segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Unidades de Mosqueiro estão no limite

*Publicado no jornal O LIBERAL de 29/06/2013

BRENDA PANTOJA
Da Redação

   Moradores de Mosqueiro reclamam da dificuldade de encontrar um posto municipal de saúde que ofereça atendimento médico de urgência ou consulta, curativos e medicamentos. A maior queixa é que quando há um desses serviços o outro não está disponível, o que leva os pacientes a peregrinarem em várias unidades da Ilha para conseguir um tratamento mais completo. O Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (Sindsaúde) agendou uma reunião na Agência Distrital de Mosqueiro para segunda-feira. No sábado, dia 6, a categoria, com o apoio da comunidade, pretende fechar a ponte de acesso ao distrito e paralisar as atividades nas Unidades Municipais de Saúde caso a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) não responda às reivindicações.
   A cozinheira Vanda Costa, 36, trabalha ao lado da UMS de Carananduba e preocupa-se com o marido hipertenso, que está sem medicação há cinco dias. “Ele já foi em dois postos e não foi atendido, não recebeu o remédio e nem foi encaminhado para se consultar em outro local”, lamenta. A agonia do sapateiro Antônio Rocha de Oliveira, 71, já dura quase quatro anos e nem um diagnóstico preciso ele obteve para as dores que sente no ouvido. “Desde que começou um chiado no ouvido esquerdo eu já fui a três hospitais, incluindo o Bettina Ferro em Belém, mas não consegui fazer nenhum exame e só receitam xaropes que não adiantam nada”, conta. A presidente da associação dos moradores da comunidade Brasil Novo, Fátima Alves, afirma que as equipes médicas são reforçadas somente nos períodos de férias e feriadões por causa dos turistas. “Quando termina tudo e chega agosto, os médicos somem e nós, que vivemos aqui, ficamos na mesma situação”, acrescenta.
   O gerente da UMS de Carananduba, Max Jardim, reconhece que a falta de medicamentos nos postos é um problema geral, mas que os estoques serão renovados nessa terça-feira. “Normalmente funcionamos com um quadro de 18 médicos, que atendem 24 horas, mas com o aumento da demanda em julho receberemos mais quatro profissionais”, garante. Com cerca de 1.500 atendimentos mensais, essa quantidade deve dobrar nas férias. A unidade não oferece aplicação de curativos, pois segundo ele, essa é uma tarefa das Unidades Saúde da Família (USF). No entanto, o gerente disse que deseja implantar o serviço, uma vez que o posto possui estrutura física para tal. Uma das reclamações do Sindsaúde em relação à UMS foi a falta de água causada pela tubulação entupida. Porém, Jardim alegou que o encanamento do prédio funciona normalmente.
   A USF de Sucurijuquara já foi alvo de diversos protestos realizados pelos moradores da região, que neste semestre interditaram duas vezes a Estrada da Baía do Sol para exigir médicos no posto. O último profissional deixou o cargo em 2011 e desde então a população era atendida apenas por técnicos de enfermagem e uma enfermeira. O aposentado Deusdete Dantas, 68, deixou o posto com as guias de uma consulta e um exame marcados para a esposa, que sofre de dor nas articulações e tem problemas renais. “Só consegui consulta para semana que vem e o exame só será feito depois disso no Hospital das Clínicas, mas muitas vezes vim aqui atrás de remédios simples, como pomada para ferimentos e não tinha nada”, relata.
   Os médicos que os moradores pediram durante todo esse tempo chegaram apenas na semana passada. Agora a USF conta com duas profissionais, além dos técnicos em enfermagem para atender uma média de 25 pessoas por dia. A coordenadora da unidade, Ana Santos, admite que o material para curativos não supre a demanda mensal, mas ressalta que os pacientes não deixam de receber o serviço. “Muitas pessoas vem à unidade procurar remédios para hipertensão e diabetes que podem ser retirados gratuitamente também nas farmácias, basta apenas se cadastrar no programa do governo”, lembra. Ainda segundo ela, com a troca da gestão municipal, muitos medicamentos fornecidos estão sendo substituídos e a burocracia do processo licitatório pode atrasar um pouco a entrega. Uma nova remessa de material e remédios está prevista para chegar ao posto no começo da semana que vem.
   As péssimas condições de funcionamento da UMS da Baía do Sol são a principal queixa dos pacientes, que encontram aparelhos de ar-condicionado quebrados, goteiras e até cupim nas instalações. Apesar de o funcionamento ser 24 horas, a estudante Cleiciane Bentes, 19, que está grávida de sete meses não conseguiu ser atendida durante a madrugada. “Estava com muita dor e vim às 4h da manhã, mas as portas estavam fechadas, tive que voltar pra casa e esperar a médica do plantão de meio-dia chegar”, indigna-se. A gerente da unidade, Kátia Pardauil, alega que há 10 plantonistas trabalhando de dia e de noite desde o mês passado, quando a equipe recebeu mais três médicos e ainda aguarda a chegada de um ginegologista e um pediatra.
   “Recebemos um grande número de pessoas de outras comunidades que vem aqui em busca de remédio, vacina ou curativo, o que gera um quantitativo maior do que o esperado e esgota mais rapidamente os materiais e medicamentos”, justifica. Para amenizar os problemas do posto, ela está implantando um sistema que usa a internet para agilizar a marcação de consultas e exames. Quanto aos problemas estruturais, ela explica que o projeto de ampliação e reforma da unidade já foi aprovado e o levantamento do que será necessário foi realizado pela Secretaria Municipal de Urbanismo, mas as obras não tem prazo para começar, porque as licitações ainda serão abertas. A Sesma informou que as unidades de Mosqueiro já estão recebendo todos os materiais para curativos, assim como medicamentos, além de frisar que o atendimento nos postos foi reforçado para as férias de julho.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Cuidado com a boca é nicho de mercado

