quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Consciência crítica no canteiro de obras

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 19/11/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Democracia, cidadania e a estrutura do Estado brasileiro. Esses três tópicos vêm sendo amplamente discutidos em um canteiro de obras no bairro do Icuí-Guajará, em Ananindeua. Nesse ambiente de trabalho, o debate vai além das rodas de conversas informais sobre o cenário político ou a crise econômica do País, pois é realizado durante o Curso de Iniciação Política, gerando um entendimento mais amplo e formando cidadãos multiplicadores. A iniciativa é da empresa Síntese Moradia, que selecionou 58 funcionários, fornecedores e moradores da comunidade para assistirem às aulas. 
A turma participará do segundo encontro amanhã e encerrará o ciclo na próxima sexta-feira. A atividade é realizada sempre de 8h às 12h30, dentro do expediente. A diretora executiva Lecy Garcia garante que é a primeira vez que um curso nesse formato é ministrado para colaboradores da indústria da construção civil em Belém. O objetivo é oferecer conteúdo de introdução às questões políticas, de forma suprapartidária, e fortalecer a formação cidadã do corpo de trabalhadores, composto em quase 70% de habitantes das comunidades próximas. 
O resultado, acreditam os organizadores, será visto na prática, a partir de uma mudança de postura e de articulação nos moradores do bairro. “Pesquisas mostram que três meses depois das eleições, 60% das pessoas não lembram mais em quem votaram para cargos como os de vereadores, deputados estaduais e federais. É muito importante criar no eleitor uma provocação, instigá-lo a ponto de que ele não esqueça quem elegeu e se lembre de cobrar esse político”, afirma Rodrigo Garcia, diretor de Gestão e Estratégia da empresa.
A ideia surgiu no último período eleitoral, quando uma obra estava sendo finalizada no município de Capanema, e vários funcionários pediram aos seus encarregados que indicassem em quem deveriam votar. “Isso não é bom, pois abre brecha para manipulação e transfere a responsabilidade do cidadão. Nossa meta com esta ação é que eles construam autonomia de escolha, de consciência crítica. O voto é inalienável, é seu, a responsabilidade é de todos nós para transformar o País”, reforça. 
O encarregado de obras Ivaldo Tadeu Caldas, 51, é um dos participantes e já parou para reavaliar sobre muitos pontos na primeira aula. Para ele, saber como funciona o sistema é fundamental para cobrar mudanças, tais como reduzir “as regalias dos políticos”. Apesar de otimista e confiante no desenvolvimento do Brasil, ele se diz realista. “Vai ser um processo lento. Para melhorar a situação, a gente tem que cumprir o nosso papel também, tem que ter entendimento sobre as leis do país”, pontua. O curso, nesse sentido, é classificado por ele como “necessário e proveitoso”. 
Ivaldo observou que o primeiro momento de discussão deixou muitos “surpresos”. “Ao poucos, vai abrindo a mente para uma visão diferente, uma interpretação que nem sempre estamos acostumados. Nos ajuda a perceber a responsabilidade em relação aos que colocamos no poder para representar o povo”, pondera. A preocupação com a conscientização do filho está entre as reflexões que ele leva do curso. Em vez de mandar o filho votar em determinado candidato, vai conversar com o rapaz e incentivá-lo a decidir sozinho. 
Ele ressalta que as aulas sobre cidadania vão chamar a atenção dos operários sobre a importância dos deveres e também dos direitos. Ivaldo aponta um problema comum na construção civil, que é o trabalho informal. “Para se aposentar, o trabalhador da área tem que ter 35 anos de trabalho comprovados, mas muitos começam irregularmente, sem assinar carteira, e não percebem o prejuízo que isso pode causar”, diz. O reflexo também poderá ser visto na mobilização da comunidade, segundo ele, que se trata de uma área onde as políticas públicas demoram muito a chegar. “Quando a obra começou, tivemos que mandar furar um poço artesiano porque ainda não tinha abastecimento. Se houver organização e planejamento, e uma população consciente dos seus direitos, eles conseguem melhorias”, completa. 
A proposta das aulas não foi novidade nenhuma para o cientista político Humberto Dantas, formado pela Universidade de São Paulo (USP) e com mais de 300 turmas formadas em cursos livres de formação política. Contudo, esta foi a primeira vez que ele realizou o trabalho em um canteiro de obras. Segundo ele, as palestras são feitas, predominantemente, para um público de jovens estudantes de escolas públicas na periferia de São Paulo. De acordo com Dantas, há forte demanda também de fábricas, empresas, gerentes de banco e organizações públicas.
“É um trabalho necessário para os mais de 155 milhões de eleitores do país. Quando se trata de trazer para este ambiente, estamos lidando com agentes responsáveis por uma política pública, de habitação. Eles constroem moradias e são agentes dessa política”, destaca. Dantas amplia, frisando que o debate precisa ser feito por todos os cidadãos, para que todos tenham consciência de como são feitas as leis. Ele explica que o curso segue um formato simples, com palestras e desafios propostos aos participantes. As atividades contam com exibição de documentários, divisão em grupos e até ações práticas na comunidade. 
A culminância do curso será com uma ação dos funcionários e colaboradores, que deverão observar o que está errado no entorno da obra e pensar em formas de melhorar a realidade local. Eles poderão entrar em contato com uma associação do bairro e promover um diálogo para que os grupos saiam a campo, orientados por representantes para uma percepção dos principais problemas. Se for o caso, deve ser feito um contato com a prefeitura para fazer intervenções mínimas em áreas de educação, saúde ou centros de convivência. 
Após as visitas, cada equipe deve tentar convencer os demais sobre uma intervenção que todos possam realizar em um desses locais. “É importante que apenas uma ideia seja contemplada, justamente para mostrar que na vida pública existe a necessidade de fazermos escolhas e investirmos sobre a lógica do convencimento – isso é fazer política”, define. O projeto sugere que a ação definida pelos integrantes no último encontro seja transformada em algo padrão da empresa. 
“Cada obra entregue pode terminar com um trabalho de conscientização em que os colaboradores envolvidos, em contato com a comunidade, realizem algo sob um dos três métodos acima, marcando a capacidade de pensarmos coletivamente”, propõe. Para Dantas, o objetivo será alcançado se o participante sair do curso desejando uma sociedade democrática e compreendendo que ele é responsável por essa sociedade.

