quinta-feira, 13 de abril de 2017

Chefs levam receitas às comunidades

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 26/05/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação

A cozinha é um lugar inspirador que estimula a criatividade e a agilidade dos amantes da culinária, seja em um restaurante renomado ou em um ambiente doméstico. Representantes da gastronomia profissional se encontram, hoje e amanhã, com moradores de comunidades atendidas pelo projeto Pro Paz nos Bairros para trocar experiências no evento “Chefs na Comunidade”. A atividade faz parte do 14º Festival Ver-O- Peso da Cozinha Paraense e vai contar com quatro chefs convidados que darão aulas para pessoas interessadas no tema. A proposta é ensinar a um público de baixa renda algumas técnicas de melhor aproveitamento de alimentos, novas receitas e até dicas de empreendedorismo.
Testar diferentes combinações de ingredientes e temperos ou preparar um prato especial com carinho para a família é muito gratificante para a dona de casa Maria Auxiliadora Barros Maciel, de 41 anos. Moradora do bairro do Guamá, ela vai participar das aulas e já está ansiosa para colocar em prática tudo o que aprender. “A culinária faz parte do meu trabalho porque trabalhei em casa de família por muitos anos. Agora estou afastada há uns dois meses para cuidar da saúde, mas ficar parada me deixa meio triste e preocupada. Participar desse evento vai ser ótimo para desenvolver minhas habilidades”, comenta.
A programação será realizada no polo do Pro Paz no Mangueirão e ela soube da oportunidade através do filho, que participa das atividades do projeto no bairro onde moram. “Meu filho me inscreveu porque achou que seria interessante para mim. Sempre gostei de cozinhar, sei fazer refeições, doces e salgados. É muito bom aprender mais, hoje em dia quem tem experiência além do básico na cozinha pode encontrar muitas portas abertas”, acrescenta. Maria demonstra a aptidão pela área na montagem dos pratos e na higiene no manuseio dos alimentos. “Me ensinaram que as pessoas comem primeiro com os olhos. Para quem trabalha como empregada doméstica, é preciso ser criativa e rápida para não perder muito tempo só cozinhando”, diz. Ela também pensa em aproveitar o contato com os chefs para tirar várias dúvidas e planeja usar os dotes culinários para garantir uma renda extra. “Em breve, quero investir na venda de alimentos. Estamos querendo comprar um carro, onde vou vender lanches e café da manhã. Para isso, pretendo tirar a carteirinha de manipulação e fazer tudo certo”, afirma.
A chance de participar das oficinas a deixou com vontade de pesquisar mais sobre o assunto, o que vai ser útil inclusive na hora de seguir uma dieta mais equilibrada, pois ela foi diagnosticada com diabetes recentemente. No bairro do Tenoné, a dona de casa Shirley de Oliveira, 29, também tem boas expectativas para o “Chefs na Comunidade”. Com os ensinamentos que recebeu da avó, da mãe e das tias, ela pegou gosto pelo ato de cozinhar e faz diariamente, com amor, a comida que vai para a mesa da família. 
Além de ter trabalhado por algum tempo como empregada doméstica, Shirley cultiva a ideia de reunir outras mulheres do bairro para montar uma cooperativa de cozinheiras ou trabalharem juntas na venda de refeições. “Vejo essa possibilidade porque sabendo cozinhar direitinho, dá para vender bem. Ainda não é um projeto formado, mas acho que é uma boa ideia e quem sabe depois dessas aulas outras mulheres não se animam?”, completa. A conversa com os profissionais vai ajudá-la a repensar hábitos e encontrar alternativas de consumo. “Eu tinha o costume de fazer sobremesa para comer depois do almoço, mas tivemos que diminuir isso porque está tudo muito caro. Antes eu comprava os ingredientes para fazer doce e estocava, hoje em dia só compro em ocasiões especiais”, conta.