                                                                                                                *Publicado no jornal O LIBERAL de 05/05/2013

BRENDA PANTOJA
Da Redação

   Parcelar o pagamento do tratamento odontológico é o grande trunfo das clínicas populares, que praticamente dobraram no Estado. Até o final do ano passado, o Conselho Regional de Odontologia do Pará (CRO) tinha 35 estabelecimentos cadastrados e fechou o mês de abril deste ano com um total de 68. Além disso, os preços baixos oferecidos para restauração de dentes, implantação de aparelho ortodôntico e outros procedimentos facilitou o acesso da população de baixa renda ao tratamento dentário, o que incentiva a preocupação com a saúde bucal.
   A presidente da comissão de ética do Conselho, doutora Giane Bestene, reforça que é visível a maior conscientização das pessoas em relação à importância de manter uma higiene bucal. “Esse crescimento também pode ser um reflexo da deficiência na rede pública, então a população vislumbra a oportunidade de conseguir o atendimento com um custo bem menor”, completa. Ela explica que as clínicas populares costumam trabalhar com um grupo de dentistas que atende um grande fluxo de pacientes e recebe comissão sobre a produção diária, que varia entre 30% e 40%.
   Giane calcula que uma restauração simples custe, em média, de R$ 30 a R$ 60, mas frisa que nenhuma clínica é obrigada a seguir uma tabela de preços, apesar do CRO possuir uma planilha de Valores de Referência Regional para Procedimentos Odontológicos (VRRPO). Porém, é primordial que se observe as condições de biossegurança do local, que incluem a esterilização dos materiais e as condições do ambiente de atendimento. “É preciso ficar atento também à qualidade do tratamento, pois os baixos preços podem influenciar nos serviços”, alerta.
   Apesar de ser um atrativo, a propaganda dos serviços odontológicos por um custo acessível não é recomendada pelo Conselho. O novo código de ética da profissão, que entrou em vigor em janeiro deste ano, estabelece que o uso das palavras popular, do povo, pop, para todos, e similares constituem infração ética, por ser considerado “aviltamento à profissão”. Giane acrescenta que também é irregular a divulgação, seja em panfleto ou outro meio, de expressões como "preços baixos", "avaliação grátis", "preços populares", "preços que você pode pagar", ou até mesmo a distribuição da tabela dos procedimentos com seus respectivos valores. 
   As clínicas registradas no CRO já foram notificadas, mas o trabalho de fiscalização só será intensificado a partir de outubro, para que os proprietários tenham tempo de se adequar à medida, informa ela. “Essa regra vem para deixar claro que a Odontologia é uma ciência, um serviço de saúde, e não meramente um comércio”, enfatiza. As reclamações em relação às condições de funcionamento e aos serviços prestados partem tanto dos pacientes quanto dos profissionais e não se concentram somente nas clínicas populares.
   A equipe responsável por fiscalizar as denúncias recebidas no Conselho reúne integrantes das comissões de ética e jurídica, além de agentes da Vigilância Sanitária. O CRO não possui autoridade para interditar uma clínica, mas isso pode mudar caso o projeto de lei 5845/2001 seja aprovado. “Com essa lei nós poderíamos fechar os estabelecimentos por infrações éticas, que incluem atividade em ambiente insalubre”, complementa Giane.  As punições vão desde uma advertência confidencial até a cassação do exercício profissional.
   A clínica Popdents possui quatro unidades de atendimento em Belém e reúne 22 dentistas só no posto localizado em frente ao Ver-o-Peso. O panfleto da empresa, que diz “Dentistas para todos”, informa os serviços realizados após a avaliação gratuita: próteses, extrações, tratamento de canal e outros. A gerente da unidade, Patrícia Zamorim, afirma que a clínica ainda não foi notificada sobre a proibição no uso dos termos estabelecida pelo Conselho Federal. “As alterações necessárias serão feitas, mas não deverá afetar a procura dos clientes”, acredita. Segundo ela, os procedimentos mais procurados são as restaurações e os aparelhos ortodônticos.
   Para a costureira Lerdinalva Mendes, 64 anos, o barato saiu caro. Na busca pelo tratamento odontológico dividido em parcelas acessíveis, ela teve um prejuízo de quase R$ 20 mil. A empresa inicialmente contratada por ela, em 2009, foi a Imbra Tratamentos Odontológicos, que faliu no ano seguinte e deixou incompleto  o tratamento dela e de outras centenas de clientes. “Os procedimentos eram complexos e foram orçados em R$ 12 mil, que pagaria em parcelas, mas cheguei a quitar 60% do valor sem ter recebido os serviços”, conta.
   Quando notou a péssima qualidade dos implantes, ela tentou cancelar o contrato, mas teve as consultas adiadas até que foi comunicada do encerramento da empresa ao chegar à clínica para atendimento. “Depois disso tive que recorrer a outros profissionais para consertar os erros causados pelo tratamento inadequado e desembolsar mais R$ 10 mil”, relata. Ainda assim, a costureira não conseguiu concluir o tratamento, que precisou ser interrompido por falta de dinheiro, já que ela não conseguiu reembolsar a quantia.
   Agora, ela pensa em procurar uma clínica popular, mas tem receio de que o problema se repita. “Faltam procedimentos simples, que são oferecidos a baixo custo em várias clínicas, mas fico apreensiva pela qualidade”, reforça ela, que espera uma fiscalização maior dos órgãos responsáveis. O Conselho tem, em todo o Estado, 409 clínicas cadastradas, sendo 233 na capital paraense. Dos 4.069 cirurgiões dentistas registrados, 2.399 atuam em Belém. Qualquer irregularidade observada pode ser comunicada ao órgão por meio do telefone 3205 1600, das 8h às 17h, de segunda a sexta.