Empresa quer despertar no trabalhador a capacidade de empoderamento

Lecy Garcia enfatiza que a ação faz parte de um programa muito maior, uma vez que a valorização do ser humano é um valor muito forte para a empresa. “Se a Síntese tem como propósito ter equipes de excelência, a base de tudo é o desenvolvimento da consciência crítica, da capacidade de empoderamento desses indivíduos. Eles se tornam multiplicadores dessa postura em casa, na vizinhança e na própria empresa”, assegura. Além dos 175 operários envolvidos na construção do empreendimento “Novo Cristo I”, onde está sendo ministrado o curso, a obra teve um grande impacto socioeconômico nos moradores do loteamento Warislândia. 
 A fim de também contribuir para o desenvolvimento do local onde está inserida, a empresa optou por contratar moradores da área, gerando emprego e renda. Ela cita como exemplo o microempresário Alan Souza, de 29 anos. Há um ano, ele fornece refeições para o canteiro de obras, uma atividade que aumentou significativamente a renda mensal da família. Ele conta que não tinha intenção de trabalhar na área, mas surgiu a oportunidade quando começou a garantir a alimentação do primeiro funcionário, que operava sozinho uma máquina para limpar o terreno. 
Atualmente, ele atende 130 operários, que consomem café da manhã, lanche, almoço e jantar, se for necessário. São mais de 300 unidades vendidas por dia e o crescimento exigiu capacitação. “Tivemos que nos formalizar para ter CNPJ e emitir nota fiscal, tudo direitinho. Por meio da Síntese, conseguimos parceria com a REDES/FIEPA, que nos deu assessoria nesse processo. Já contratamos sete pessoas daqui para nos ajudar com a demanda”, conta. Alan também é o vice-líder comunitário e está participando da turma de iniciação política. Ele considera a ação, por si só, inovadora e uma atitude “surpreendente” por parte dos empresários.
“Compartilhar esse conhecimento é um diferencial para qualquer empresa. Os instrutores estão sendo muito atenciosos e tirando dúvidas, coordenando as discussões. Isso desperta ou faz a gente recuperar o interesse pela política porque muitos estão desacreditados com o poder público, não sabem a quem recorrer para fazer valer os seus direitos”, observa. Como integrante da liderança comunitária, ele admite que o curso está dando uma nova perspectiva sobre a atuação social. No loteamento, a mudança está chegando aos poucos. Segundo Alan, antes não havia nenhum ambiente de lazer e agora eles têm quadra esportiva e pracinha. Os serviços de drenagem e construção do meio-fio também começaram e a expectativa é pela conclusão do asfaltamento. 
Ele compreende que, com uma maior noção política, reproduzida entre os moradores, é possível se articular mais e trabalhar melhor o senso de coletividade. “Temos um problema sério com o acúmulo de lixo nas ruas e fortalecer a cidadania é uma forma de conscientizar sobre o cuidado com o bem coletivo, para cortarmos essa prática, e de cobrar uma coleta de lixo mais eficiente”, exemplifica.
Para o doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Pará, professor Edir Veiga Siqueira, investir em iniciativas de responsabilidade social é o caminho para uma sociedade mais engajada e com formação política mais consistente. “Estes dois elementos [responsabilidade social e consciência política] são essenciais para fortalecer a sociabilidade. A pessoa que é voluntária e realiza atividades altruísticas vai desenvolver algo fundamental para o indivíduo, que é construir uma visão mais global e humana”, analisa. Na visão dele, está se desenhando entre a juventude, ainda em um processo embrionário, um novo ativismo político. 
Este modelo representa uma consciência macro que trabalha com parcerias entre o estado, o setor privado e sociedade civil. “Não dá para ficar esperando pelo poder público. Essa articulação é de suma importância. De fato, acredito que deveriam existir campanhas para que todas as ações de responsabilidade social, seja qual for o eixo, incluíssem noções teóricas sobre cidadania, acesso ao poder, consciência ambiental e outros tópicos similares”, argumenta.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Tecnologia traz desenvolvimento social

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 06/11/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Investir nos produtores locais, pensar alternativas para tratamento de água e esgoto, utilizar os recursos naturais de forma mais consciente. Ações como estas transformam a realidade dos moradores. Mais do que levar as ferramentas e os equipamentos, é preciso levar informação e conhecimento. Essa combinação é a marca das chamadas Tecnologias Sociais (TS), que consistem em soluções relativamente simples, de baixo custo e fácil reaplicabilidade para melhorar demandas essenciais como água potável, alimentação, educação, habitação, saúde, meio ambiente, entre outras.
Quando se fala em tecnologia, muita gente costuma associar o termo aos laboratórios e grandes empresas, com equipamentos caros e computadores de última geração. No entanto, muitos pesquisadores, empresas e organizações da sociedade civil apostam na ciência, na inovação e na qualificação para alavancar o desenvolvimento social em comunidades que precisam de assistência. No município de Bragança, distante cerca de 210 km de Belém, as escamas e couro de peixes, que eram jogados no lixo pelas mãos de Liliane Quadros, 37, e outras artesãs locais, agora transformam-se em biojóia. 
Ela recebe apoio da Casa do Empreendedor, que já formalizou 409 microempreendedores individuais desde janeiro do ano passado e é uma das instituições parceiras da Rede Paraense de Tecnologias Sociais (RTS/PA). Ao desburocratizar o processo para pequenos investidores, que antes precisavam se deslocar para cidades vizinhas ou até mesmo para a capital, os benefícios começam a ser notados. “O primeiro resultado é o aumento na arrecadação do município, por causa dos impostos e taxas, algumas com tarifas especiais para os empreendedores legalizados. E o principal, que é o fomento da economia na região bragantina”, comenta a agente de desenvolvimento local Eliete Sampaio. 
Paneiros artesanais, cestos de guarumã (planta amazônica), panelas de barro e bolsas de fibra da bananeira são alguns exemplos de artesanatos produzidos em Bragança e comunidades próximas. A atividade tem muita força por lá, aquecendo não só a economia, mas também a cultura. Agora, os empreendedores se preparam para a tradicional Festa da Marujada, realizada em dezembro, que atrai muitos turistas e movimenta os negócios do município. “A nossa função, hoje, é chegar onde ninguém chegava. Bragança é rodeada por comunidades, então queremos ir lá naquele artesão que até sabe produzir, mas não sabe como entrar no mercado”, afirma. 
Os workshops e feiras promovidas pela Casa beneficiaram pessoas como Liliane, que envia encomendas de biojóias a Belém, Manaus, Rio de Janeiro e São Paulo. Ela aprendeu a técnica há três anos, por meio de uma oficina da Secretaria de Estado de Pesca. “Depois veio a Casa do Empreendedor, onde aprendi mais sobre produção e me capacitei, o que tem sido uma ótima ajuda para a minha renda”, conta. Ela prefere confeccionar peças únicas e trabalhar com matérias-primas como sementes, o que envolve outros fornecedores locais. “Incentivar os produtores de artesanato daqui é maravilhoso, porque são feitas peças de ótima qualidade. A atuação da Casa estimulou a união de mais de 50 grupos de artesãos, que estão mobilizados para fortalecer e divulgar a nossa arte”, acrescenta, reforçando que o trabalho de enfoque econômico ganhou dimensão social, de valorização da cultura. 