SEM DESPERDÍCIO
O visionário chef Edinho Amado, mineiro radicado na Bahia, participará do evento com uma aula intitulada “Não desperdice nada” e é convidado do festival pela primeira vez. “Estou curioso para conhecer Belém e discutir gastronomia não só com pessoas que estudam o assunto, mas com a comunidade no geral. Vou ensinar algumas receitas, sempre buscando usar produtos que não são utilizados comumente e aproveitar integralmente os ingredientes”, explica. Cascas em geral, caroço de jaca e coração de bananeira são alguns dos itens que o chef usará como exemplo.
Para ele, é desnecessário se prender a poucos ingredientes e se dar ao luxo de desperdiçar sobras que podem compor pratos saudáveis e gostosos. “Precisamos pensar de forma mais atual. Vários chefs já falam em aproveitar os animais de cabo a rabo e podemos fazer o mesmo com hortaliças e frutas”, defende. 
O reconhecido chef Carlos Kristensen, do Rio Grande do Sul, é um dos maiores defensores e divulgadores dos ingredientes gaúchos no Brasil. Durante a atividade, ele vai conversar com os participantes sobre a valorização da cultura tradicional. “Vou falar sobre o projeto Internacionalmente Local,  que realizamos há cinco anos no Sul. A ideia é trabalhar com os pequenos produtores, fortalecendo o modo tradicional de fazer, o saber popular, para que as próximas gerações não percam esse conhecimento e essa técnica. Ao fazer esse resgate, queremos ter ingredientes melhores para quem produz, quem cozinha e quem come”, explica. Ainda segundo ele o debate engloba preços justos e agregação de valor aos produtos, uma discussão com a qual a população da região amazônica também pode se identificar. 
Kristensen ressalta que é importante conscientizar sobre a preservação de aspectos históricos, sociais e culturais da gastronomia. “Falar sobre isso com a comunidade é muito legal porque na correria do dia a dia, é fácil esquecer desses aspectos. Trouxe produtos para os participantes degustarem, vou falar de técnicas de preparo tipicamente gaúchas, vai ser uma troca muito boa”, conclui. O evento terá a presença do chef Rivandro França, que era técnico de enfermagem antes de investir na gastronomia. Ele começou vendendo bombons recheados com sabores do Nordeste e hoje comanda um dos restaurantes mais disputados de Recife. 
O chef Agenor Maia, do Distrito Federal, que tem vasta experiência com a cozinha contemporânea sem deixar de lado as bases culinárias adquiridas com a avó, também ministrará uma aula.

Festival abre espaço para a valorização dos empreendedores locais

Joanna Martins é a diretora executiva do Instituto Paulo Martins, realizador do Festival. Ela destaca que o “Chefs na Comunidade” integra há pelo menos quatro edições a programação intensa. De acordo com ela, o objetivo é que sejam aulas com ideias de receitas inovadoras e de baixo custo. “Nossa intenção é que os participantes utilizem o conhecimento adquirido para geração de renda mesmo. Queremos ensinar e inspirar. A gastronomia, acima de tudo, é comida feita com cuidado e não depende de ingredientes requintados, isso é nítido nas nossas visitas às comunidades”, ressalta.
As aulas quebram um pouco da “glamourização” da cozinha e mostram que é uma boa oportunidade de trabalho, ainda mais com o mercado local precisando de profissionais qualificados. Esse é o primeiro ano em parceria com a Fundação Pro Paz, mas a atuação com o público de baixa renda faz parte da missão do Instituto, que promoveu um curso de capacitação no ano passado e pretende abrir nova turma ainda esse ano. Ao todo, 200 pessoas vão integrar as turmas no polo do Mangueirão e o Pro Paz convidou os chefs paraenses Artur Bestene e Jeferson Medeiros para complementar o dia de aprendizado com um bate-papo sobre empreendedorismo, compartilhando cases de sucesso.
O presidente da Fundação, Jorge Bittencourt, acredita que o evento pode incentivar a economia local e o crescimento de pequenos empreendedores. “Muitas pessoas têm talento, às vezes vendem comidas em casa ou pequenos estabelecimentos, mas não tem os conhecimentos básicos de como fazer o negócio prosperar. Estamos trazendo pessoas que assim como elas, começaram de algum lugar e hoje conseguiram crescer e se tornar grandes chefs”, reforça. As aulas serão ministradas exclusivamente aos participantes inscritos previamente por meio do Pro Paz.
No entanto, o festival terá outras programações com viés social abertas ao público. Dois jantares magnos serão realizados nesta semana, mas já estão com ingressos esgotados. Chefs regionais e nacionais criaram pratos especialmente para os jantares e parte da renda arrecadada com a venda de ingressos será revertida para o Instituto Criança Vida. Um dos destaques do Ver-o-Peso da Cozinha Paraense é o Jantar das Boieiras, momento em que os chefs convidados e as boieiras (vendedoras de refeição do mercado) trabalharão em duplas para elaborar os pratos, em um verdadeiro intercâmbio gastronômico.
Realizado há 10 anos, o Jantar tem sido uma excelente chance de aprendizado para Roseane Gomes da Silva, 41, que participa há seis edições. Ela trabalha vendendo refeições no Ver-o-Peso há mais de 20 anos, atividade que aprendeu com a mãe. “O festival me tirou da minha zona de conforto e me abriu várias portas. Através do Instituto fiz um curso de iniciação culinária e posso dizer que saí de lá uma cozinheira muito melhor. Todo Jantar das Boieiras é uma experiência única”, relata. As receitas dela já foram consideradas as melhores do evento por duas vezes e ela está confiante no prato desse ano, pirarucu em camadas com jambu e batata, para conquistar um terceiro título.
Hildely Porpino, a Tieta, 56, é boieira há mais de três décadas e também estará no Jantar pela sétima vez. Vatapá de açaí e arroz paraense com creme de pupunha são algumas de suas criações. Para ela, o evento contribui para divulgar a cultura local para os próprios moradores de Belém. “Tem gente que vive aqui e não vem prestigiar a culinária no Ver-o-Peso. O festival é o momento de maior reconhecimento para nós, é quando a gente sente orgulho do nosso trabalho. É uma grande responsabilidade e um privilégio apresentar os sabores regionais para os chefs de fora. Participar do festival nos estimula a criar, a sempre melhorar. É muito enriquecedor”, declara.
Os chefs Edinho Amado e Carlos Kristensen irão cozinhar no Jantar das Boieiras. “Estou feliz de trabalhar junto com as boieiras e louco para conhecer tudo que Belém tem a oferecer em termos de sabores”, anuncia Amado. “Já sei que a receita da boieira que será minha dupla vai ser isca de carne acebolada. Para acompanhar, eu trouxe na mala o feijão crioulo do Rio Grande do Sul para fazer um mexido, temperado com carnes secas e puxado com farinha de mandioca. Estou animado para esse momento especial”, complementa Kristensen.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