INFOGRÁFICO
O que observar em uma clínica odontológica para evitar complicações no tratamento
- Estrutura do ambiente: Infiltrações e mofo nas paredes propiciam a proliferação de fungos e bactérias
- Condições dos instrumentos: Materiais sujos ou enferrujados podem transmitir doenças.
- Esterilização das ferramentas: Para eliminar uma possível contaminação, é necessário esterilizar em uma estufa, o uso somente de álcool não é o suficiente.
- Licença para funcionamento: O estabelecimento precisa expor em local visível os registros junto ao Conselho, assim como a autorização da Vigilância Sanitária.
- Uso de luvas, máscaras, jaleco e gorros: São materiais básicos dos profissionais, que precisam ser utilizados durante o atendimento para assegurar a proteção á saúde do dentista e do paciente.
- Qualidade do atendimento: Próteses e restaurações que duram pouco tempo, ficam desajustadas ou caem são sinais de material e/ou aplicação precários. O paciente pode e deve procurar o profissional e, caso não seja assistido, o Conselho.
FONTE: DOUTORA GIANE BESTENE, CONSELHO REGIONAL DE ODONTOLOGIA DO PARÁ.

domingo, 13 de abril de 2014

Ver-o-Peso ao amanhecer

*Publicado no jornal O LIBERAL de 28/03/2014. 