SANITÁRIOS 
Fortalecer o mercado é relevante, na visão de João Pinho, porque a baixa renda é um dos aspectos que influencia o morador a deixar sua comunidade. Outro motivo para essa saída é a má qualidade no abastecimento de água e saneamento precário. “Um dos papeis das tecnologias sociais é dar condições para que as pessoas, se assim desejarem, se mantenham na sua região com capacidade de produzir e ter qualidade de vida, sem ter que migrar e enfrentar dificuldades nos grandes centros”, argumenta. O projeto “Sanitários Ecológicos Secos”, da Caritas Arquidiocesana de Belém e com apoio do Banco da Amazônia, busca proporcionar essas condições aos habitantes da Região das Ilhas, em Belém. Em andamento desde 2006, a iniciativa atende 202 famílias nas Ilhas Jutuba, Urubuoca, Longa, Nova e Paquetá. 
Os moradores recebem um sistema de vasos sanitários artesanais, compostos por três peças básicas: cisterna, vaso e plataforma. Ele permite transformar os dejetos humanos em um forte adubo orgânico, misturando-os com serragem, folhas secas e cal. O material passa seis meses em um processo que não exala odor, não desperdiça água e não contamina a baía do Guajará. Até a urina tem sido reaproveitada, pois misturada com borra de café e exposta ao sol por 15 dias, já se provou um eficiente inseticida. “Temos famílias que estão comercializando esses produtos, algumas venderam a saca de adubo a R$ 400 e uma garrafa de 2 litros de inseticida a R$ 20. Além de preservar o meio ambiente, melhorar as condições sanitárias, ainda gera renda”, destaca o diácono Miguel Pinto, responsável pelo projeto. 
A previsão é que até o fim deste ano, mais 11 unidades de sanitários sejam instalados, alcançando 100% das famílias na Ilha Paquetá. Segundo o diácono, uma das dificuldades é conscientizar a população local sobre a importância de seguir as instruções corretamente, mas a participação dos moradores tem crescido muito. “Também estamos pensando em formas de melhorar a logística, uma vez que cada conjunto para instalação, feito de concreto, pesa cerca de 380 kg. Estamos procurando materiais mais leves. Também investimos em projetos de captação e desinfecção da água, fundamental para melhorar a vida dos ribeirinhos”, complementa. 
Moradora da Ilha de Urubuoca, a pescadora Jacqueline Costa, 50, diz que não tem a menor vontade de voltar a usar os banheiros a céu aberto. “Essa iniciativa foi ótima para a nossa família, melhorou muito a nossa condição sanitária. O adubo produzido rende bastante, ajuda muito e queremos até aumentar nossa plantação. O inseticida funciona muito bem com as formigas”, ressalta. O único problema é a falta de compromisso de muitas famílias, que continuam usando os antigos banheiros, despejando os dejetos na lama e no rio. “Se todos implantassem o sanitário ecológico, seria um lugar com mais higiene. As crianças adoeceriam menos, já que usamos a água do rio para tudo”, observa.

