febre tifoide e reações alérgicas podem ser contraídas. “O Ministério Público deveria se voltar para essa questão, assim como a Cosanpa (Companhia de Saneamento do Pará) precisa mudar o sistema de abastecimento atual, oferecer um serviço de qualidade para os habitantes”, completa.
     Aproximadamente 30% da capital paraense é abastecida pela Cosanpa com água de poços, assegura a presidente da Companhia, Noêmia Jacob. “São poços profundos, com no mínimo 80 até 200 metros e a água passa por tratamento. Essa que é a diferença dos poços particulares e onde está o perigo, pois esse líquido normalmente tem alta concentração de ferro, além da contaminação também”, acrescenta. Ela argumenta ainda que muitas pessoas, mesmo que estejam na área de cobertura, optam pelo poço para tentar reduzir custos. Atualmente, pouco mais de 60% de Belém é coberta pela Cosanpa, com alguns setores atendidos por poços, funcionando como “sistemas isolados”.
     “Seria ideal ter rios perenes e prover todo o abastecimento deles, mas em Belém você não consegue fazer isso. Em lugares como a avenida Augusto Montenegro por exemplo, onde a ocupação populacional tem crescido muito, funciona melhor criar um microssistema e fazer a captação com poços”, defende. A deficiência no fornecimento ainda é um dos principais problemas da população e Noêmia prevê investimentos de R$ 1,2 bilhão em todo o Estado, sendo R$ 300 milhões só em Belém, para os próximos anos. Segundo ela, a meta é ampliar a rede e alcançar 80% de cobertura, e depois a universalização. Em Icoaraci, há investimento previsto para a adutora da Augusto Montenegro e a Cosanpa aguarda as negociações com a prefeitura para assinar o contrato de concessão e assumir a  Saaeb. “Somente depois serão realizados os levantamentos para identificar o que precisa ser feito no sistema do distrito para melhorar a qualidade e quantidade do abastecimento”, garante.