      
   Para chegar à Feira do Açaí na madrugada de quinta, o barqueiro Edilson Ferreira, 43, saiu na noite de segunda-feira do município de Afuá, na Ilha do Marajó. As quase mil latas de açaí que ele transportava tinham o Ver-o-Peso como destino certo, em uma rotina que já dura 20 anos. Ele faz o roteiro uma vez por semana e só poucas horas depois do sol nascer, quando já terminou de negociar a venda, é que se recolhe dentro do barco para descansar. Nas primeiras horas do dia, o burburinho e a agitação também tomam conta da Pedra do Peixe, onde chegam os pescados que vão abastecer as feiras livres e supermercados de Belém.
   “Os anos vão passando e a feira só ganha mais força, com mais barqueiros fazendo o transporte do açaí, mais fábricas procurando comprar. Comecei fretando o barco, mas acabei decidindo entrar no negócio e agora são seis tripulantes comigo”, conta. O aniversário de 387 anos do Ver-o-Peso foi comemorado em 27 de março, mas muitos trabalhadores reclamaram do movimento mais fraco do que o esperado para aquele dia. Quando o resto da cidade ainda dorme, às 2h da manhã, é que a circulação começa a aumentar no Ver-o-Peso. O fluxo de carregadores, com paneiros de açaí ou caixotes de peixe acima da cabeça, vai se intensificando gradualmente até atingir o pico por volta das 5h, quando quase não há espaço para transitar em meio às mercadorias.
   O lema da feirante Maria Ferreira, 64, é “quem chega primeiro, negocia melhor”. Ela trabalha na feira do bairro de Canudos há duas décadas e diariamente vai ao Ver-o-Peso para escolher somente as “frutas de primeira”. “Chego às duas ou três da manhã e rapidamente vou escolhendo tudo que preciso, desde a farinha de tapioca até muruci, cupuaçu e tudo que é fruta, todas fresquinhas”, garante ela, que carrega as compras em uma Kombi e segue direto para o ponto de trabalho. Já o vendedor Dilson das Chagas não tem pressa de ir embora. Aos 62 anos, passou os últimos 40 trabalhando na Feira do Açaí, onde diz que chegou “por acaso”. Ele explica a história, mas não para de negociar durante a entrevista, atento para não perder nenhum bom negócio e apelando para a amizade desenvolvida com os compradores (“Você é parceiro e já tá amanhecendo, pra ti eu posso fazer mais barato esse paneiro, pra acabar logo”).
   Depois de ser cobrador de ônibus durante 12 anos, um amigo ofereceu trabalho como carregador. “Como ele trabalhava com exportação, de vez em quando me deixava vender alguns paneiros. Comecei com 10 e hoje vendo uma média de 130 por dia”, lembra. Dilson passa mais tempo na feira do que em casa, chegando ao local normalmente às 16h. “Fico aqui, brincando, conversando, tiro uns cochilos e só volto para casa às oito horas do dia seguinte”, confessa. Para os próximos anos do espaço que considera a extensão de casa, ele tem um desejo. “Espero que nos deixem permanecer aqui, trabalhando, ganhando nossa vida. Fazemos parte daqui, o Ver-o-Peso é o ponto de encontro dos paraenses, um patrimônio histórico e cultural”, destaca.