Energia interliga os eixos e garante o sucesso da cadeia produtiva

Projetos como esses estão sendo apresentados e discutidos no III Fórum Paraense de Tecnologias Sociais e na IV Mostra de Tecnologias Sociais, no Campus II da Universidade do Estado do Pará (CCBS/UEPA). Os eventos, que começaram ontem e continuam hoje durante todo o dia, são promovidos pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Técnica e Tecnológica (Sectet), com apoio da RTS/PA. A entrada é gratuita e aberta ao pú- blico em geral, com palestras, oficinas e exposições. O tema central do Fórum é “Energia e Desenvolvimento Social”, mas também foram realizados quatro workshops sobre “Energia”; “Água e Saneamento”; “Telecomunicações e Inclusão Digital”; e “Emprego e Renda”. 
Para o diretor de Ciência e Tecnologia da Sectet, João Tavares Pinho, todos os eixos estão interligados, mas pensar em alternativas para a energia é de suma importância para qualquer outra ação. “Sem a disponibilidade de energia não há possibilidade de comunica- ção a distância, de atendimento com água tratada de qualidade para uso humano, de aproveitamento em processos produtivos que geram emprego e renda para a população”, pontua. O envolvimento da comunidade é outro fator essencial para garantir o sucesso das tecnologias voltadas ao desenvolvimento social.
Segundo ele, na maioria das vezes, a ideia de mecanismos ou de ajustes em um projeto vem do usuário final, do morador da comunidade onde a TS está sendo implantada. “Interação é a palavra-chave e uma característica importante do Fórum. Se por um lado, a energia é o básico para você fazer qualquer trabalho, o principal objetivo é a geração de emprego e renda, pois assegurando a capacitação e a qualificação da comunidade, o impacto é sentido em toda a cadeia produtiva”, complementa. 
O foco do Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Alternativas Energéticas (Gedae), da Universidade Federal do Pará (UFPA), é justamente proporcionar energia aos lugares onde isso ainda é uma deficiência. Em exposição na IV Mostra, eles explicam os sistemas montados pelo grupo e implantados em vários pontos da Amazônia, envolvendo energia eólica, solar e biomassa. “Nossa região tem índices de radiação muito superiores aos lugares da Europa onde a energia solar é melhor utilizada. Temos muito potencial e, de fato, os painéis solares (ou fotovoltaicos) são muito viáveis e já são muito utilizados no Pará”, avalia o bolsista de doutorado Max Nascimento. 
Dentre os projetos voltados para energia, o Barco Solar e Oficina Solar são destaquea, desenvolvidos em parceria entre a Universidade Federal de Santa Catarina e o Gedae. A embarcação sustentável, batizada de “Aurora Amazônica”, foi lançada no mês passado e é composta por dois conversores de corrente contínua para corrente alternada, dois motores elétricos WEG responsáveis pelo sistema de propulsão com sistema de refrigeração à água, banco de baterias com autonomia para cinco horas de navegação e capacidade total de 22 pessoas. No momento de atracação do barco, ele pode ser carregado conectando-se ao terminal elétrico da oficina solar, tendo um banco extra de armazenamento de energia, o que permite que ele possa ser recarregado mesmo nos períodos de vários dias de chuva, comuns na Região Amazônica. 
Expandir esses mecanismos é o desafio. Em várias comunidades, não é novidade usar energia solar para bombear água e para alimentar sistemas autônomos, que por sua vez, podem proporcionar iluminação e o uso de rádios e televisões a locais onde a rede elétrica não chegou. Max citou os municípios de Maracanã, Marapanim e Ponta de Pedras, além do distrito de Mosqueiro, como exemplo de pontos de implantação dessas tecnologias sociais. “Temos projetos de balsas itinerantes com sistemas híbridos de captação de energia, que circulariam pelo Arquipélago do Marajó. Ainda que seja possível comprar kits prontos para captação de energia solar e montagem de sistemas autônomos, é preciso aumentar o investimento nessa área para diminuir os custos e aumentar o alcance”, conclui.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Banco comunitário estimula economia

