sábado, 27 de fevereiro de 2016

A ciência de cara nova


*Publicado na revista Amazônia Viva, nº 32, abril/2014 


Pesquisa científica, inovação e desenvolvimento sustentável são áreas que têm chamado bastante a atenção dos jovens. O público que, geralmente, chegava ao ensino superior sem nenhum contato ou com conhecimento raso sobre ciência e investigação científica, agora encontra mais estímulos para desbravar a área. Com o aumento do número de convênios do governo federal, investimentos em infraestrutura, programas de intercâmbio e premiações, muitos estudantes, do nível médio até a pós-graduação, se sentem encorajados a pesquisar soluções para problemas das comunidades onde vivem e que se refletem na região amazônica de modo geral.
O diretor de pesquisa e iniciação científica da Universidade Federal do Pará (UFPA), professor Antonio Carlos Rosário Vallinoto, acredita que fomentar as pesquisas científicas locais é essencial para o desenvolvimento da Amazônia. “Dessa forma, nós mantemos conhecimento circulando aqui mesmo na região, gerado por pesquisadores locais, comprometidos com a Amazônia. Ao difundirmos esse conteúdo, incentivamos os alunos também”, defende. Ele também destaca que o envolvimento com programas de pesquisa na faculdade é importante para o crescimento profissional em qualquer área, independentemente de se seguir a carreira de pesquisador ou não. 
“A iniciação científica proporciona novos horizontes, perspectivas diferentes. O objetivo é formar um profissional mais qualificado, treinado a identificar o problema e encontrar a solução”, acrescenta. Por esse motivo é que, para ele, investir em ciência e tecnologia e nos jovens cientistas pode elevar o Brasil ao patamar de um país de primeiro mundo. “O cenário teve um avanço muito grande nos últimos anos. Na década de 1990, a UFPA tinha aproximadamente 60 bolsas de iniciação cientifica para toda a instituição. Agora passam de mil bolsas distribuídas nos campi da capital e interior”, comenta.
Vallinoto ressalta que somente a UFPA possui mais de 60 programas de pós-graduação “stricto sensu”, sendo a “maior instituição de pesquisa e ensino de toda a Amazônia”. “O salto não foi somente em quantidade, mas em qualidade. Tivemos projetos premiados nacionalmente e todo ano é realizado o seminário de iniciação científica”, diz.
Uma característica relevante da maioria dos pesquisadores da universidade é voltar às linhas de pesquisa para áreas temáticas que envolvam a região amazônica. “A grande tarefa do pesquisador na nossa instituição é tentar melhorar a qualidade de vida do povo local. Há vários projetos com esse objetivo nas áreas da biologia, saúde e engenharia. Muitos estudam o uso de recursos naturais de forma racional”, aponta. 
A responsabilidade é grande e o comprometimento é a característica necessária em quem almeja uma bolsa de pesquisa. Segundo o professor, é comum encontrar alunos na graduação que ainda não definiram a área de interesse, mas essa indecisão é algo saudável. “Os alunos com quem trabalho são obrigados a ter desempenho excelente em todas as disciplinas do curso, tendo uma formação de base adequada e podendo optar por diversas linhas futuramente”, assegura. Ele recomenda os estágios voluntários nos laboratórios como uma boa alternativa para os jovens, pois os orientadores acompanham o aluno interessado e quando surge uma bolsa remunerada, já tem a quem indicar para a oportunidade.
Apesar de, atualmente, os recém-formados terem mais opções de se especializar sem sair do Estado, na opinião do professor Vallinoto, a chamada “pós-graduação sanduíche”, em que o estudante cursa alguns períodos em outras instituições nacionais ou estrangeiras, é uma boa oportunidade. “É uma ferramenta importante para agregar valor à carreira, mas sempre incentivamos a formação de doutores na região, assim, podemos participar de editais de grandes órgãos de fomento. Ainda temos baixo contingente de doutores, sendo que a UFPA concentra um terço de todos os doutores da Amazônia”, ressalva.



Com apenas 30 anos de idade, Tasso Guimarães faz parte do time de doutores formados no Pará e comanda uma pesquisa, no Instituto Tecnológico Vale (ITV), na área da paleoclimatologia. Com o estudo intitulado “A influência das mudanças climáticas no desenvolvimento da floresta tropical da Amazônia”, a meta é entender como as alterações geológicas e climáticas ocorridas ao longo de milhões de anos atrás influenciaram no padrão de biodiversidade da região amazônica atual. O período estudado vai de 60 milhões de anos atrás até o presente e, mesmo tratando de épocas tão distantes, pode ajudar a construir soluções futuras para a região. “Vivemos um novo cenário climático e as previsões para o futuro são alarmantes, com consequências fortes na Amazônia. O que vai acontecer? A floresta vai sumir, vai virar cerrado? Só podemos tentar prever sabendo como foi o comportamento do meio ambiente no passado”, explica Tasso.
A graduação em Oceanografia na UFPA, concluída em 2006, foi o pontapé inicial na pesquisa científica. Ainda quando calouro, ele viu na bolsa de iniciação uma oportunidade de ser remunerado para trabalhar com um tema que lhe despertava o interesse. Ao final do curso, já estava totalmente familiarizado com a linha, que seguiu no mestrado e, posteriormente, no doutorado em Geologia com ênfase em Sedimentologia e Paleobotânica. “Eu era um aluno que não deixava passar uma boa oportunidade e isso chama a atenção dos orientadores, que buscam empenho dos bolsistas. No momento, por exemplo, temos seis bolsas para oferecer e não encontro alunos que preencham os requisitos”, diz Tasso.
A rotina do jovem pesquisador combina horas de estudo e momentos de lazer, não necessariamente separados. “Gosto de trabalhar no laboratório ouvindo música, desde rock metal, quando a carga está puxada, até música clássica, passando por reggae e indie. Em casa, não tem como fugir da leitura de artigos e mais pesquisa, mas é uma tarefa prazerosa para mim”, comenta.
Mesmo a academia, natação e corrida, que também são práticas diárias, beneficiam o raciocínio e ajudam Tasso a deixar a “mente limpa para encontrar soluções para a pesquisa”. As conquistas alcançadas e os planos para os próximos anos deram a ele um entendimento diferente da juventude e vida adulta. “Quando reencontro alguns amigos, percebo como mudaram as perspectivas pessoais e profissionais, o contato com pesquisadores traz um choque cultural e nova visão de mundo”, observa.