PEIXES, MINGAU E FRUTAS

   Circulando por entre os balanceiros, Raimunda Silva, 49, escolhe os melhores peixes para levar para a Feira do Entroncamento, onde trabalha há 15 anos. Dourada, tilápia e pratiqueira são as preferências dela, que acorda às 3h para sair de Marituba em direção ao Ver-o-Peso. Passando das 4h30, ela ainda não tinha concluído as compras, mas não tinha pressa e analisava bem a relação de custo e benefício. “Levo sempre entre 170 e 200 kg, mas os preços estão subindo muito. Tive que deixar de comprar pescada amarela e filhote por enquanto”, lamenta. Um dos que negociavam com ela era Ribamar Oliveira, 41, vice-presidente da Associação dos Balanceiros do Ver-o-Peso (Asbalan). Ele estima que circulem 25 toneladas de pescado diariamente na Pedra do Peixe.
   O balanceiro acorda meia-noite para trabalhar de 1h às 8h. “A rotina daqui mudou, antes a venda iniciava às 4h30, mas os compradores foram chegando cada vez mais cedo para negociar”, observa. Os trabalhadores da feira são o principal público de Maria do Socorro Negrão, 49, que vende mingau há mais de 20 anos, ocupação que aprendeu com o pai. Ela dedica quase 14 horas por dia ao trabalho, uma vez que meia-noite começa a preparar o alimento em casa, no bairro do Benguí, e segue para o mercado e só encerra a venda por volta das 14h.
   “Abro a barraca às 3h30 e tem movimento a manhã toda. Aqui me sinto em casa, até me sinto segura. A gente faz amizades e conhece muitas pessoas novas. Também é daqui que pago meu aluguel e sustento meus dois filhos, então me esforço para fazer bem o meu trabalho. Enquanto puder vender o meu mingau, está ótimo”, ressalta, entre risos. Um dos clientes fiéis é o autônomo Haroldo Rodrigues, 60, que não começa o trabalho antes de tomar mingau no box dela. “Frequento o Ver-o-Peso constantemente há 12 anos. Desço do ônibus às seis horas e primeiramente paro aqui para tomar o meu café da manhã, depois sigo para comprar as mercadorias necessárias”, afirma.
   O dia já está claro, são 6h30, e a feirante Rita de Cássia Pereira, 39, trabalha agilmente para organizar as frutas na barraca, em ritmo acelerado. A rotina dela é puxada, principalmente nos três dias da semana em que acorda às 2h da manhã, deixa a casa em ordem, no distrito de Icoaraci, e segue para a Central de Abastecimento do Pará (Ceasa). “No mais tardar, às 4h30, venho de lá para o Ver-o-Peso, com 30 caixas de banana e 10 de goiaba, além de muruci, maracujá e outras frutas”, relata. Os primeiros clientes chegam às 5h e, segundo ela, geralmente são aqueles que trabalham em lanchonetes e vendem sucos e vitaminas, levando frutas em grande quantidade. Somente às 18h30, Rita volta para casa, com os filhos e netos. “Desde os nove anos trabalho em feiras, já vendi nas feiras do Barreiro e do Telégrafo, mas o Ver-o-Peso não tem nem comparação. Se deixar a gente fica direto, o movimento não para nunca. Não troco este lugar por nenhuma outra feira”, admite, com um sorriso animado, pronta para começar mais um dia de trabalho em uma das maiores feiras livres da América Latina.

terça-feira, 12 de março de 2013

Ayvu Rapyta

 *Publicado na revista Amazônia Viva, nº 19, março/2013

     “Se esta mata fosse minha / eu não deixava derrubar / Se cortarem todas as árvores / onde é que os pássaros vão morar?”. É com os trechos do poema Paraíso, de José Paulo Paes, que o professor de literatura Paulo Demétrio, 41, arranca sorrisos do público reunido no Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves, em Belém, para mais uma contação de histórias.
    Contar histórias é uma arte que alguns dominam por meio da escrita ou da fotografia, mas há aqueles que utilizam o próprio corpo. Mãos, pés, olhos e boca empenhados em transmitir ao público as emoções contidas em um enredo. Os quase anônimos contadores de histórias doam seu tempo e esforço pelo puro prazer de compartilhar, junto aos ouvintes, as alegrias e surpresas de uma trama.
Contação de histórias

     Dividir boas sensações é uma das maiores motivações do grupo de contadores de histórias Ayvu Rapyta, criado em 2008. O nome deriva de uma expressão indígena cujo significado principal é “palavra habitada”. Uma característica é comum a todos os treze membros da equipe e foi o que impulsionou a ideia: o amor pela literatura.
     Paulo Demétrio é um dos integrantes mais antigos do grupo, faz questão de dizer que a contação “é uma brincadeira séria”. Apesar de ser vista por muitos como algo somente lúdico, ele defende fortemente os benefícios de uma história bem contada. 
     “A intenção também é compartilhar sabedoria, através de estudos e pesquisas sobre literatura oral e escrita”, afirma. Dentre os proveitos resultantes da prática, o primordial é a formação de leitores, que estimula a criticidade e ajuda na formação de cidadãos mais conscientes do seu papel na sociedade. 
     A técnica em enfermagem Gilvanete Situba, 41 anos, fala sobre os recursos utilizados pelo grupo para alcançar seus objetivos. A união de vários elementos cênicos, musicais e corporais faz parte de uma estratégia. “Não se trata de representação e nem de interpretação. A performance que realizamos tem o propósito de despertar encantamento”, explica.