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 22/10/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Com as compras no caixa, o cliente pergunta: “aceita moqueio?”. O questionamento parece estranho, mas é bastante natural na Baía do Sol, comunidade localizada na Ilha de Mosqueiro, em Belém. O termo é usado para descrever uma técnica indígena de conservação do pescado, mas por lá, o moqueio (M$) é uma moeda social que circula nos estabelecimentos e no Banco Comunitário Tupinambá, que completou seis anos de atuação no local e está transformando a realidade econômica de cerca de oito mil moradores. Com valor equivalente ao do real, o dinheiro complementar é utilizado no pagamento de mercadorias, serviços e contas, cumprindo o importante papel de fortalecer a economia local. Antes da iniciativa, apenas 2% dos moradores compravam internamente. Agora, esse número saltou para 84%. 
Os significativos resultados já renderam várias premiações e a mais recente foi ser um dos 20 projetos selecionados em todo o país no prêmio de “Melhores Práticas Sociais”, da Caixa Econômica Federal. Enquanto a equipe de reportagem conversava com os coordenadores do Instituto Tupinambá, Marivaldo do Vale e Ivoneide Vale, vários eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos chegaram para entrega à sede da ONG, como parte do Prêmio Consulado da Mulher de Empreendedorismo Feminino. Eles venceram a disputa com o projeto Ceci, outro braço do instituto, cujo foco é o empoderamento das mulheres, mas que está diretamente ligado ao banco comunitário. 
Para compreender melhor como essa cadeia funciona, Marivaldo explica que o objetivo da moeda social é fazer com que o capital circule no próprio bairro. Estimulando moradores e empreendedores a comprarem de fornecedores locais, é possível aumentar o poder de comercialização, gerando trabalho e renda e, assim, contribuir para o desenvolvimento da comunidade. “Pesquisas que realizamos ao longo dos anos nos mostraram que era de R$ 30 o gasto por pessoa para se deslocar até a Vila de Mosqueiro para realizar as transações bancárias. O banco proporciona uma economia de pelo menos R$ 90 mil por mês, só pelo simples fato dos habitantes não terem que sair da Baía”, afirma. 
Durante a entrevista, a movimentação de clientes era intensa no Banco Tupinambá, pois era dia de pagamento do programa Bolsa Família. Eles firmaram convênio com a Caixa Econômica há três anos e realizam todos os serviços de uma agência comum, o que atualmente significa uma média de três mil atendimentos mensais. Os usuários podem, inclusive, fazer empréstimos com o moqueio. “Antes do Banco Comunitário, as famílias iam receber a Bolsa ou fazer qualquer outro tipo de transação fora da Baía do Sol. Por causa da distância, muitos também almoçavam e faziam as compras na Vila. Pouco desse recurso chegava aqui. Agora, quase 100% da demanda financeira fica na comunidade, dando mais chance de crescimento aos comerciantes daqui”, reforça. 
Dois tipos de empréstimo são praticados pelo Banco: o produtivo, que é negociado em reais e voltado aos empreendedores, e o de consumo, realizado em moqueios para os moradores. Segundo Marivaldo, a moeda social possui um lastro (fundo sem o qual ela não poderia circular na comunidade) de R$ 8 mil, o que possibilita atender com empréstimos em torno de 300 famílias. As mães do Bolsa Família tem um crédito especial de M$ 30 por mês, pagando uma taxa de R$ 0,10 a cada M$ 10. “Muitas delas têm apenas o programa como fonte de renda e a ideia é que não falte o pão na mesa. Elas também recebem aulas de educação financeira, assim como todos os clientes que fazem empréstimo conosco”, informa. 
Os empréstimos de consumo variam entre M$ 30 e M$ 150. Em seis anos, mais de 3.400 empréstimos já foram realizados, movimentando um valor de M$ 144 mil. Apenas três casos de inadimplência foram registrados em todo esse período e Marivaldo acredita que o envolvimento da comunidade no funcionamento do banco contribui para o fortalecimento. “A gente busca fazer eles entenderem que o Banco Tupinambá não é nosso, é de cada um que já se beneficiou com a circulação do moqueio. A comunidade tem crescido muito nos últimos anos, tanto que não está sendo atingida pela crise da mesma forma que o resto da capital”, observa. 
De fato, vários comerciantes e mães de família da região afirmaram ainda não terem sentido os impactos por causa do momento difícil da economia brasileira. Alguns até conseguiram expandir o comércio. “Talvez a crise se reflita mais no recurso que não está vindo, uma vez que a Baía do Sol sempre foi uma comunidade muito desassistida. No entanto, a gente observa que tem várias construções, que o que está aqui consegue alavancar”, avalia Ivoneide. Ela pontua que o crescimento é fruto de um processo de conscientização social dos habitantes. Quando o Instituto começou, ela lembra que não existiam açougues apropriados e só havia uma panificadora, além da maioria dos comerciantes serem informais. 