União fortalece a Fazenda da Esperança

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 19/05/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação


O ritmo de vida é diferente na Unidade Nossa Senhora de Nazaré da Fazenda da Esperança, localizada em Mosqueiro, na Região Metropolitana de Belém (RMB). Cercado de vegetação, o espaço abriga homens que buscam tratamento para se livrar do álcool e das drogas. Trabalho não falta na Fazenda, que funciona há um ano e meio e tem 14 acolhidos e quatro voluntários. Aos afazeres, somam-se a espiritualidade e a convivência. Estes três elementos são os pilares do projeto Fazenda da Esperança, vinculado à Igreja Católica e com polos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. 
O modelo é pensado para ser autossustentável e a unidade de Mosqueiro está caminhando para alcançar esse equilíbrio. No começo do mês que vem, será iniciado o cultivo de alface hidropônica e a expectativa da produção é de seis mil pés por mês, que serão distribuídos para redes de supermercados da cidade. Além disso, os moradores fazem biscoitos, óleos naturais, camisas e outros itens para serem vendidos pelas famílias, que não pagam mensalidade. A renda da comercialização é revertida para o projeto. Eles consomem também aquilo que é produzido dentro da área de 84 hectares, através da horta e da criação de animais.
A Fazenda está em constante progresso. Três casas, cada uma com capacidade para 14 acolhidos, foram construídas e a quarta está em obras. Ainda serão erguidos dois galpões, cuja estrutura completa foi doada, onde ficarão refeitórios, cozinha industrial e espaço para oficinas de marcenaria e trabalhos manuais. O Pará tem outras cinco Fazendas, implantadas em Bragança, Abaetetuba, Óbidos, Tucumã e Redenção. O objetivo é chegar a ter capacidade para atender 90 pessoas, de acordo com o diácono Leandro Guerra, vice-presidente da unidade. 
Ele explica que o arcebispo metropolitano de Belém, dom Alberto Taveira, presidente da Fazenda Nossa Senhora de Nazaré, foi quem convidou a iniciativa para se instalar em Belém. A Igreja tem papel fundamental na mobilização da sociedade civil na colaboração com as obras sociais e na conscientização de que os vícios são um grave problema social, pontua o diácono. Com o intuito de cooperar nessa articulação, foi criado o Grupo Amigas da Esperança, que reúne mais de 20 mulheres e profissionais de diversos setores para serem voluntários e contribuírem com ajuda financeira ou doando seu tempo.
A próxima ação será a Tarde Alegre, evento programado para ocorrer duas vezes ao ano e que reúne centenas de convidados em prol do fortalecimento da Fazenda. A ação será no dia 23, às 16h30, na Casa de Plácido, em Belém. Serão sorteados vários prêmios e compartilhados relatos de alguns acolhidos.

