quinta-feira, 20 de abril de 2017

A beleza das gemas vegetais

*Publicado na revista Amazônia Viva, nº 55, março/2016 


A floresta amazônica contém uma vasta gama de cores. Uma mesma planta pode apresentar diferentes tonalidades em suas sementes, folhas, frutos e casca. Essa variedade de pigmentos é a principal matéria prima do pesquisador e ourives Paulo Tavares, 53, que desenvolveu as gemas vegetais. 
O pigmento extraído de urucum, açaí, pimentas e várias outras espécies, combinado com resinas naturais e sintéticas, é o que forma uma gema vegetal. Uma vez pronta, ela vai adornar peças de cobre, prata ou ouro para compor joias que não só são inspiradas na Amazônia, como também carregam um pouco dela na sua composição. 
Paulo trabalha como ourives desde os 16 anos e, motivado por uma inquietação com a cadeia de produção do setor, começou a estudar formas de praticar a arte da joalheria de forma mais sustentável. A técnica das gemas vegetais, desenvolvida e aprimorada por ele ao longo dos últimos 15 anos, está em processo de patenteamento e é baseada na redução do impacto ambiental e na valorização da cultura regional. Nascido no Arquipélago do Marajó, a vivência de caboclo contribuiu para essa consciência e conhecimento empírico. "A ideia não é devastar a natureza para obter os pigmentos, mas sim fazer a comunidade entender que manter a floresta em pé também é fonte de renda", afirma.
Em sua oficina, estão espalhadas dezenas de caixas e vasilhas rotuladas com códigos decifrados apenas por ele mesmo, onde estão guardados exemplares de matéria prima que são estudados e catalogados. As gemas podem surgir dos frutos, como cupuaçu, castanha e pupunha ou de ingredientes da culinária local, como o tucupi e jambu, e ainda do uso de cascas e outros elementos das árvores de caimbé, miriti, andiroba, pau-brasil e pau-rosa. Os próprios aglutinantes utilizados são retirados do jatobá e do breu branco, por exemplo.
As possibilidades de criação são enormes para ele e a empresária Mônica Matos, responsável pela elaboração e comercialização das joias, em uma parceria que já dura dez anos. As gemas orgânicas, com dureza semelhante a de uma pérola, podem substituir na joalheria algumas gemas minerais como granada, turmalina e vários tipos de quartzo. "O processo pode demorar de uma semana a meses, pois é bem artesanal, desde a coleta do material até a fabricação das gemas vegetais, através de desidratação e trituração, e das joias. Ao recolher as cascas e frutos, retiramos apenas aquilo que é descartado naturalmente para não prejudicar a renovação da espécie", explica Paulo Tavares.
As primeiras peças fabricadas estão com 12 anos e não apresentam deformidade e perda de cor, asseguram. "Continuamos estudando para aprimorar a técnica e o nosso objetivo é chegar a um produto 100% natural, sem o uso das resinas de laboratório", destaca Paulo. Segundo ele e Mônica, o próximo passo é organizar comunidades para fornecerem a matéria prima, com a intenção de gerar renda para as pessoas que precisam e transformar o modelo econômico de algumas localidades. Somente no ano passado, eles conseguiram plantar mais de 300 mudas de pau-brasil e pau-rosa, ameaçadas de extinção, na Região Metropolitana de Belém. 
O trabalho já rendeu reconhecimento internacional, conta Mônica Matos, que ganhou um prêmio na Itália pelo pingente Curuatá, que representa o invólucro que protege os frutos das palmeiras e também serve de recipiente para o que é coletado na floresta. A peça foi confeccionada em cobre e recebeu uma gema vegetal feita do açaí.  Atualmente, está exposta no Museo del Bijou di Casalmaggiore. 
Ela diz que a aceitação do produto no mercado tem surpreendido, demonstrando que a mentalidade dos consumidores está mudando. "Além do fascínio dos compradores de fora, há uma identificação cultural por parte dos clientes da região. Acho que o produto não deixa a desejar para joias tradicionais, mas sim traz identidade. A Amazônia tem um peso mundial e esse é um produto 100% nosso", pontua.
Ela reforça que tem crescido a quantidade de pessoas que adquirem as joias pela sua forte carga cultural, pois querem usar algo que fale das suas raízes e isso agrega valor à cultura local. Paulo e Mônica integram o programa Polo Joalheiro do Pará, gerenciado pelo Instituto de Gemas e Joias da Amazônia (Igama), e também são procurados por outros produtores da iniciativa, interessados em usar as gemas em suas criações. O design de joias é reconhecido pelo Ministério da Cultura e pela Unesco como um dos setores da chamada economia criativa que pode se tornar uma ferramenta de inclusão social entre populações tradicionais.
Mônica acertou ao apostar nesse mercado, uma vez que levantamentos da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostram que o ramo pulou de 148 mil empresas, em 2004, para 251 mil empresas em 2013, num crescimento de 69%. Outro diferencial apontado por ela é que apenas eles dois se envolvem em todas as etapas e "tudo é feito a quatro mãos", incluindo as medidas para evitar o desperdício na oficina de produção.  A água usada no polimento de algumas peças é reaproveitada e até o lixo gerado no espaço tem um destino responsável e criativo. 
"Já apareceram propostas de empresas, mas temos exigências relacionadas ao aproveitamento da floresta e produção limpa. Seria muito fácil vender essa técnica para uma indústria, mas pode virar um produto predador lá na frente. A nossa intenção, desde o começo, era contribuir para um mercado mais consciente", frisa Paulo. Foi a partir dessa preocupação que ele realizou a coleção "Metal-morfose", baseada na reciclagem dos resíduos de metais usados nas unidades produtivas do Polo Joalheiro e em técnicas inovadoras de coloração das peças, por meio de processos químicos. 

RECICLAGEM
O ourives explica que do lixo das oficinas pode se tirar ouro, prata e vários outros metais. "O que antes era jogado na natureza e contaminaria o solo e a água, por conter ácidos pesados, vira novas peças. A terra e os óxidos que sobram desse processo são ricos em nutrientes e se tornam adubo para agricultura", ressalta. O projeto foi promovido em 2014 e contou com o apoio de designers, ourives e empresas. Foi possível extrair pelo menos sete cores por meio da mistura dos minerais extraídos da reciclagem e da técnica de incrustação paraense, também desenvolvida por Paulo, que substitui a esmaltação.
As gemas vegetais foram o destaque da coleção "Digitais da Amazônia", em 2012, lançada por Paulo e Mônica. Elas estão novamente em evidência no Espaço São José Liberto, dessa vez como parte da exposição "Potências Amazônicas: Biodiversidade e Diversidade Cultural na Belém 400 Anos", que pode ser vista até 28 de fevereiro. Um traço em comum das produções coordenadas por ele é a inspiração nas formas da floresta para o formato das peças. 
Em um projeto mais recente, ainda em fase de estudos, ele está criando uma série de "camafeus amazônicos". Inspirado nos adornos que acompanham as mulheres desde a Grécia antiga, Paulo quer retratar as lendas regionais em peças orgânicas com pigmentos e resinas naturais. "A sustentabilidade é a principal característica do nosso trabalho e um dos maiores desafios do setor, ainda mais quando se fala em Amazônia, que perpetua uma tradição de crenças que envolvem o respeito à natureza", diz o pesquisador.

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