“Muita gente também não comprava aqui porque os vendedores não aceitavam cartão de crédito. Os produtos eram caros e não tinha muita opção, porque a competitividade era muito baixa. Com base em estudos, pautamos melhorias e fomos vencendo deficiências. A comunidade entendeu e começou a se formalizar”, recorda. De acordo com ela, apostar em quem estava com crédito negativado, concedendo empréstimo social e dando orientações financeiras, também se mostrou uma boa escolha. “Não somos uma casa lotérica, em que as pessoas pagam e não existe relacionamento algum. Somos um banco comunitário, somos moradores locais. A gente acaba sendo assistente social e psicólogo, às vezes, e isso é muito importante”, destaca.
Projeto promove capacitação técnica e produtivas às mulheres
Foi a partir dessa inquietação que surgiu, há três anos, o projeto Ceci Mulheres. Quase 30 mulheres que recebem o Bolsa Família têm crédito no Banco Comunitário e desejam empreender participam da iniciativa. Ivoneide diz que a demanda surgiu logo após o convênio com a Caixa. “Percebemos a vulnerabilidade de muitas mulheres que recebiam o Bolsa conosco, mas estavam em situações de violência doméstica, drogadição e alcoolismo”, detalha. A ideia do Ceci é beneficiar essas mães através de capacitação técnica e produtiva em diversas áreas, inclusão financeira e acompanhamento social. Para ela, ainda que a quantidade de pessoas atendidas pelo projeto pareça pequena, o impacto vai ser grande. O prêmio do Consulado da Mulher garantirá a elas dois anos de acompanhamento técnico.
“Elas nunca mais serão as mesmas. E é por elas que passa a educação da futura geração. Se essas mães não estiverem bem, não criarão bem os seus filhos. A gente quer disseminar na comunidade a ideia do protagonismo. De fazer algo pelo ambiente em que está inserido, sem esperar pelo poder público para mudar a realidade”, declara. No mês que vem, representantes do projeto Ceci viajarão pelo Nordeste para criar a Associação das Mulheres Emancipadas do Programa Bolsa Família entre o Norte e o Nordeste. O objetivo é reunir mulheres, que conseguiram se estabilizar e se tornaram mais independentes, a abrir polos de atendimento e alcançar mais pessoas.
E-DINHEIRO
Outra ação na qual o Instituto Tupinambá está trabalhando é a implantação do e-dinheiro, a moeda social eletrônica que será utilizada por todas as 110 instituições da Rede Brasileira de Bancos Comunitários. A previsão é que ela esteja rodando em todo o país em março do ano que vem. Marivaldo explica que o maior ganho é a mobilidade e que cada banco movimentará a sua moeda própria dentro do fundo que dispõe. “O aplicativo vai permitir que eu movimente o moqueio, por exemplo, para pagar um boleto ou até trocá-lo por reais”, adianta. A ideia já foi apresentada para os clientes do banco e a dona Raimunda da Silva, 51, já está cadastrada.
Ela é proprietária de um mercadinho e se rendeu ao uso do moqueio há quatro anos, depois da insistência dos clientes. “Eles sempre perguntavam se aceitava pagamento em moqueio, até que resolvi aderir e não tive nenhum prejuízo, pelo contrário. Aumentou a fidelidade dos clientes”, conta. Na fila do caixa, ela estava com vários boletos e muitos moqueios em mãos. Raimunda utiliza a moeda social no pagamento de boletos e para facilitar o troco aos clientes. Com as informações sobre empreendedorismo, ela tem gerenciado melhor os negócios e conseguiu aumentar o espaço do comércio, além de ter comprado um freezer novo. Valdenira Villaça, 27, é vendedora em um armarinho e garante que o moqueio circula como uma moeda normal na Baía do Sol.
“É uma moeda totalmente comum na nossa rotina. Usamos pra comprar desde crédito pra celular até açaí com farinha, remédios e tudo mais. Alguns estabelecimentos até dão 5% de desconto para quem pagar em moqueio. Tudo isso faz o dinheiro circular aqui”, comenta. Ela, que tem duas filhas e recebe o Bolsa Família, também faz parte do projeto Ceci, não tem dúvidas do retorno positivo que tem com os projetos. “Faço os empréstimos mensais de M$ 30, é um valor que me ajuda bastante. E com os treinamentos de educação financeira, mudou a minha visão sobre o assunto. Antes, achava que só saindo daqui poderia ter uma renda, mas hoje entendo que posso investir aqui mesmo”, diz.
A universitária Valéria Barbosa, 31, acredita que o projeto merece mais visibilidade, pois tem ajudado muitos moradores da área. “A aceitação da moeda é muito boa, as pessoas se sentem seguras utilizando o moqueio e o comércio local tem se desenvolvido bastante com esse fortalecimento, o que resulta numa melhor qualidade de vida para todos”, pondera.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Aventuras, mistérios e risadas com a turma do Bolachão


     Volto a falar da entrevista mais prolongada que já fiz. Dura quase 10 anos a minha troca de mensagens com o escritor João Carlos Marinho e este foi o tema da minha postagem anterior (para ler a primeira parte, clique aqui). Foi maravilhoso ver o carinho com que meu texto foi recebido pelo autor e por seus leitores. Nas próximas linhas, divido algumas falas pessoais do criador da Turma do Gordo sobre prêmios literários, "arrependimentos", linguagem e estilo. É fácil perceber a ligação afetiva que ele estabelece com o público que aprecia sua obra, não importa a idade.