Deixe um sorriso na caixa
     O simples ato da escuta atiça o desejo pela leitura e é nisso que o contador de histórias aposta para divulgar a literatura, não só amazônica e brasileira, mas universal. Nas rodas de contação o tempo aparece como mero coadjuvante. O que importa são os risos, o suspense e o desfecho tão aguardado. Viver em uma região como a nossa é um prato cheio para quem gosta de ouvir e contar boas histórias.
     A Amazônia têm tantos mitos impregnados pelas florestas e rios que é praticamente impossível resistir a apurar os ouvidos quando alguém começa a narrar um causo. Através das lendas o amazônida construiu toda uma cultura de misticismo, crendices, fé e até mesmo de respeito pela natureza.
     Gilvanete acredita que ao mesclar histórias e poemas de autores paraenses como Walcyr Monteiro, Juraci Siqueira e Alfredo Garcia, a nossa identidade é valorizada. Ela lembra ainda que a oralidade é um dos traços fortes da cultura local.
     Ambientados em uma região de natureza exuberante, os contadores não conseguiriam nem se quisessem deixar de lado a questão ambiental. As matas e os furos de igarapé frequentemente são escolhidos como cenários das histórias que, geralmente, são protagonizadas por animais. Quem explora este ponto é a pedagoga Joana Martins, 48 anos, participante do Ayvu desde o início do grupo. “Ao utilizar elementos do meio ambiente queremos promover uma reflexão e despertar não só o cuidado com a natureza, através da valorização do que é nosso, mas com o próximo também”, completa.
      Para ela, uma das maiores alegrias em integrar o Ayvu e poder levar a “palavra em todas as suas formas para faixas etárias muito diversas, com um repertório muito grande”. A dedicação em cumprir esse papel é um dos fortes do grupo, segundo Joana.

História contada na roupa
            
      A palavra rompe barreiras até mesmo físicas, conforme comprova o professor Ronaldo Alex de Carvalho, 48 anos, membro do grupo e deficiente visual. Dividido entre a vontade de compartilhar histórias e a timidez, o envolvimento com as narrativas foi maior. Desde então, Ronaldo já se apresentou, junto com o grupo, para crianças com deficiência visual e auditiva, e precisou usar diferentes recursos como instrumentos musicais ou a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Ele conta, emocionado, que o retorno sempre foi muito positivo.
     É senso comum entre os contadores do Ayvu que é impossível mensurar a dimensão que uma história pode alcançar. “A mesma história pode ser narrada de várias formas diferentes, uma nova abordagem pode surgir. Mas é muito gratificante sentir que tocamos o público de alguma forma”, confessa o também professor Edinei Dias, 41 anos. A repercussão que a palavra encontra comprova, para ele, que a força reside na própria história e que ela não acaba na roda de contação.
    Paulo Demétrio complementa a ideia de Edinei e enumera quatro fatores necessários para conseguir esse efeito no público. “É fundamental que o contador acredite na narrativa, ame o texto, seja encantado pela história e esteja emocionado pela mesma”, recomenda.
Sombrinha literária
     Em seis anos de Ayvu, o reconhecimento do trabalho realizado é visível na divulgação boca-a-boca, crescimento do público que comparece aos eventos e aumento dos convites. Com o objetivo de conseguir cumprir vários compromissos e contribuir em praças públicas, escolas, entre outros espaços, as principais dificuldades do grupo são a disponibilidade do tempo, por ser um trabalho essencialmente voluntário, e a captação de recursos para estruturar o grupo. Aquisição de livros, figurino, oficinas de expressão corporal e técnica vocal são alguns dos investimentos.
      O planejamento do grupo para este ano inclui o 3º Encontro de Contadores de Histórias, às 10h do dia 17 de março, no anfiteatro da Praça da República, em comemoração ao Dia do Contador de Histórias comemorado em 20 de março. Mesas redondas com entrada gratuita também estão previstas e a primeira está marcada para 14 de março, no auditório do colégio Pedro Amazonas Pedroso, com o tema “Motivos, variações e aproximações entre literatura oral e escrita”, às 17h.
     “Todos os amantes da palavra estão convidados a participar dos nossos eventos. São pessoas de 8 a 80 anos que se reúnem para ouvir histórias de contadores entre 17 e 77 anos”, brinca Gilvanete. Ela se refere a integrante mais velha, a dona Eny Souza, que mesmo aposentada não abandona o costume de menina. “Cresci no Marajó e participo de rodas de história desde que me entendo por gente. Nos reuníamos para ouvir nossa avó contar os casos e o hábito cresceu comigo”, recorda. Dona Eny é a prova de que uma roda de contação de histórias pode – e deve – ser apreciada por pessoas de todas as idades, pois a fantasia não distingue a criança do idoso.