Voluntários se dedicam ao trabalho de tornar real o sonho da libertação

Na unidade, vivem voluntários que já passaram pela comunidade em outros estados e decidiram se dedicar integralmente ao trabalho de cuidar daqueles que buscam abandonar a dependência química. São pessoas como João Pedro Santos do Carmo, de 39 anos, e Júlio Silva, de 30, que têm um papel muito importante no acompanhamento dos acolhidos, pois já passaram pelo período mínimo de um ano de tratamento.
Após duas internações na comunidade terapêutica, em 2009 e outra em 2012, João Pedro escolheu deixar família e emprego em Manaus e trabalhar integralmente na Fazenda, até que veio o convite para apoiar a implantação da unidade de Mosqueiro, da qual hoje é coordenador. “Estou fazendo o que um dia outras pessoas fizeram por mim. Como não trabalhamos com remédios, é fundamental que as pessoas cheguem com força de vontade para mudar e aceitar tudo que é plantado no coração: humildade, esforço, respeito e relacionamento com Deus”, comentou.
O chamado social de se envolver na obra não foi ignorado por Júlio, natural de Pernambuco. No entanto, diferente de muitos voluntários, que precisam viver longe da família para cumprir a missão, ele está trabalhando na Unidade Nossa Senhora de Nazaré acompanhado da esposa e dois filhos. Segundo ele, foi na Fazenda da Esperança de Garanhuns, em 2010, que ele conseguiu se libertar das drogas, que consumia desde os 14 anos. “O vício me tirou tudo o que eu tinha conquistado, mas consegui me recuperar depois de um ano dentro da Fazenda e dois anos em contato com os grupos de apoio Esperança Viva”, relatou.
A filosofia agradou Mislaine Silva, de 27 anos, que passou a ter mais contato com um estilo de vida mais simples, voltado para o trabalho, a partilha e a espiritualidade. Por causa dessa identificação, ela não hesitou em acompanhar Júlio quando a família foi chamada para trabalhar em uma unidade no Acre, dois anos antes de virem para a capital paraense. “Viver a vida interna na Fazenda, ainda mais como voluntários, é estar com o coração aberto para o novo, querer recomeçar. O que me atraiu foi esse jeito de levar a vida, de resolver nossos conflitos pessoais e de se relacionar com os outros. Aqui me sinto um pouco mãe dos meninos que acolhemos também”, afirmou.
O casal está na unidade há quatro meses e tem um filho de 8 anos e uma filha de 1 ano e 8 meses, que estudam em uma escola próxima. Ela está fazendo um curso superior à distância de Serviço Social e Júlio está coordenando o projeto de cultura de alface, entre outras atividades diárias. “É um novo estilo de conduzir a família, mas a experiência da Fazenda nos ajuda a lidar melhor com os problemas, além de influenciar positivamente na criação dos filhos. Está sendo muito proveitoso. Com os acolhidos, estamos tentando criar laços de família e mostrar a eles um novo caminho, porque a Fazenda é isso”, ressaltou Júlio.