Esse tipo de mudança veio ainda mais cedo para o universitário César Favacho, de 19 anos, que desde os dez acompanha pesquisas no Museu Paraense Emílio Goeldi, no setor de Entomologia. A curiosidade pelos insetos fazia o menino colecionar animais, observar o comportamento deles e reproduzi-los em desenhos, que renderam a ele um convite para trabalhar como assistente de pesquisadores do Museu. “O louva-deus é meu principal objeto de estudo e a partir dele quero entender melhor os invertebrados da região, conseguir dados sobre as espécies, forma de reprodução e incidência pode fornecer indicadores ambientais de degradação”, explica César, que está no 5º período de Ciências Biológicas na UFPA. O estudo ocupa a maior parte do tempo do futuro biólogo, que continua a pesquisa em casa, onde mantém sua própria criação de insetos.
“Às vezes fico acordado até de madrugada fazendo anotações, mas quando preciso de um descanso, gasto meu tempo livre lendo mangás, como “Hunter x Hunter”, e jogos de videogame, como “Skyrim”, além da fotografia. Tenho o hábito de todo dia tirar 15 minutos para caminhar pelo campus do Museu e fazer observações e um tempo no final de semana para a família, namorada e amigos”, diz. Com o hobby da fotografia, o universitário já produziu imagens de invertebrados que resultaram até em prêmios.
Para o futuro próximo, César é otimista. “Em cinco anos me vejo alguém que não somente vai fazer ciência com os conhecimentos adquiridos, mas também vai levar invertebrados e outros bichos para mostrar às crianças desde cedo e despertar nelas o instinto de pesquisa”, adianta.

Foi também no ensino médio que Carmem Françuasy Nascimento, de 17 anos, decidiu investir em pesquisa científica. Desde a infância, ela acompanha os estudos do pai, que é biólogo, e que foi a fonte de inspiração para a iniciativa dela. “Aos 15 anos, fiz um levantamento dos artrópodes presentes na minha escola. Os resultados foram ótimos e concluí que não percebemos a quantidade de seres vivos ao nosso redor, e dependendo do que fazemos com esse entendimento podemos ter benefícios ou malefícios”, afirma. Denominado “Artrópodes no ambiente escolar em área urbana de Belém”, o trabalho foi um dos vencedores do Prêmio José Márcio Ayres para Jovens Naturalistas, promovido pelo Museu Goeldi, em 2012.
A estudante agora se prepara para cursar o vestibular no final do ano e ingressar no curso de Biologia, o que a obrigou a diminuir o ritmo das pesquisas pessoais. Carmem faz um estágio voluntário no Goeldi para atuar na área de Entomologia Básica, tornando-se uma das pesquisadoras mais novas da região. Para ela, os estudos são uma forma de diversão e o lazer só vem depois do trabalho. “Sou exigente demais comigo e só consigo me distrair depois de cumprir minhas obrigações. Faço parte do grupo de canto e dança da minha igreja, a música me relaxa bastante, assim como a leitura, mesmo 
que seja científica”, pontua. 
No modo de falar da jovem pesquisadora, percebe-se que ela gosta de incentivar o interesse pela ciência por onde passa. Recém-chegada na nova escola, Carmem já se mobilizou para solicitar à 
direção investimentos em laboratórios e pesquisas. No colégio anterior, ela organizou um acervo de insetos. “A gente vai encontrar limitações sempre, mas a inquietude, a vontade de não se conformar 
é uma coisa que a pesquisa científica provoca em nós”, garante.



O desejo de mudar a realidade ao redor também move Edivan Pereira, de 20 anos, vencedor na categoria Ensino Médio, da última edição do Prêmio Jovem Cientista, realizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O estudante recebeu a premiação, no ano passado, da presidente da República, Dilma Rousseff, em Brasília.
Morador do município de Moju, no nordeste paraense, ele buscou soluções para dois problemas comuns na localidade: o consumo de água sem tratamento e a destinação dos caroços de açaí utilizados pelos batedores artesanais. A partir daí, surgiu a pesquisa sobre a obtenção de carvão do caroço de açaí ativado quimicamente com hidróxido de sódio e sua eficiência no tratamento de água para consumo. Para concretizar os estudos em laboratório, Edivan enfrentava distâncias de 80 quilômetros ou mais para se deslocar até Abaetetuba e Belém.
Era durante as viagens que o estudante, agora cursando o último ano do ensino médio, se dedicava a uma das poucas atividades de lazer que ainda mantém: escutar música, principalmente Música Popular Brasileira (MPB). Ele quer cursar Engenharia Química, mas vê as Ciências Naturais como segunda opção. “Tenho alguns sonhos e estabeleço metas na minha vida. Quero estudar fora, mas sem esquecer a realidade da minha região. Toda a repercussão que a minha pesquisa alcançou parece pequena perto do que ainda quero conquistar”, avalia. O prêmio concedido pelo CNPq serviu para ele como oportunidade de comprovar que é possível fazer a diferença, mesmo com todos os obstáculos.
A determinação de Edivan vem, em parte, do estímulo precoce à iniciação científica. Ele começou a se interessar pela ciência ainda no ensino fundamental e acredita que a ausência de incentivo para as crianças se reflete no ensino superior. “Não consigo ver outra maneira de desenvolver um município, de trazer qualidade de vida aos moradores de uma região, se não for através da pesquisa”, reforça. O jovem cientista pretende aprofundar a linha desenvolvida com o caroço do açaí, mas também tem outros temas em mente. Por enquanto, ele concilia o trabalho como auxiliar administrativo, os estudos preparatórios para o vestibular e o tempo em família.
“Passar o tempo com meus pais é uma das coisas que mais gosto de fazer quando tenho tempo. Gosto de ouvir a experiência deles, acumulada através dos anos e vivências, já que nenhum deles passou do ensino fundamental. Também aprecio separar uns minutos para percorrer as comunidades, explorando e tomando nota das rotinas, anormalidades e assuntos curiosos que podem render novas pesquisas”, completa. Uma vez envolvido com a ciência, Edivan tenta apresentá-la aos outros da forma mais atraente possível.
Assim como para Edivan e demais pesquisadores entrevistados nesta reportagem, a curiosidade, a busca pelo conhecimento e a disposição em mudar os problemas encontrados na sociedade abrem a mente de estudantes e os impulsionam para uma Amazônia de progresso e promissora no cenário científico mundial. Como ensina o jovem cientista de Moju: “Por mais que se tenha obstáculos, tudo vale a pena quando se confirma hipóteses e se encontra respostas”.