De geração para geração 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A fina arte do humor



*Publicada na revista Amazônia Viva de setembro de 2012


Com 30 anos de profissão, o cartunista paraense Biratan é um defensor do papel social da charge como fonte de reflexão. Para chamar a atenção sobre os problemas ligados ao meio ambiente, ele idealizou e coordena o Salão internacional de Humor da Amazônia, um dos eventos mais importantes do país na questão ecológica. Texto de Brenda Pantoja e fotos de Paula Sampaio.


Seja para promover uma reflexão ou arrancar uma gargalhada - ou até mesmo os dois juntos - o cartunista Ubiratan Porto surpreende com as suas criações. Nasceu na Belém dos anos 50, mas foi criado em Castanhal, onde deu seus primeiros passos, literalmente. E artisticamente falando. O cartunista assina como Biratan, com uma letra a menos e talento de sobra. São mais de 30 prêmios nacionais e internacionais que, se dependerem dele, não vão parar de surgir. “Quero chegar aos noventa anos trabalhando e produzindo”, resume.
Biratan usa papel e caneta – hoje com uma ajudinha das ferramentas digitais – para se expressar através do cartum, da charge e da caricatura, mostrando a realidade social, política e ecológica que vivemos. Ele confessa que o seu xodó é o cartum, porque funciona quase como uma terapia. É por meio do cartum que Biratan faz o leitor rir e pensar.
Em entrevista à revista Amazônia Viva, Biratan fala com a descontração que lhe é peculiar sobre os desafios e a importância do humor gráfico no que diz respeito à região amazônica. Sobre o sucesso do Salão Internacional de Humor da Amazônia, que já está na 4ª edição (este ano acontece no Hangar, de 21 a 30 de setembro, Biratan afirma que o destaque do humor ecológico ocorre porque o apelo pela natureza é o mesmo, de um lado a outro do planeta.

O Salão Internacional de Humor da Amazônia chega à sua 4ª edição e reúne 140 trabalhos de 30 países. Com o tema "Ecologia no Traço", o que representa essa participação do evento em nível mundial? Os cartunistas também estão antenados no que é ecologicamente correto?

Aqui no Brasil temos dois salões tratando desse tema. Tem o concurso de Cartoons Ecológicos promovido pelo Shopping de Brasília e o nosso Salão Internacional de Humor da Amazônia, que este ano deve ir para sua quarta edição. É claro que tem outros salões que eventualmente lançam esse tema. Como se trata de um problema mundial, o humor ecológico acaba atraindo cartunistas de muitos países. Os problemas são os mesmos: lixo, poluição de rios e mares, desmatamentos, aquecimento global, animais em extinção, água, etc. E o que a gente nota é que o assunto tem muita coisa a se explorar na área do cartum e da charge. Eu trabalho com humor ecológico há 30 anos, e já me rendeu três livros e várias animações. Vamos discutir ecologia aqui neste globo terrestre até mudarmos de mala e cuia pra Marte. É claro que a degradação do planeta ainda vai demorar umas boas centenas de ano.

• É preciso algum cuidado na hora de retratar a Amazônia para que o foco não seja sempre a questão ecológica?

Sim. Nesse bojo ecológico, tem outros assuntos importantes: Políticas várias que envolvem remanejamento florestal, povoamento planejado, comércio, pesquisas, combate ao tráfico da fauna e flora, implantações de indústria, obras que suscitam polêmicas de impacto ambiental e outros que acabam desestruturando o próprio amazônida.

• O cartum tem a intenção de ser uma ferramenta de conscientização social? Como trabalhas o senso crítico?

Essas modalidades, Cartum e Charge, têm fronteiras. A charge tem poder crítico mais corrosivo, ácido. Consegue importunar, incomodar o criticado. Muitos dizem que a charge tem a força de um editorial. Por isso tem destaque no jornal. Tem uma história lá pro Rio Grande do Sul, que uma charge do cartunista gaúcho Sampaulo, criticando um político local em época de eleição, tirou duzentos mil votos desse candidato, levando o pobre à derrota. Já o cartum é um tipo de humor só pra fazer rir o leitor. Não tem compromisso com fatos. Aborda mais o comportamento humano, suas fraquezas.

• O humor precisa ser dosado? Como distinguir os limites entre o cômico feito somente para rir e o cômico que denuncia mazelas sociais?

Cada cartunista, chargista tem uma pegada. Vai depender dele o seu traço editorial. Desenhar com todas as letras, ser um crítico audacioso, discordando muitas vezes da linha editorial do seu jornal é uma missão muito difícil. Aí vem a sua pergunta: e a dosagem do humor, da crítica? Claro que todos nós sabemos até onde podemos ir. Até o Cartum tem a sua dosagem, o seu limite. Sabemos que a qualquer hora algum leitor pode nos rotular de preconceituosos, porque tocamos em um assunto proibido, ou ferimos suscetibilidades.