Rotina diferenciada muda visão de mundo e enche acolhidos de otimismo

Por quase 30 anos, Jocildo Pessoa, de 47 anos, manteve o hábito de consumir álcool e drogas. O vício  levou ao fundo do poço, mesmo tendo construído carreira como marítimo e guia turístico em Manaus. O medo de perder o amor das filhas e a vontade de mudar foram as principais motivações para aceitar ir para a Fazenda no ano passado. “Cheguei a dormir em um papelão, em um carro velho na rua, empurrava carrinho de mão pra ganhar pouco dinheiro e gastar tudo em bebidas. Até a minha inscrição na Fazenda eu fiz enquanto estava bêbado”, recordou, feliz de poder dizer que esses episódios fazem parte do passado.
Jocildo concluiu o primeiro ano de tratamento, mas optou por passar mais alguns meses no sistema, dessa vez como voluntário em Belém. “Foi um lugar que me proporcionou descobrir o amor ao próximo de verdade. A Fazenda nos dá oportunidades, basta querer. Quando estava no acolhimento, aprendi a mexer com sonoplastia, a plantar e colher urucum, fiquei responsável por uma equipe de padeiros... Fiz várias coisas que pensei que não era capaz de realizar, exercitei o trabalho em equipe e a convivência, que é o mais difícil. Hoje em dia, a minha mente é muito mais aberta”, acrescentou.
Além dos horários de trabalho durante a manhã e à tarde, os moradores da Fazenda da Esperança desfrutam de reuniões de leitura e discussão da Palavra, grupos de apoio e atividades de lazer, mas não têm acesso a televisão e celular. Essa rotina tem plantado otimismo no coração de Ronaldo Teixeira, de 53 anos, que está há dois meses na unidade. Ele experimentou cocaína pela primeira vez aos 22 anos e desde então teve dificuldades para largar as drogas. “Já passei por outras instituições, mas a Fazenda tem a melhor proposta de caminhada que já vi. Estou indo muito bem e estou esperançoso de que terei uma mudança concreta”, contou.
Para garantir a reinserção dos acolhidos no mercado de trabalho, são realizados cursos através de parcerias, como o de horticultura com a Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa) e de operação de trator com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Outros apoiadores da Fazenda são o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Ministério Público do Trabalho (MPT), Banco da Amazônia, Prefeitura de Belém, Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster), Polícia Civil e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com doação de madeira.
“É muito relevante a conscientização da sociedade como um todo, uma vez que a Fazenda traz um impacto muito grande que envolve núcleos familiares e comunidades. Precisamos muito do apoio de empresários e profissionais, doando materiais de construção e com atuação voluntária. Depois dessa parte intensa de construção das casas, vamos focar em aumentar o time de voluntários”, diz Naiá Guerra, que integra o Grupo Amigas da Esperança. 
A Fazenda da Esperança calcula que o índice de recuperação entre os acolhidos que completam o tratamento, no Brasil, gira entre 60% e 80%. Os fundadores Frei Hans Stapel e Nelson Giovanelli iniciaram o trabalho há 30 anos na cidade de Guaratinguetá (SP). Hoje já são 104 unidades em 16 países.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Colibri preserva a tradição em Outeiro

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 12/05/2016

BRENDA PANTOJA 
Da Redação

Teatro, música, dança, religiosidade popular e respeito à natureza. Todos esses elementos estão presentes nos cordões de pássaros juninos, uma manifestação cultural genuinamente paraense. Nas festas de São João, os cortejos ganham as ruas formados por personagens típicos da sociedade regional, como o índio, o caboclo, o ribeirinho e outros. 
Na sede do Cordão de Pássaro Colibri de Outeiro, os preparativos para montar o espetáculo já começaram e ocupam a mente e o coração dos brincantes. O trabalho com o cordão no distrito ganhou tamanha dimensão que motivou a criação de outros projetos voltados para a preservação e o fomento da cultura regional.
Hoje, o cordão tem 40 brincantes e faz parte da Associação Folclórica e Cultural Colibri de Outeiro, sendo sua principal atividade. “Batizado inicialmente de Beija-Flor, esse cordão foi fundado em Icoaraci por Teonila Ataíde  em 1971. Depois de seu falecimento, viemos para Outeiro em 1999 e tivemos que mudar o nome porque na Associação Folclórica de Belém já existia um cadastro com o nome de Beija-Flor”, conta a guardiã do cordão, a socióloga Laurene Ataíde. A coordenadora da associação herdou da mãe a missão de manter viva a tradição.
Além disso, a associação abriga uma sala de cinema, um infocentro e muitos livros e realiza o projeto Point Colibri de Comunicação, que é financiado pelo Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da operadora de telefonia Oi, através do Programa Oi Novos Brasis. Por todo esse trabalho, a entidade é considerada um Ponto de Cultura, título conquistado após convênio com os governos federal e estadual. O local é aberto à comunidade, sendo o único ponto de internet livre do bairro e promovendo exibição de filmes mensalmente. Segundo Laurene, foi em 2008 que o grupo decidiu ampliar a atuação. “Não havia como ignorar a carência da região, em vários aspectos. Reunimos com a comunidade para pensar em projetos, mas precisávamos de recursos e para isso era necessário oficializar, criar CNPJ e tudo”, recorda.
Ela deixa claro que o principal objetivo do Colibri de Outeiro é a preservação dos cordões e das manifestações culturais da ilha de Caratateua. A brincadeira do pássaro continua revoando e ganhando força, mesmo 45 anos após a criação, graças à paixão de Laurene pela cultura, interesse que passou de mãe para filha, como tradicionalmente ocorre nesses grupos. “Minha preocupação em resguardar essa expressão é por ela ter origem na nossa terra. Não existe registro de pássaros juninos em nenhum outro lugar, além de ser uma bela apresentação, que remete ao imaginário e ótimo canal para promover a cultura entre a população de baixa renda”, defende.
A narrativa da encenação gira em torno da caçada, morte e ressurreição de um pássaro, o personagem central. Outros personagens aparecem, como fazendeiros, índios, nobres, fadas, feiticeiras, príncipes e princesas. Depende da roupagem de cada grupo, que parte desse enredo básico para criar várias peças populares. Carolina da Silva, 19, vai interpretar a princesa e está há dois anos no Colibri de Outeiro. Ela garante que entrar na Associação mudou sua visão sobre muitas coisas, incluindo ela mesma. 
“Antes, não fazia ideia do que eram os pássaros juninos. Conheci através de uma amiga na escola e me chamou a atenção a oportunidade de exercer o teatro. Tem sido uma experiência ótima. Me deu maior conhecimento sobre a cultura do Pará, me tornei mais sociável, mais responsável e aprendi a respeitar mais a opinião dos outros, trabalhar em equipe e, principalmente, me ajudou a lidar com a epilepsia”, avalia. O tempo ocioso que Carolina tinha quando chegava da aula passou a ser ocupado pelos ensaios e oficinas, o que a tornou uma jovem mais interessada em assuntos culturais.
A epilepsia trazia uma série de inseguranças para ela, que tinha dificuldade em fazer amigos e agora, após se integrar muito bem com os brincantes, está com a autoestima elevada e se prepara para um dos principais papeis no cordão. “Não enxergo mais a epilepsia como um problema. Aliás, aqui passei a refletir mais sobre inclusão, pois temos uma brincante especial [com deficiência intelectual]. Ser a princesa me dá vontade de fazer ainda melhor. Encaro o cordão como um trabalho mesmo”, completa. 