Aprendizagem nas trilhas do imaginário amazônico

*Publicado na revista Amazônia Viva, nº 21, maio/2013 
  
O contato direto com a natureza tem muito a ensinar sobre sustentabilidade, somado ao tradicional diálogo em sala de aula. Encontrar o Curupira - mesmo que de mentirinha - falando sobre preservação ou uma atriz que interpreta uma guerreira amazona combatendo os crimes ambientais desperta os alunos para a realidade da floresta Amazônica. Para proporcionar um aprendizado cultural e ambiental, o presidente da ONG Instituto Ariri Vivo, Uirá Pinheiro, desenvolveu um projeto que tira os estudantes de entre as quatro paredes e os leva para a floresta, em uma trilha interativa. O Arte na Trilha segue a linha do "eduentretenimento", que pretende instruir de forma lúdica e para isso promove combinações como teatro e ciências, música e desenvolvimento sustentável, artes plásticas e ecologia.

O projeto está na primeira edição, que começou em 9 de abril e vai até o dia 24 de maio, no Complexo Ecológico Parque dos Igarapés, em Belém. "Nosso grande mérito é a mudança de ambiente e o currículo de ensino diferenciado, que não costuma ser trabalhado nos colégios", afirma Uirá. O objetivo do Arte na Trilha é plantar a semente da conscientização ambiental durante os dois dias de atividades e ele prevê que, até o fim do mês, um total de 600 crianças sejam atendidas. As escolas da rede pública enviam, sem custo para a unidade de ensino, turmas de 40 alunos entre 9 e 12 anos. Eles se dividem em dois grupos e participam de palestras, oficinas e um espetáculo teatral. As lendas e mitos da região amazônica são as temáticas que costuram toda a programação e através delas eles aprendem a ler partituras musicais, reciclagem, técnicas de atuação e pintura. 

A iniciativa surgiu para suprir uma carência do sistema educacional e enfrentou muitas dificuldades financeiras para virar realidade. "O imaginário amazônico é diretamente ligado ao meio ambiente e as escolas dificilmente trabalham isso com os estudantes do nível fundamental, que costumam assimilar bem esse conteúdo", aponta. Uirá defende o enorme potencial da Amazônia para projetos que conciliam cultura, educação e ensinamentos voltados para a sustentabilidade, que precisam ser focados nos jovens e crianças para estimular a preservação ambiental. "Os resultados tendem a ser muito mais favoráveis quando eles entendem na prática as implicações em suas vidas das problemáticas do lixo ou da água", exemplifica o idealizador do projeto.

OFICINAS
Cada escola inscreve os alunos em duas oficinas. Na oficina de arte eles realizam desenhos e pinturas de imagens da floresta, enquanto na de sustentabilidade eles reutilizam materiais na produção de bioacessórios. O público pode ainda fazer a oficina de iniciação teatral ou musical, onde eles aprendem a ler uma partitura em menos de uma hora. Rutiel Felipe é o oficineiro de música e desenvolve com os estudantes uma técnica chamada partitura corporal. “De forma bem divertida trabalhamos com eles a percepção, concentração, ansiedade, improviso, memorização e, claro, consciência ambiental”, explica. Ao final da oficina eles já tem conhecimento de figuras musicais, compassos, claves, pausas e formação de compassos. 

Passada a primeira etapa, de instrução sobre harmonia e melodia, os alunos começam a cantar sobre natureza e cultura. Rutiel considera esse um momento importante na programação, pois aumenta a intimidade com a música e com o meio ambiente, além de reforçar outros valores. “Eles precisam escutar uns aos outros e colaborarem entre si, o que aumenta o respeito e o aproveitamento nas atividades”, diz. Para ele, a eficácia da técnica consiste em estabelecer uma ligação com os demais temas, pois “o método trabalha o corpo e os movimentos em cima dos ritmos, deixando eles mais familiarizados com o espetáculo e em sintonia com o resto do projeto, que passeia pela nossa cultura e riqueza natural”.

ENCENAÇÃO
A peça teatral é o ponto alto do projeto, já que os estudantes interagem diretamente com o espetáculo. Os atores conduzem as crianças pelas trilhas do Parque em busca de um tesouro e durante o caminho surgem personagens lendários. A Matinta-Pereira que aborda os alunos é interpretada pela atriz Suely Brito, com 25 anos de carreira, e apesar de provocar um susto, quer mesmo é alertá-los de que o tesouro não está guardado em um baú: é a própria natureza que os cerca. “A reação ao trabalho é fantástica, pois resgata o misticismo das histórias amazônidas e o temor pelos mistérios da floresta, alguns elementos que sumiram com o tempo”, observa. É no encontro com a Matinta que eles recebem algumas mudas de árvores que precisam ser plantadas para que o tesouro não acabe, mas se multiplique.

Apesar do desenvolvimento sustentável ser um assunto muito comentado atualmente na sociedade, Suely sente falta de discussões mais esclarecedoras e motivadoras no âmbito escolar e, principalmente, dentro de casa. “Por isso eu acredito nesse projeto, porque ele desperta a noção de preservação ambiental no público e como eles aprenderam de um jeito agradável, vão propagar isso para os familiares e amigos”, afirma. Uirá confirma que o retorno dos alunos e professores é espetacular. “Para a nossa equipe também traz muita alegria, é uma realização muito grande e a nossa vontade é estender para as escolas do interior do Estado”, comemora. Ele acredita que o Governo e entidades precisam, cada vez mais, estimular projetos que tragam enriquecimento metodológico para o currículo diversificado das escolas públicas. 

“Buscar desenvolver atividades além da sala de aula, iniciativas e projetos que estimulem a criatividade das crianças e jovens, fazendo com que elas aprendam de modo lúdico e prático é importantíssimo para um futuro mais sustentável”, completa. O Instituto Ariri Vivo, fundado há três anos, conseguiu realizar o Arte na Trilha através da Lei Semear da Fundação Cultural Tancredo Neves e Governo do Estado do Pará. Uirá garante que a maior satisfação para os envolvidos no projeto é conversar com os alunos após a trilha e notar que as metáforas e técnicas os ajudaram a entender melhor – e futuramente colocar em prática - o uso sustentável dos recursos naturais, além do convívio pacífico, inteligente e consciente com o mundo vegetal e animal.