• Tu tens observado um crescimento do público de amantes de cartuns na região? Existe uma tradição do cartunismo na Amazônia?

Na região toda não tenho ideia, mas aqui em Belém do Pará temos já várias gerações de desenhistas de humor. Pelas pesquisas do nosso querido professor e pesquisador Vicente Salles, lá por 1870 aportou aqui em Belém um alemão chamado Karl Wiegandt. Esse cidadão, que era exímio desenhista, caricaturista, montou a primeira oficina litógráfica aqui na cidade. Imprimiu os primeiros jornais e recheou com suas charges e caricaturas de figurões da época. Gostou tanto de Belém que viveu aqui 38 anos produzindo e ensinando sua arte pra muitos Paraenses. Faleceu em 1908. Depois dele, na década de 40 vem outra geração de bons desenhistas paraenses: destacam-se Cripim do Amaral, Manoel do Amaral, Ângelus e Teodoro Braga, que eram pintores e também caricaturistas. Sobressaem-se também João Pinto, Cotta. Todos excelentes artistas gráficos. Nos anos 70 já surge a nossa geração. Toda muito influenciada pela onda do Pasquim: Luíz Pinto, Felix, Biratan, Walter Pinto, Sebastião Godinho, Ropi, Nilson Brasil, Emanuel Nassar, Osmar Pinheiro e outros. Em seguida aparece a nova geração que são esses atuantes  e premiados cartunistas que curtimos em nossos jornais: J. Bosco, Waldez, André Abreu, Arnaldo Torres e Casso.

• O Salão de Humor pode ter influenciado esse crescimento?

Sem dúvidas. Tivemos um crescimento de 80% na participação desenhistas do primeiro para o segundo salão de Humor da Amazônia. O Salão já faz parte do calendário de humor do Brasil e do exterior. Tivemos uma média de 35 países participando do nosso evento de humor. E obviamente é um intercâmbio que
contribui muito para o crescimento de novos e antigos cartunistas.

• A linguagem quase exclusivamente visual das charges e cartuns chega a ser um desafio?
Sim. O desenho de humor é uma fina arte. Há quem diga que é a oitava arte. Vejam os trabalhos do Quino, criador da Mafalda, os geniais Gosciny e Uderzo, Ziraldo, Millôr Fernandes, Cassio Loredano e tantos outros monstros sagrados do desenho de humor gráfico.

• Mesmo sendo um mercado onde não é fácil se destacar, tu inovaste com as "Caricaletras". Como surgiu a ideia? Teve uma boa aceitação?

Graças que continua tendo uma boa aceitação. As caricaturas de letras começaram em 2002. A primeira que fiz foi a do Carlos Drummond de Andrade. Inscrevi no concurso nacional de caricaturas em homenagem ao poeta, realizado em Minas Gerais. Ganhei uma Menção Honrosa. Fiquei muito feliz. A partir daí continuei produzindo as caricaturas de letras. O resultado final foi tão bom que rendeu um livro, lançando em abril do ano passado na Fox Video. Fiz também um lançamento só para cartunistas no Rio e em São Paulo.

• A internet é um espaço bastante democrático, onde as pessoas não encontram dificuldade para se expressar. Tu achas que a charge perdeu a força que tinha quando era veiculada apenas no meio impresso? Ou ela tem se utilizado das novas tecnologias pra garantir sua influência?

A mídia impressa já reinou por décadas. É claro que a charge política, a caricatura, a ilustração tiveram muitos anos de glória e visibilidade. O tempo é de transição. E a mídia eletrônica grassou mundo afora. Os próprios meios de comunicação impressos estão migrando aos poucos para esse mundo cibernético. Pra mim fica bem claro que as redes sociais, esse admirável mundo novo da internet, passaram a ser as grandes passarelas para exposições de produtos, vaidades, curiosidades, artes em geral. A charge, o cartum, o humor gráfico também estão rezando nesta mega procissão do cyber espaço.

• Voltando à proposta central do Salão de Humor da Amazônia. Como o cartunismo pode colaborar com a abertura de ideias em relação ao meio ambiente na região?

Através do riso e da reflexão. Esse passeio que as pessoas farão por essas obras de diferentes artistas do mundo inteiro deixará uma conscientização ecológica, sem dúvidas.