PARA TODOS
A acessibilidade cultural é uma das metas de Laurene Ataíde, que concluiu um mestrado na área recentemente e está trabalhando na adaptação de peças do grupo por meio de audiodescrição e linguagem brasileira de sinais. Por meio de projetos aprovados em editais, o Colibri de Outeiro já realizou circuitos de apresentação em outros estados, como Ceará e Maranhão, além de muitas cidades do interior paraense. O impacto na vida dos jovens é visível, afirma a socióloga. “Estamos em uma área considerada vermelha. Estando conosco, eles não estão soltos, desfrutam de um lazer sadio, se educam, adquirem cultura. Alguns que nos acompanham nas viagens nunca tinham saído nem de Outeiro e puderam conhecer novas regiões. Isso expande os horizontes”, comenta.
Tayres Pacheco, 26, é brincante há seis anos, formada pela Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará e interpreta a “Matuta”. Ela ministra oficinas de teatro nas escolas da comunidade e é engajada na divulgação dos pássaros juninos. “Nós criamos o nosso próprio tipo de teatro e isso tem uma relevância cultural enorme, mas quase ninguém conhece. É legal levar para as escolas, pois ensina as crianças a valorizar desde cedo. Além de enriquecer a bagagem cultural dos participantes, a Associação serve como um espaço para conversar com os adolescentes sobre vários temas que identificamos na ilha, como sexualidade, drogas e violência”, ressalta.