SERVIÇO:

As informações gerais sobre o projeto também podem ser obtidas em contato com o Instituto Ariri Vivo, pelo email aririvivoamazonia@gmail.com e no site www.projetoartenatrilha.blogspot.com.



sábado, 12 de dezembro de 2015

Intercâmbio social transforma vidas

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 15/10/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Dos 63 países analisados pela instituição Education First no Índice de Proficiência em Inglês, o Brasil ficou com a 38ª posição. A pesquisa foi divulgada no ano passado e mostra que o país tem baixa proficiência, mesmo tendo evoluído consideravelmente nos últimos sete anos. Dentre os estados brasileiros, o Pará ficou em 20º lugar, com índice avaliado como “muito baixo”. Dominar outro idioma é importante para o currículo profissional e também tem grande impacto social. É pensando nisso que várias instituições se dedicam ao ensino voluntário de línguas estrangeiras a crianças e adolescentes que moram em bairros periféricos de Belém.
Aos 14 anos, Diego Matheus já decidiu que vai aprender a falar espanhol fluentemente e também estuda inglês, disciplina na qual tem um bom rendimento na escola. “Gosto mais de espanhol, acho mais legal e me identifico mais com a língua. Quero fazer um curso no futuro”, conta o garoto, que cursa a sexta série. Além das aulas no colégio, ele frequenta as aulas promovidas pela organização não-governamental Aiesec, em parceria com o Lar Fabiano de Cristo (LFC), no bairro do Guamá. Foi lá que teve a oportunidade de reforçar o aprendizado do inglês, bem como entrar em contato com o espanhol.
O LFC é um dos parceiros locais que recebe intercambistas. Eles permanecem de seis a oito semanas na capital paraense, dando aulas de inglês ou espanhol para os meninos e meninas. A iniciativa é da Aiesec, uma entidade global formada por universitários e recém-formados que trabalha o conceito de intercâmbio social, com o objetivo de promover a liderança entre os jovens participantes e de fazer a diferença na comunidade onde eles são inseridos. A ONG está presente em mais de 120 países e promove projetos educacionais, ambientais e de marketing, além dos intercâmbios corporativos, de atuação profissional.
Julia Wohland, 22, é estudante de Química na Alemanha e passou os últimos dois meses na capital paraense ensinando inglês para as crianças e adolescentes atendidos pelo Lar Fabiano de Cristo. Para ela, a experiência foi engrandecedora. “O projeto é muito bom para eles, que podem conhecer outras culturas e aprender novas línguas. É ótimo ver que eu estou contribuindo para o desenvolvimento deles, os ajudando a terem chances de conquistarem mais, pois o inglês é um idioma global e muito importante”, comenta. Ela deixa Belém nesta semana, mas seguirá para Recife, onde participará de um projeto de educação ambiental da Aiesec. 
Os projetos sociais em que ela se envolveu não estão diretamente ligados à sua área de estudos, o que ela considera um ponto positivo. Julia deu aulas para duas turmas, totalizando quase 40 alunos, entre 7 e 17 anos, mas a quantidade depende da demanda das famílias atendida. 
A gerente de relacionamentos da Aiesec, Ewelin Gamelas, explica como a responsabilidade social construída no início da carreira pode gerar grandes resultados no futuro. “Empregamos muito o desenvolvimento de liderança entre os jovens. Mais do que atingir resultados, é preciso empregar a empatia e atuação social. Ao trabalharem para melhorar uma comunidade, se integrando a uma cultura diferente, plantamos uma semente”, afirma. A ideia é que estes jovens, ao assumirem posições influentes no mercado de trabalho, possam ter a consciência de trabalhar pela sociedade. 
Quatro intercambistas já passaram pelo LFC e marcaram o aprendizado não só do Diego, como também de Ismael Gomes, 15, e Breno Pantoja, 16. Por meio da parceria, eles já tiveram aulas de inglês e de espanhol, o que ajudou bastante no desempenho escolar. “A gente percebe que vários colegas têm muita dificuldade nessas matérias, enquanto a gente recebe um bom reforço com essas aulas. Na verdade, até muitos professores não têm facilidade nas línguas. É diferente o jeito que eles [intercambistas] ensinam, porque vieram de outro país”, observa Ismael.
Na escola, Breno aprende somente o espanhol e está fazendo planos para ingressar em um cursinho de inglês. Ele vai para o segundo ano do ensino médio e pensa na capacitação profissional. “Sei que o mercado de trabalho está competitivo e saber falar inglês é mais conhecimento, vai me ajudar lá na frente. Também treino karatê, já viajei para competir em outros estados e vai ser bom até para me relacionar com atletas estrangeiros”, avalia. Ampliar os horizontes destes alunos é uma das grandes vantagens do projeto. 
A coordenadora pedagógica do LFC, Débora Pedroso  destaca o protagonismo dos participantes do curso. “Por oferecermos educação informal, não há a obrigatoriedade das avaliações, o que deixa os alunos livres para participarem  por interesse próprio. E eles fazem questão de participar, de interagir com os intercambistas. O aprendizado deles é forte, porque se relacionam com um professor de fora”, pontua.
As duas ONGs vão estudar a possibilidade de abrir os cursos para membros da comunidade em geral. Saindo de Belém, 43 jovens já fizeram intercâmbio pela Aiesec desde 2012, quando a ONG chegou ao Pará. Outro escritório também funciona em Santarém. Em Belém, eles também têm parcerias com a creche Cordeirinhos de Deus, Associação de Moradores do Benguí e empresas.

Aprender alemão vira brincadeira de criança para grupo de 38 meninas

A pronúncia da língua alemã, que parece complicada para muita gente, vira brincadeira de criança para o grupo de 38 meninas, entre 6 e 12 anos, que participam do projeto “Competência Social e Interculturalidade no Ensino - Aprendizagem da Língua Alemã na Amazônia”, da Faculdade de Línguas Estrangeiras Modernas (Falem) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Coordenado pela professora Rosanne Cordeiro de Castelo Branco, as aulas são realizadas na Instituição Pia Nossa Senhora das Graças, que assiste a 330 crianças de vários bairros de Belém, incluído meninas em situação de vulnerabilidade social. 
A professora e as cinco bolsistas que compõem a equipe buscam relacionar o idioma a elementos da cultura regional. “Aproveitamos datas comemorativas, como o dia do índio, do meio e ambiente, Natal, Círio e outros temas, como as lendas amazônicas para ensinar as palavras correspondentes em alemão”, detalha Rosanne. Trabalhando o alemão em conjunto com a realidade das alunas, o aprendizado se mostra eficiente. Ela ressalta que, além de ajudar as crianças a desenvolverem a competência de se comunicar em alemão, o projeto trabalha a valorização cultural.
“É comum as pessoas estranharem o ensino do alemão no Norte do país, mas as garotas aprendem uma nova língua, o que é muito bem visto no mercado de trabalho. Mesmo que elas sejam novas, a noção básica do alemão pode incentivá-las a continuar o aprendizado, uma vez que o projeto também aumenta a autoestima e a confiança delas”, frisa. As professoras fazem o contraponto de valores literários, estéticos e culturais da Amazônia e de aspectos artísticos e culturais da Alemanha. Este processo possibilita à criança o reencontro com a identidade e com a etnia, através do trabalho de gênero e de busca de respeito a si e ao outro, reforçando a igualdade de direitos e deveres do cidadão. 
Os conteúdos são ministrados durante o ano letivo, período suficiente para que as meninas construam um vocabulário razoável. Algumas, conforme o interesse e a disponibilidade, conseguem permanecer por vários anos no projeto, ampliando as habilidades na língua alemã. O projeto começou em 2000, mas teve uma pausa e foi retomado em 2008. Desde então, já atendeu 340 crianças carentes. O envolvimento dos alunos da Licenciatura de Língua Alemã é um dos pontos fortes do projeto, no entendimento da coordenadora. “Este trabalho permitiu o amadurecimento de muitos estudantes locais. Alunos e profissionais que vêm da Alemanha para pesquisar e atuar na UFPA sempre procuram se envolver com o projeto, em uma troca que tem se mostrado maravilhosa”, conta.