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       Depois que eu recebi a resposta dele sobre as mudanças da mãe do Gordo, fiquei curiosa sobre o processo de edição dos livros, queria saber exatamente como funcionava. E ele, solícito como sempre, esclareceu a minha dúvida.
JCM: Fico feliz que você gostou da mudança que eu fiz na mãe do Gordo. Ela era uma mulher desagradável e grosseira, não combinava com a família. Agora ela ficou ótima, inclusive muito valente, participa das aventuras, gosta da Berenice. A possibilidade de fazer alterações nos livros veio porque a editora resolveu dar uma nova forma aos meus livros, ficaram maiores, mais bonitos, e para isto foi preciso fazer uma nova editoração eletrônica, quer dizer, fazer novas provas dos livros, e então aproveitei para mudar a mãe do gordo no novo Livro da Berenice. Antes eu não podia mexer, como daqui para frente não posso mais, porque o livro é filmado e basta a edição ir se esgotando que eles imprimem automaticamente. 
       Ainda no mesmo assunto, o questionei sobre as motivações para fazer tais alterações tanto tempo após a publicação de uma obra que teve boa aceitação. Ele tinha algum arrependimento em relação aos livros escritos? João Carlos é sincero na resposta e diz:
JCM: Não é bem me arrependo, não, mas eu constato que nos livros "O Livro da Berenice", "Maníaco Janeloso" e "Cascata de Cuspe", eu tenha levado o livro tão bem até os três quartos e que poderia ter esperado mais tempo para terminar melhor. Eu gosto muito destes livros, mas hoje eu teria ficado com os originais mais tempo para fazer um fim à altura do resto. Mas não vou mexer, vai ficar assim mesmo. Ruim não está, mas poderia ter sido melhor.
    Algum tempo depois, retomamos a conversa e eu o comuniquei da minha decisão de cursar Jornalismo. Ele me desejou felicidades na carreira e comentou que eu tinha "uma excelente redação e um estilo muito vivo, com certeza é a sua vocação e, principalmente, curiosidade, essencial para a profissão, como esta que você teve de escrever ao autor do livro que você gostou". Em seguida, compartilhou um breve relato de sua passagem pela capital paraense, na década de 70. 
JCM: Como eu já lhe disse eu estive em Belém, foi em janeiro de 1973. Eu vinha de Manaus com minha mulher, o Sr. Francesco, um italiano, pai de um falecido amigo meu de quando eu morei na Europa e que sempre me recebia nas férias, a minha cunhada e o meu concunhado Ozório. Nosso destino era uma fazenda de gado que ele tinha perto de Belém (não muito perto por causa da estrada horrível). Estávamos no hotel e aí recebi um telefonema de São Paulo dizendo que a minha querida avó, a quem dedico o Gênio do Crime, estava morrendo. Então deixei meus amigos e minha mulher continuarem e viagem para a fazenda e na manhã seguinte, bem cedinho, peguei um avião da Varig. O avião fazia escala no Rio antes de vir para São Paulo. Quando o avião levantou vôo, a aeromoça chegou para mim e disse que eu tinha jeito de estar acostumado a voar mas havia um senhor no avião que nunca saíra de Belém na vida e que nunca andara de avião na vida, e que ia ao Rio de Janeiro para o casamento da filha. Então eu fui sentar ao lado dele, puxei conversa , e era um senhor muito simpático. Eu tinha 37 anos na época e minha filha Cecília tinha cinco, aquilo de casar uma filha me parecia uma coisa muito longe, quase impossível, uma coisa dum outro planeta, e aqui estou eu hoje, com a minha filha que tinha cinco anos casada e já com uma filha, a minha neta Gabriela. Isso me ficou na cabeça, aquele senhor que nunca saiu de Belém e nunca andou de avião. Não se preocupe com o "Assassinato", você vai fazer vestibular, está na hora de ler Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos e outros clássicos que caem no vestibular. Quando você casar, que nem a filha daquele senhor, e tiver um filho, aí você compra para ele.
     O trecho acima é um exemplo de uma característica que muito me agrada nesse contato com o João Carlos Marinho. Mesmo por e-mail, que costuma ser um canal mais impessoal, ele consegue imprimir leveza e espontaneidade à conversa, que tem repetições e digressões, naturais no nosso cotidiano. Interessada em manter o diálogo e ainda curiosa, perguntei sobre os prêmios conquistados com os livros. Qual ele achava que era o impacto das premiações na repercussão e venda das obras?
JCM: A minha grande satisfação com os livros que escrevi não são os prêmios. Os prêmios literários no Brasil não tem grande repercussão, acho que é na música, estes concursos internacionais de pianistas e outros instrumentos, que os prêmios ajudam muito na carreira. Talvez no cinema com os Oscar e os prêmios do Festival de Cannes. Veja que nunca na minha vida eu comprei um livro porque ele tinha ganho um Prêmio Nobel de Literatura. Nem sei quem ganhou o último. As pessoas que eu conheço também não compram livros por causa de prêmios. Talvez o Goncourt na França, pela tradição, por ser a França. O que eu gosto mesmo é de continuar sendo lido por todo o Brasil, tem você, uma leitora tão longe como Belém, ontem recebi quatro e-mails de Goiânia, é isso que eu gosto. E depois acabei fazendo o que eu queria, cumpri a minha vocação, o meu sonho de criança.
     A partir daí, diminuímos o ritmo da troca de mensagens, mas o escritor é muito atencioso e sempre me enviava convites para a participação dele na Bienal do Livro, em São Paulo.
JCM: Eu sei direitinho o que você vai dizer: não posso ir, moro em Belém, avião é caro, pior, é perigosíssimo, tem lugar que nenhum radar sabe nada, eu fico aqui. Tá bom, falou, mas não podia esquecer de você, principalmente pelo entusiasmo com os meus livros e também por aquela engraçadíssima história da devolução do Caneco que meus filhos adoram, eles morrem de rir quando eu conto. E é profundo, o que você fez está inteiramente no espírito do Caneco de Prata (...)
    Nesse meio tempo, continuamos nos falando e ele sempre me avisava quando entrava um vídeo novo sobre a Turma do Gordo no site da editora ou compartilhava algum fato interessante, como a festa de 40 anos de lançamento de "O Gênio do Crime" ou outros leitores desavisados que estranharam o "Caneco de Prata".
JCM: De Copa do Mundo em Copa do Mundo, de Bienal em Bienal, a gente vai empurrando a vida. Acho que essa é a terceira vez que eu te mando convite e vou continuar mandando até o fim das Bienais e a última Copa do Mundo. Como vai o seu curso de jornalismo? E o seu blog? Pela foto que eu vi no blog você já está praticamente uma mulher, mas é isso mesmo, de Bienal em Bienal a gente vira homem, vira mulher, fica moço, fica velho, e toca o bumbo! Um abraço.
    Pouco depois, fiz umas fotos minhas e do meu irmão (que também leu os livros por minha influência), cada um mostrando os seus títulos preferidos. O Gênio do Crime, Sangue Fresco e Conde Futreson foram as nossas escolhas. Entre outros emails, um dos mais interessantes que recebi dele foi o que compartilhou a entrevista concedida para uma pesquisa de mestrado. Na mensagem, ele diz: 
JCM: Querida Brenda, você sempre se interessou pelos videos e notícias da minha literatura. E você sabe que considero você uma leitora histórica e muito ligada aos meus livros. Saem às vezes umas coisinhas que não vale a pena perder tempo mas esta entrevista de uma professora para o mestrado dela, não por ser entrevista, há muitas, mas nessa aqui eu consegui, talvez pelos meus 77 anos, ter uma visão bastante clara do que eu fiz e me senti bem com as respostas que dei. Mando em anexo. Isso está, junto com outras coisas, na seção Noticias do meu site, mas mando para você para tê-la no seu computador. Fiquei muito feliz de você ter gostado do Gordo contra os Pedófilos e do meu rap. O meu rap saiu legal! Acertei a mão.
     Uma das perguntas da entrevista é sobre a relação do autor com linguagem e estilo, ao que ele responde que escreve o "delicioso português brasileiro que se falava em casa"."É um ritmo delicioso que se aprende no berço e que forma uma estrutura dentro da gente: é a própria estrutura da gente. Você vê que o Gênio do Crime está lá há 43 anos, nada foi mudado, e as crianças de todo o Brasil entendem imediatamente a minha linguagem", defende. Em meu comentário, destaquei que considero o diálogo construído tão próximo da realidade uma das grandes sacadas da obra dele. Nas páginas de seus livros, lemos as repetições, a prolixidade e os desvios de raciocínio que praticamos diariamente, o que gera uma identificação imediata. A entrevista completa está disponível no site da editora Global (www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho/perguntas.html) e aborda a violência ingênua e hilária de seus enredos, entre outros temas. Também recomendo a leitura do processo de produção do livro Sangue Fresco (www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho/passoapasso.html).