Projeto “Guamá Bilíngue” atua há seis anos com estudantes do bairro

Voltado ao espanhol e também da UFPA, o projeto “Guamá Bilíngue” atua há seis anos com estudantes do bairro. Participam 35 alunos das escolas estaduais Alexandre Zacarias de Assumpção e Barão de Igarapé Miri, todos entre 15 e 18 anos. Estudar uma língua estrangeira se tornou uma grande ferramenta de “letramento crítico”, de acordo com  a professora Cássia Paiva, responsável pelo grupo. O curso dura um ano e consegue que  os integrantes dominem o básico do espanhol, seguindo o padrão europeu de ensino.
Os alunos participam das aulas no campus da Universidade e realizam atividades textuais que servem de base para discussões. “Abordamos temas como assédio, violência contra mulher, alcoolismo, entre outros. Muitas vezes, a conversa não fica só nas lições sobre a língua, mas passa para a consciência social. Eles passam a compreender melhor situações de risco e a construir melhor a cidadania. Nossa intenção também é dar letramento crítico, ou seja, uma leitura de mundo diferente da que eles estão acostumados”, assegura.
Mais de 20 trabalhos acadêmicos  foram elaborados com base no projeto e os estudos mostram que os alunos tiveram avanços significativos não só no domínio do espanhol,  mas também do português. Ao final do curso, os alunos recebem um certificado oficial do Instituto Cervantes, da Espanha. Leandro Silva, 19, participou do projeto em 2013 e foi o primeiro integrante a ser aprovado no vestibular da UFPA, em seguida. “O espanhol foi muito importante na minha vida, pois me ajudou a realizar a prova do Enem, onde optei por essa língua, fazendo com que eu conseguisse uma vaga na UFPA no curso de Ciência da Computação. Até hoje o espanhol está me ajudando, pois me deparo bastante com artigos, livros, video-aulas que se utilizam da língua espanhola”, relata.
A impressão deixada pelo curso em Leandro é um dos objetivos do projeto. Cássia salienta que, ao se deslocarem à UFPA para participar do projeto, eles são retirados de um ambiente de vulnerabilidade
e introduzidos ao espaço da universidade. “Isso os instiga, abre os seus olhos para as oportunidades do futuro. Ensinar outra língua abre portas para uma cultura diferente e o aluno percebe que pode ir além dos limites que lhe são apresentados”, resume. Pelo trabalho desenvolvido com o “Guamá Bilíngue”, a professora recebeu recentemente o “Prêmio Palma de Ouro Barroca de Minas Gerais”, destinado às mulheres de grande atuação nas áreas de Turismo, Cultura e Educação.

Serviço:
• Conheça mais sobre a AIESEC: www.aiesec.org.br/
• Saiba mais sobre o projeto “Aprendendo Alemão na Amazônia”: http://amazonienkinderdeutschlernen.blogspot.com.br/
• Mais informações sobre o projeto “Guamá Bilíngue”: www.facebook.com/GuamaBilingue


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Os 230 moradores de Irupé

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 24/09/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Um dos vereadores tem 7 anos de idade, o secretário de meio ambiente completou 12 anos e o prefeito, com 16 anos, ainda nem saiu da adolescência. Apesar da pouca idade, os gestores da cidade-laboratório de Irupé têm feito um ótimo trabalho no pequeno município. Bem pequeno mesmo, uma vez que possui apenas 230 “habitantes”. O projeto existe há três anos e desenvolve um trabalho de consciência social e política com os jovens, transformando-os em agentes ativos da comunidade. A iniciativa é promovida pela organização não governamental (ONG) Lar Fabiano de Cristo (LFC), na unidade Casa de José, no bairro do Guamá. 
A entidade completou 44 anos de fundação neste mês e, atualmente, beneficia cerca de 300 crianças, jovens, adultos e idosos. Irupé, que é uma palavra indígena para a planta vitória-régia, abriga três comunidades: Tuchaua, Muiraquitã e Apoema. É dentro da sede do LFC que os integrantes desses grupos convivem e aprendem sobre cidadania. A ONG oferece uma série de atividades extraclasse que vão desde aulas de reforço em matemática e português até karatê e teatro, além de cursos profissionalizantes. 
A mini-cidade pode parecer pacata, mas já vivenciou um processo de impeachment realizado no meio do ano letivo e promove assembleias mensais para discutir os problemas e as necessidades da população. Cada comunidade elege um vereador e um secretário e todos votam para escolher os prefeitos e vice-prefeitos. Eles podem nomear assessores, se julgarem necessário, e também indicam os secretários de Educação, Comunicação, Meio Ambiente e Saúde. São nomeadas duas equipes de gestores, sendo uma para a manhã e outra para a tarde. 
No turno vespertino, a responsabilidade de zelar por Irupé é do prefeito Luís Henrique Alves, de 16 anos. Ele já frequentava a ONG há dois anos, mas conta que aprendeu bastante depois que foi eleito. “É um projeto de protagonismo e deveria ser colocado em prática em outras instituições porque as crianças passam a conhecer melhor seus direitos e deveres. Aqui tem crianças com uma consciência que muitos adultos não tem e os pais se espantam ao ver o conhecimento delas. Tudo isso ajuda a criar cidadãos de bem, que vão saber brigar pelos seus direitos”, afirma. 
Os mecanismos da gestão municipal ficam mais claros para os meninos e meninas, que chegaram a conversar com vereadores para entender melhor o funcionamento da administração. “Não tem sido uma experiência fácil, mas é muito interessante lidar com as responsabilidades do cargo e ainda tenho muito para aprender”, acrescenta o vice-prefeito Wesley Santos, 14. Em parceria com Luís Henrique e o resto da equipe, eles pensam em formas de conscientizar os estudantes e solucionar as reclamações trazidas pelas comunidades. 
“A prefeitura me ensinou a ter mais consciência pelo ambiente que ocupo. Antes, eu pichava as paredes da escola, mas agora eu entendo que isso não é uma boa atitude. Inclusive, tivemos conversas com os alunos sobre pichação e vários admitiram que faziam sem pensar nas consequências”, compartilha Luís. Todo mês, as comunidades recebem temas diferentes, como sexualidade e drogas, para debater. O trabalho é realizado no mesmo formato no turno da manhã, mas os participantes têm autonomia para definir atividades diferentes. Elaine Rodrigues, 15, é a prefeita nesse período e conta com o apoio da assessora Rayssa Neves, também com 15 anos. 
Há três anos no Lar Fabiano de Cristo, Rayssa também passou pelos cargos de vereadora e secretária, chegando até a entrar na disputa pela prefeitura. “Estou desde o começo da cidade e tem sido uma experiência maravilhosa mesmo, aprendi muitas coisas sobre o que acontece em uma cidade. A importância da reciclagem para os moradores foi uma delas”, conta. Para ela, o que mais impressiona as pessoas de dentro e de fora da ONG é a união entre as crianças e jovens. Cada comunidade fica encarregada de cuidar de alguns ambientes do prédio e ela diz que, muitas vezes, eles se mobilizam para consertar problemas estruturais simples ou arrecadar materiais que estão em falta. 
Como se assessorar a prefeita não fosse trabalho suficiente, ela também está envolvida na turma de karatê, teatro e dança. Para o ano que vem, quer fazer o curso de informática avançada, que é ministrado dentro do LFC, em uma parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). “Só tenho que agradecer ao Lar, foi por meio desse trabalho que descobri o karatê, que hoje é a minha inspiração. Quero passar para os meus filhos tudo o que aprendo aqui”, completa. Luís Henrique está aproveitando as oportunidades oferecidas pela ONG para se capacitar e já realizou os cursos de mecânico de motor diesel, de operação e de manutenção de computadores.
“O Lar Fabiano de Cristo está nos preparando para a vida e não só na questão de trabalho, mas em experiência pessoal mesmo”, destaca. Para Norma Carvalho, supervisora da unidade, é muito gratificante observar os frutos da atuação da ONG e da implantação da cidade de Irupé. “É interessante observar a forma como eles se organizam. Aqui dentro eles têm autonomia para opinar nas atividades pedagógicas, além de se mobilizarem para levar ações para fora dos muros da escola”, explica. Os estudantes levam discussões para outras escolas e até já realizaram manifestações no bairro, munidos de caixas de som e panfletos para conscientizar sobre o despejo inadequado de lixo e para pedir a instalação de semáforo na rua. 

IMPEACHMENT 

Outra ocasião interessante ressaltada por Norma foi o impeachment. Ela lembra que os alunos do turno da tarde fizeram um abaixo-assinado para reclamar do comportamento do então prefeito de Irupé, que não acatava as decisões acertadas nas assembleias. “Depois disso, novas eleições foram realizadas e o aprendizado sobre democracia tem se fortalecido, especialmente entre os membros da gestão de Irupé, que aprendem a trabalhar em equipe”, pontua. A escala de cuidados com a horta e com a alimentação das tartarugas criadas na ONG são montadas pelos secretários, por exemplo. 
A cidade-laboratório também conta com um jornal e um conselho de mediação de conflitos, ideia dos próprios “moradores”. “Alguns deles tiveram a chance de participar de um curso de mediação e depois disso, tiveram a ideia de criar o conselho. Fizeram a proposta em assembleia e foi aprovada pelos alunos. O conselho já resolveu atritos entre grupos, com sucesso”, ressalta. Com tudo isso, a supervisora nota que os garotos e garotas de Irupé estão progredindo em termos de maturidade e senso crítico. 
Norma calcula que, desde que o LFC começou a promover cursos profissionalizantes através de parceiros, em torno de 500 pessoas se capacitaram com a ajuda da Casa de José. Maria das Graças Pantoja, 43 é uma delas. Mãe de seis filhos homens, ela diz que todos eles já passaram pela ONG. Ela mesma fez os cursos de bombons regionais, salgados, artesanato e costura. “Além de me ajudar a ter uma ocupação que pudesse gerar renda, o Lar tem contribuído para os meus filhos. O segundo, hoje com 21 anos, terminou os estudos cedo, não atrasou na escola e já está no mercado de trabalho porque contou com o reforço daqui. Todo bairro deveria ter um trabalho desse, que ocupa o tempo dos filhos”, declara. 
O projeto da cidade de Irupé é um dos semifinalistas da 11ª edição do Prêmio Itaú Unicef. O resultado será divulgado no dia 16 de outubro. A ONG é mantida pela Capemisa Seguradora, empresa que foi criada justamente para assegurar o apoio a este trabalho social. Além disso, ela tem pelo menos 15 instituições parceiras. A Casa de José possui muitos ambientes: biblioteca comunitária, sala de costura industrial, espaço de artesanato, refeitório, estamparia, entre outros. Porém, um espaço está sendo ansiosamente aguardado pelas crianças e adolescentes: o campo de areia, que será construído no próximo dia 9 de outubro pelos colaboradores da Telefônica Vivo, durante a realização do Dia dos Voluntários promovido pela empresa.