Para finalizar, destaco mais um momento especial: A surpresa maravilhosa que tive quando visitei a Ilha do Marajó, aqui no Pará, a trabalho para conhecer um projeto que implanta bibliotecas comunitárias no interior da Amazônia e me deparei com o Gênio do Crime amarrado a uma frondosa amendoeira. As crianças atendidas pela ONG nos receberam debaixo da sombra de várias árvores, com muitos livros pendurados pelos galhos, que balançavam pelo vento incessante da praia. Confesso que me emocionei quando dei de cara com a Turma do Gordo lá na vila do Caju-Una, perto de Soure, onde a gente chega de canoa ou de carro por dentro de uma fazenda. Percebi a força e o alcance que a literatura pode ter, capaz de encantar tanta gente. Sobre o projeto, a matéria está aqui no blog: http://brendapantoja.blogspot.com.br/2015/11/vaga-lume-encanta-de-livros-o-marajo.html. 
    Agradeço ao João Carlos Marinho pela autorização em publicar as mensagens e pelo carinho com os leitores. A Turma do Gordo sempre terá lugar especial na minha estante.

sexta-feira, 11 de março de 2016

O reverso do revirado*



Uma edição antiga e gasta, sem a capa e com um cheiro forte de cigarro. Foi assim que "O Gênio do Crime" chegou às minhas mãos pela primeira vez, aos 10 anos de idade. Veio emprestado de uma amiga da minha mãe, que fez questão de receber o livro de volta. Hoje eu entendo o apego dela à obra, porque eu mesma não sosseguei até comprar o meu próprio volume e depois a coleção inteira do escritor João Carlos Marinho. Até os empresto, mas só fico tranquila quando eles retornam para mim.
      "O Gênio do Crime" é a primeira aventura da Turma do Gordo e, ao todo, já foram publicados 13 livros com os mistérios e as façanhas do Bolachão (também conhecido como Gordo), a Berenice, o Edmundo, o Pituca, o Godofredo, a Sílvia, o mordomo Abreu, o frade João e muitos outros personagens. Os títulos da Turma do Gordo me acompanharam também na adolescência, passaram pelas mãos do meu irmão mais novo e de alguns amigos que pegaram o gosto pela leitura por causa da coleção. Foi lançado em 1969 e tornou-se um clássico da literatura infantojuvenil, tendo ultrapassado a marca de 70 edições. Na sequência, "Sangue Fresco" (um dos meus preferidos!) recebeu o Prêmio Jabuti, o Grande Prêmio de Literatura Juvenil da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e foi considerado Altamente Recomendável para o Jovem pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). 
      Sendo assim, quase 10 anos atrás, movida pela curiosidade, enviei um e-mail ao autor pelo site da editora e iniciamos uma correspondência periódica que se mantém até hoje. Ainda estava na escola, mas o instinto do jornalismo era mais forte e fiz uma espécie de entrevista com o "caro João Carlos" (era como começavam a maioria das minhas mensagens) ao longo de vários e-mails. Perguntei sobre o processo de escrita, de edição, linguagem, construção de personagens e a carreira de escritor. Infelizmente, pela falha de confiar cegamente na tecnologia, perdi as perguntas que elaborei, mas consegui resgatar as respostas enviadas por ele, que autorizou a reprodução delas aqui no blog. Eu acredito que a nossa conversa se iniciou em 2006 ou 2007, não tenho certeza. 
     Logo na primeira mensagem, contei a ele uma história inusitada que passei com um de seus livros. "O Caneco de Prata" é apresentado pelo próprio João Carlos Marinho como uma "aventura surrealista". Com essa proposta, a paginação e a numeração dos capítulos são diferentes do usual. Aquilo me intrigou muito, tanto que cismei que precisava voltar à livraria para trocar a edição. Só acreditei que estava tudo certo depois que liguei para o vendedor, que era meu conhecido, e pedi para ele comparar com outros exemplares. A resposta do escritor não demorou a vir: 
JCM: Você é uma leitora entusiasmada, pelo jeito de escrever eu sinto. Muito engraçado o que aconteceu entre você e o Caneco. O Caneco é assim mesmo, hiperloucura. Desconcentra, baratina (...) Eu conheço Belém, é uma cidade muito linda, cheia de mangueiras na praça.
    Achei aquilo o máximo! Fiquei empolgada por poder conversar com alguém tão admirado. Tirei uma dúvida com ele sobre a idade do Gordo, que continua com 10 anos mesmo tendo ido e voltado ao espaço nos livros O Disco I e II, pois o autor resolveu aplicar a equação de Einstein sobre a relatividade do tempo e mantendo, assim, essa fase gostosa da infância da turma. Aí eu questionei sobre os vilões, queria saber qual era o preferido dele.
JCM: Que bom que você gosta do Zé-folha. Ele é um rei de alta categoria apesar de ter dado uma dentada na orelha da Berenice. Os grandes vilões, aqueles absolutamente perversos e monstruosos, são, se a memória não me falha: o anão do Gênio do Crime, Ship O'Connors, Papoulos Scripopulos, o Conde Futreson, o doutor Sovograu (do Disco II- A Catástrofe do Planeta Ebulidor) e o Chefe (do Gordo contra os Pedófilos).Tem ainda o "alemão nazista" do Caneco de Prata. Eu gosto muito, e até me identifico, pois fui absolutamente fanático por futebol, com o Prof. Giovanni, ele é um vilão, mas não está entre aqueles "repulsivos". Pelo contrário, ele é humano e engraçado e até não deixou o alemão nazista colocar vírus do câncer na bomba bacteriológica. Dos repulsivos fica difícil escolher. O Conde Futreson é ótimo, mas em parte eu tomei emprestado do Drácula que já existia, talvez o Ship seja o mais humano, mas acho que a frieza absoluta e a grande classe para ser mau do anão acaba ganhando. Sua pergunta é difícil.
     Os meus vilões prediletos eram o professor Giovanni, o Ship O'Connors (particularmente prefiro o apelido Shipo Croma) e o Kuntz, que aparece em "O Livro da Berenice". João Carlos aprovou minhas escolhas, mas fez uma ressalva:
JCM: O Kuntz é bom também, fez uma confusão, o gordo tirou a orelha dele pensando que era do Abreu, mas o Kuntz pode ser classificado na categoria dos "vilões secundários, empregados do vilão principal", como são o Atlas, o Almeidinha, aqueles médicos alemães que tiram sangue do gordo no acampamento da Amazônia, etc. Eu tenho um certo jeito para fazer "homens maus", sem eles os meus livros seriam menos emocionantes e menos engraçados. Quem tem aparecido muito nas últimas histórias, como gente boa, é a mãe do gordo , a dona Belinha e o doutor Paixão. A mãe do gordo, depois de "Catástrofe", está tendo uma participação especial,o pai também. A velha dona Belinha está cada vez mais irresistível. 
     Aproveitei a deixa dele e perguntei sobre a mudança gradativa na participação e na personalidade da mãe do Gordo. Foi quando ele revelou uma das poucas - se não a única - modificações estruturais que fez nas histórias. Também devo ter comentado algo sobre o namoro do Bolacha com a Berê, pois ele responde que "romance na idade de dez anos tem que ser superficial, inclusive a Berenice só continua a ser inconstante até o Berenice Detetive, onde ela namora o Anderson, agora quietou".
JCM: A mãe do gordo implicou com a Berenice até o Livro da Berenice, que está saindo na edição nova e eu tirei as implicâncias. É porque a mãe do gordo estava "fora" da turma. Como ela foi entrando na turma e participando nas aventuras com heroísmo até, decisivamente até, não tinha cabimento continuar contra a Berenice. Isso é um capitulo apagado, de verdade, porque eu apaguei. Quem continua implicando com todo mundo é o Abreu, mas isso é personalidade dele, que é boa pessoa, as crianças gostam dele.
     O restante das informações vai ficar para uma "parte dois" porque esse post já está muito grande. Decidi compartilhar as mensagens que trocamos pelo carinho que tenho por toda a obra do João Carlos Marinho. Eu já gostava de ler quando conheci o trabalho dele, mas a coleção foi como um sopro de vivacidade para aquela jovem leitora. Não costumava rir sonoramente durante minhas leituras, mas com a Turma do Gordo eu gargalhava e me divirto até hoje quando revisito as páginas.

     No próximo texto, as respostas do escritor sobre arrependimentos, suas memórias de Belém do Pará, os prêmios, os diálogos maravilhosos da Turma do Gordo e os convites afetuosos para a Bienal do Livro, em São Paulo. 

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Mais informações sobre a obra e a vida de João Carlos Marinho estão disponíveis no site www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho. A página traz, ainda, vídeos muito interessantes em que ele explica o trabalho de pesquisa, a história por trás da produção, além de registros de eventos com os leitores. 

*Fazer "o reverso do revirado" depois de "seguir ao avesso" o cambista é a ideia brilhante do Gordo para investigar o mistério da falsificação das figurinhas em "O Gênio do Crime"