Lar Fabiano de Cristo vai receber reformas no Dia dos Voluntários

O Dia dos Voluntários, realizado através da Fundação Telefônica Vivo, ocorre há 10 anos em todo o Brasil e está na quinta edição na capital paraense. Um grupo de 120 funcionários irá ao Lar Fabiano de Cristo para reformar a quadra de vôlei e futebol, fazer a limpeza do espaço e revitalizar a pintura e grafitagem dos muros. Os municípios de Marabá, Redenção e Santarém também realizam a ação, envolvendo 200 colaboradores em todo o Pará. Neste ano, serão atendidas 47 instituições em 40 cidades brasileiras, beneficiando cerca 25 mil pessoas. 
O diretor da Telefônica Vivo para a Regional Norte, Ricardo Vieira, fala sobre a relevância da iniciativa para as entidades e também para os trabalhadores. “O trabalho não acaba ao fim do dia. É muito comum que o colaborador crie vínculos com as instituições atendidas”. Ele considera um dia de grande aprendizado e “olhando de um ponto de vista prático, nós conseguimos identificar lideranças, ver quem sabe trabalhar em equipe”. 
Segundo ele e a embaixadora do Comitê de Voluntários da Telefônica Vivo, Alessandra Ewerton, a ação gera trocas muito interessantes entre empresas e pessoas. Todo ano, uma ONG diferente é ajudada e o engajamento crescente tem sido uma resposta positiva. O número de participantes em Belém dobrou desde a primeira edição, tornando o comitê local uma referência de mobilização. “No dia, muitos setores param totalmente, mas temos atendimentos e lojas que não podem fechar. Para esses casos, criamos um “game do bem”, que é uma forma de ajudar virtualmente. Tem uma série de ações digitais que eles podem fazer para divulgar e colaborar com a causa. Por enquanto, isso é interno, mas temos planos de abrir essa plataforma para a sociedade futuramente”, adianta Alessandra. 
A analista de rede Cleide Pereira, 44, e o analista de telecomunicações Gilson Mácola, 35, vão participar do Dia do Voluntário e compartilham a satisfação que sentem em poder colaborar. “Participo desde a primeira edição e o projeto tem mantido a essência, que é ajudar o próximo. Fazer isso dentro do horário de trabalho faz você repensar sua atitude”, comenta Cleide. Para o colega dela, esse fator derruba a desculpa da falta de tempo para se dedicar ao voluntariado. “Ao fazer isso, a empresa derruba as suas barreiras e alimenta essa vontade de se doar”, complementa. 
 De acordo com a experiência deles no Dia do Voluntário, um efeito bom é a ligação estabelecida com as entidades. Gilson percebeu que os funcionários que moram perto das ONGs atendidas continuam interagindo com elas. “Teve um ano, que foi muito tocante para mim, que trabalhamos em um asilo. Minha família conheceu o lugar e até hoje meu pai contribui para o trabalho deles”, conta Cleide. A Fundação Telefônica Vivo também se comprometeu a recolher os uniformes dos trabalhadores, que são trocados anualmente, em todo o Estado e entregar ao Lar Fabiano de Cristo. Serão centenas de calças e camisas que serão aproveitadas pelas integrantes das oficinas de costura e customização, para depois serem vendidas. 
Em Santarém, será beneficiado o projeto “Saúde & Alegria”; em Marabá, a ONG Comunidade Kolping de Marabá Pedro Arrupe; e em Redenção, a Associação Mulheres de Raça (Amar). Em Belém, o Lar Fabiano de Cristo fica na rua Barão de Igarapé Miri, 527. Os telefones para contato são 3249- 7795 e 9 9212-8998.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

“Vaga Lume” encanta de livros o Marajó

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 26/11/2015



BRENDA PANTOJA
Da Redação

     O Marajó é terra encantada, cheia de lendas e mitos que causam fascínio. Nas comunidades do arquipélago, o encantamento não vem só das narrativas amazônicas, mas também dos pontos de leitura espalhados pelo Projeto Vaga Lume, que implanta bibliotecas em localidades rurais e ribeirinhas da Amazônia Legal. O trabalho é realizado desde 2001 e conta com 159 bibliotecas em 23 municípios, levando muito mais do que um acervo de livros novos para estas populações. Os espaços são administrados de forma conjunta pelos moradores, adaptando o seu funcionamento à realidade de cada região, e cultivam o hábito da leitura entre milhares de crianças e adolescentes. Os adultos também se beneficiam da iniciativa, que estimula a capacidade de articulação das lideranças comunitárias. 
     Somente em Soure, que é a maior cidade da Ilha do Marajó, há seis unidades. Uma delas fica na Comunidade do Céu, acessível de canoa pela praia do Pesqueiro ou de carro por dentro de uma fazenda. A vila é cheia de coloridas casas de madeira e fica de frente para a praia, recebendo um vento constante, além de ter uma rotina muito diferente da correria das grandes cidades. É lá que mora Maria Clara Rodrigues, que já é uma leitora ávida aos 8 anos de idade. Desde janeiro, ela leu mais de 75 livros, sendo a detentora da maior ficha de empréstimos da biblioteca Vaga Lume local. Os registros são tantos, que não couberam na ficha e passaram a ser anotados em um caderno à parte.
     Para escolher as leituras da semana, Maria Clara vai até a casa da voluntária Patrícia Monteiro Lima praticamente todas as tardes. Há três anos, a casa de Patrícia – mais especificamente, a varanda - é o ponto de encontro para todos que quiserem pegar os livros emprestados e participar das rodas de leitura. Graças ao esforço dela, que trabalha como merendeira na escola da comunidade, mais de 50 crianças, jovens e adultos, são frequentadores assíduos da biblioteca. “O acervo chegou em 2012, mas foi colocado na sede da associação da comunidade, que passa muito tempo fechada. Percebi
que os meninos e meninas não tinham acesso e trouxe para casa. Deu muito certo”, conta.
     Deu tão certo que a comunidade está arrecadando dinheiro para construir uma sede, feita de taboca e palha, que abrigue os 450 livros. O projeto está pronto e deve custar em torno de R$ 1.200. Para a Maria Clara, vai ser muito legal ter mais um espaço para ler confortavelmente. “Levo vários livros, uns cinco de cada vez. Gosto de ler no meu quarto, depois do almoço. Antes também. Os livros me ajudam em algumas lições da escola, gosto muito de pesquisar sobre os índios”, diz a menina. A mobilização em torno da biblioteca na Comunidade do Céu é um bom exemplo de como as pessoas se apropriam da iniciativa, o que é o seu principal fator de sucesso, afirma Sylvia Guimarães, presidente da organização não-governamental (ONG) paulista.
     Em outubro do ano que vem, a ONG Vaga Lume comemora 15 anos desde a implantação do primeiro espaço, que foi inaugurado justamente no Marajó, na Vila do Pesqueiro. Em preparação ao aniversário, a entidade promoveu uma expedição e levou nove educadoras para percorrer todas as bibliotecas, em uma missão que foi realizada nos últimos cinco meses. De acordo com Sylvia, o objetivo é coletar dados para montar um ranking, direcionar  melhor os investimentos e montar o planejamento do ano que vem. No momento, o foco é engajar mais pessoas físicas na manutenção do projeto através de doações mensais.
     Para ajudar a montar uma estratégia de ação, alguns colaboradores de São Paulo foram a Soure para conhecer as comunidades do Caju-Una, Céu e Pesqueiro. A visita ocorreu no último final de semana, através da empresa Turismo Consciente, e foi organizada por uma das fundadoras da ONG, Maria Teresa Meinberg. O grupo era composto de profissionais de marketing, publicidade, recursos humanos e outras áreas, que conhecem o projeto desde o início. A ideia era que eles vissem de perto o impacto causado pelas bibliotecas, para conseguir elaborar campanhas de engajamento entre a sociedade.

Iniciativa ajuda a construir consciência crítica e abrir novos horizontes

   Durante as visitas, a equipe conheceu muitas histórias interessantes, como a do agente multiplicador André Luís Nascimento, 19, que cursa o segundo ano de Letras na Universidade Federal do Pará. Foi na Comunidade do Caju-Una, onde a pesca é a principal atividade, que ele conheceu o projeto, na época com 12 anos. “A primeira coisa que mudou, logo de cara, foi o meu contato com os livros, que passou a ser direto e frequente. Fiquei tão envolvido que logo virei voluntário e ajudava na organização da biblioteca, no controle dos empréstimos e outras tarefas”, lembra.
        Ele foi crescendo junto com o Projeto Vaga Lume, que se firmou no Caju-Una e no Marajó, com mais 23 bibliotecas espalhadas por Breves e Portel. Ainda adolescente, André já atuava como educador, mediando as leituras. Esse contato, segundo ele, o ajudou na hora de decidir se tornar professor. “Os livros despertam a curiosidade, abrem os horizontes e ajudam a construir uma consciência crítica. Eu posso dizer, por experiência, que os livros são instrumentos de transformação social”, defende. 
       Em função da faculdade, ele se mudou da vila para a cidade de Soure, mas fica feliz ao ver que o projeto continua firme no Caju-Una. Os livros ficam guardados dentro de um bar, que está fechado, e a coordenadora da biblioteca, Valdileide Medeiros, garante que a principal meta é conseguir um local específico para o acervo. Para recepcionar os visitantes, os educadores e as crianças montaram um
ponto de leitura embaixo das árvores, na praça da vila, onde apresentaram peça de teatro, rodas de capoeira e promoveram um bonito momento de intercâmbio cultural. 
      Na Vila do Pesqueiro, a programação foi parecida e teve muito carimbó e exposição de livros artesanais, fotos e documentos que registram a história da primeira biblioteca instalada pela ONG, que funciona dentro da Escola Santa Luzia e já conta com mil livros, diz a professora Neide
Borges, 42, coordenadora do espaço. “Mudou muita coisa desde que os livros chegaram aqui. As crianças aprenderam a gostar de ler e tirar proveito dessa fonte de cultura e conhecimento. Aumentou a vontade de estudar e o desempenho nas notas. Até os pais que não liam, agora já leem”, afirma.
      Só no ano passado, 18 voluntários foram capacitados na comunidade, o que mostra a força de vontade das pessoas em manter o projeto funcionando bem, acredita a professora. “Além das atividades na escola, os voluntários passam nas casas para oferecer os livros. É uma ação que fazemos que dá certo porque ganha o interesse das famílias”, acrescenta. 
       A estudante Aline Almeida, 10, tira bastante proveito da biblioteca comunitária. “É muito bom ter sempre livros novos para ler, a gente aprende várias coisas, como preservar a natureza e o espaço onde vivemos. Com a leitura, a gente também consegue se expressar melhor e conhece palavras novas”, destaca.
      O envolvimento dos voluntários e o esforço das pessoas que participam do projeto é uma das coisas que mais chama a atenção da garota. A educadora Celice Gonçalves, 32, reforça que a participação dos moradores é fundamental. “O livro por si só não faz tanta diferença. É preciso que alguém o apresente para o público, por isso investimos nas formações locais. A gestão também é inteiramente comunitária, pois se adequa ao que funciona melhor para aquelas pessoas”, explica. Ela já viu comunidades que não conseguiram se organizar e fecharam as bibliotecas. “O processo de apoderamento é o mais interessante de tudo. A biblioteca tem que fazer sentido para as pessoas, senão o trabalho não tem continuidade”, resume.

ONG já formou 3.173 mediadores, 482 multiplicadores e 800 voluntários

    A ONG Vaga Lume foi fundada em 2001 por Sylvia Guimarães, Maria Teresa Neimberg e Laís Fleury. Movidas pela curiosidade, as três amigas, moradoras de São Paulo, decidiram conhecer a Amazônia e fazer algo em prol das comunidades visitadas. O projeto piloto consistia em montar uma biblioteca, composta por uma estante recheada de livros de literatura e acompanhada de uma formação de mediadores de leitura. A expedição durou 10 meses e percorreu a Amazônia Legal, implantando dezenas de unidades. A ação foi tão bem sucedida que foi retomada pouco tempo depois e se tornou um trabalho permanente. 
    Em 15 anos, o projeto já formou 3.173 mediadores de leitura e 482 multiplicadores da metodologia, além de receberem o apoio de mais de 800 voluntários. Desde 2001, 86.328 livros novos foram distribuídos e mais de 22 mil crianças e jovens foram beneficiados apenas em 2014. “Os números são expressivos e nos dão muito orgulho, mas quando a gente para pra pensar na dimensão da Amazônia, ainda temos muito trabalho a fazer”, ressalta Sylvia. A partir da expedição de avaliação, a ONG vai montar um relatório e estudar maneiras de se fortalecer. 
      A presidente da entidade enfatiza que a Vaga Lume quer crescer e está em busca de parceiros. “A nossa metodologia é o nosso trunfo, estamos tentando engajar pessoas e empresas em São Paulo e na Amazônia, sempre tendo em mente que essa causa, do acesso à leitura, é muito humanitária,  pois promove cidadania em uma região estratégica”, pontua. A ONG tem um esquema de contribuições mensais no valor de R$ 30, basicamente o preço de um livro, através do site www.doe.vagalume.org.br. Sylvia também incentiva as doações por meio da Lei Rouanet, que podem ser feitas tanto por pessoas físicas quanto jurídicas até 30 de dezembro. O valor investido é ressarcido no ano fiscal seguinte, na forma de abatimento ou restituição no Imposto de Renda.


SERVIÇO: 
Site: http://www.vagalume.org.br/ e http://doe.vagalume.org.br/
Facebook: /AssociaçaoVagaLume
Telefone: (11) 3031-8535
E-mail: colabore@vagalume.org.br