Documentação é essencial para divulgar a cultura regional no Estado

Segundo Laurene Ataíde, os cordões de pássaro estão em avançado processo de desaparecimento. Em menos de 20 anos, a capital paraense já viu dez grupos encerrarem as atividades. Um ponto crucial para preservar é documentar, registrar e divulgar a cultura local. É aí que entra o Point Colibri de Comunicação. O projeto foi pensado para capacitar em produção audiovisual os 40 integrantes do cordão, de todas as idades, mas com foco nos adolescentes e jovens. Em execução desde o ano passado, os participantes compraram equipamentos profissionais de filmagem e fotografia, promoveram oficinas de edição de vídeo e texto, e ainda organizaram eventos. 
No mês passado, eles fizeram uma mostra audiovisual, onde apresentaram uma coletânea de vídeos criativos sobre as atividades culturais em que a população da ilha é protagonista. O Círio de Nossa Senhora de Conceição, os desfiles de carnaval e as festas juninas foram alguns dos temas dos vídeos e também serão apresentados em fotos na Mostra Fotográfica “Sob os Olhares do Colibri”, que será exposta entre os dias 25 e 28 deste mês, na sede da Associação. Os estudantes Rafael da Silva, 21, e Bruno Santos, 26, são alguns dos mais ativos na produção de conteúdo e descobriram a aptidão com fotografia e filmagem através do Point de Comunicação.
Rafael participa do cordão há oito anos e faz o papel do caçador, enquanto Bruno está há três anos no grupo e interpreta o príncipe. “Além das técnicas em foto e filmagem, a gente está sempre aprendendo sobre um tema diferente, em contato com outros grupos e essa troca é muito boa. Eu era pobre em cultura, aqui aprendo bastante”, diz Rafael. O trabalho de registrar a realidade da comunidade em que vivem provoca uma consciência social nos jovens, que também retratam problemas como erosão nas praias de Outeiro e a falta de estrutura. “Passei a me interessar muito mais por fotografia, atividade que pretendo manter. O teatro também me ajudou a perder a timidez”, complementa Bruno. Os jovens atendidos pelo projeto do Point também atualizam as redes sociais do Colibri.

INFORMAÇÃO
A coordenadora da área de Sustentabilidade do instituto Oi Futuro, Flávia Vianna, garante que o Point Colibri de Comunicação, aprovado no edital de 2014, ainda tem pelo menos seis meses de funcionamento pela frente. “A proposta do programa Oi Novos Brasis é desenvolver iniciativas socioambientais inovadoras que utilizem as tecnologias de comunicação e informação pra acelerar o processo de desenvolvimento local”, define. 
Na visão dela, as ferramentas do audiovisual e da fotografia tem sido bem usadas pelo Colibri, a partir do momento em que fazem um resgate histórico e cultural de Outeiro, “além de enfatizarem questões que a própria população identifica como fragilidades do território, o que pode até fundamentar um diálogo com o poder público e a sociedade civil”, observa. Ainda não há previsão para o lançamento de uma nova seleção. Apostar em cultura em uma área como a ilha, que é carente de uma série de serviços, é um meio de promover sustentabilidade.
“Há discursos que colocam a cultura como um dos pilares da sustentabilidade, ao lado dos pilares econômico, ambiental e social. Isso faz sentido porque não dá para dissociar o individuo de sua cultura e todos esses fatores estão relacionados”, destaca. O próximo projeto da Associação é o I Festival de Pássaros e Outros Bichos de Belém, marcado para agosto. O evento recebeu uma verba de R$ 100.000 pelo programa CAIXA de apoio a Festivais de Teatro e Dança. A guardiã homenageada será Teonila Ataíde e duas de suas peças serão representadas pelo cordão Colibri: “Loucura de uma paixão” e “Os poderes de uma feiticeira”. Laurene adianta que os 17 grupos da capital paraense irão participar e que o público irá presenciar uma grande celebração da cultura local.

Serviço
- Site: http://colibriouteiro.6te.net/
- Página: http://www.facebook.com/PointColibri/
- Contato: 9 8861-6467 e 9 8278-4030 (Laurene Ataíde)
- Endereço: Rua Tito Franco, nº 183, bairro São João do Outeiro

quinta-feira, 23 de março de 2017

Projeto combate violência na Sacramenta


*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 21/04/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação


Com mais de 44 mil moradores, o bairro da Sacramenta, em Belém, tem uma grande população jovem. Dados do Censo 2010 mostram que o número de habitantes, na faixa etária de 5 a 19 anos, gira em torno de 10.753 pessoas. Visto como um dos bairros mais perigosos da capital paraense, a administradora Rita Pantoja decidiu tomar uma iniciativa para combater os índices de violência da área. Há 17 anos, ela fundou a Associação Projeto Renascer, apostando na qualificação, educação, esporte, lazer e cultura como ferramentas para melhorar a vida de crianças e jovens.
O trabalho é realizado por meio de projetos como o Ciranda da Arte com Ballet e Ciranda da Arte com Futebol, que atende crianças entre 6 e 12 anos. As meninas e os meninos não só treinam ballet e futebol, como também realizam atividades de pintura e leitura. Já os projetos Menor Aprendiz e Capacitação para Geração de Emprego e Renda são voltados para adolescentes e jovens, respectivamente. A associação também recebe adultos em busca de qualificação e os cursos ofertados são de atendimento ao público, vendas e marketing, recepcionista, auxiliar de departamento de pessoal e estoquista, em parceria com Serviço Brasileiro de apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).
Em quase duas décadas de funcionamento, a entidade atendeu cerca de seis mil famílias e atualmente tem 80 integrantes. A sede fica localizada na travessa Alferes Costa, próxima ao canal São Joaquim, sendo de fácil acesso para o público de bairros adjacentes, como Barreiro, Val-de-Cães, Telégrafo e Paraíso dos Pássaros. “O nosso principal objetivo é gerar um impacto positivo na sociedade e temos visto isso se refletir na queda da evasão escolar, nas moças e rapazes que entram cedo no mercado de trabalho e ganham novas perspectivas”, declara Rita.
O adolescente Gustavo dos Anjos, 17, mudou de postura após passar pelas capacitações promovidas pelo Renascer. Ele cursa o 1º ano do ensino médio e está buscando o primeiro emprego, contando com o apoio da associação. “Hoje já penso em fazer faculdade e planejar o meu futuro, antes não me preocupava com isso. Depois da Associação Renascer, procurei outros cursos e estou fazendo um aos sábados, que vai durar seis meses e vai me ensinar várias funções, como caixa de supermercado, auxiliar administrativo, almoxarifado”, conta.
Gustavo mora no Barreiro e, para ele, a falta de oportunidades em muitos bairros acaba desanimando os jovens. “Além disso, percebo discriminação com os jovens da periferia em vários espaços da cidade. Esse tipo de coisa a gente tem que vencer. Eu acredito que sou forte, que vou conseguir me sair bem e espero conseguir logo uma vaga”, ressalta. Jacilene Gama, mãe de Gustavo, foi quem o incentivou a começar a fazer as qualificações e está satisfeita com o desenvolvimento do filho. “Aqui na área falta presença do poder público, temos poucas atividades para os nossos filhos e não é bom deixar eles crescerem acostumados a estar sempre na rua, por causa da criminalidade e das drogas. Nesse sentido, o curso foi muito bom para ele se atualizar, se motivar a batalhar mesmo”, avalia.
O currículo de Gustavo foi enviado para vários parceiros da associação, que incluem redes de supermercado, de farmácia e shopping centers. “O currículo que vai encaminhado por nós tem maior credibilidade porque são parceiros que conhecem o nosso trabalho. O retorno tem sido muito bom e os alunos atendidos recebem até treinamento sobre entrevistas de emprego e dinâmicas de grupo”, diz Rita. O ponto alto do trabalho com a capacitação de adolescentes, jovens e adultos, ainda segundo ela, é ocupar o tempo ocioso, melhorando o currículo e a autoestima deles.
Focado no público infantil, o Ciranda da Arte nasceu há 10 anos com a intenção de valorizar a arte-educação. Com aulas duas vezes por semana, os professores revezam atividades de teatro, desenho, música, leitura com ballet e futebol. “Nossas crianças sofrem com a deficiência na oferta de atividades, de espaços de lazer, de uma educação mais completa. Esse projeto é uma forma de promover a inclusão delas por meio da arte e do esporte”, afirma. O Ciranda da Arte com Ballet recebe apoio do Banco da Amazônia há três anos.
No entanto, as aulas do Ciranda da Arte tem um diferencial. Nos primeiros 20 minutos de cada encontro, os educadores conversam com as crianças. Falam e ouvem o que eles tem a dizer sobre diversos temas: família, meio ambiente, escola, cidadania, amor ao próximo e espiritualidade. “Queremos reforçar valores com eles, que possam ser levados para dentro de casa, para a vizinhança, para a sala de aula. A sociedade está carente disso em vários ambientes e eles estão em processo de formação de caráter, por isso é bom investir”, observa o professor de futebol, Miguel del Valle.

Equipe comemora a formação de pessoas já atendidas pela associação

Humanização é o ponto chave da atuação do Projeto Renascer, defende a orientadora Celmira Pantoja. “A gente sente nas crianças o desejo e a alegria de fazer a dança, de praticar o futebol. Isso é muito importante para eles e para os pais também, ainda mais porque aliamos o ensino ao aconselhamento. Reforçamos bons princípios de honestidade, respeito e companheirismo”, pontua. Ela diz que é comum e muito gratificante encontrar jovens atendidos pelo projeto trabalhando em lojas, cursando universidades públicas e que vários deles se tornaram pais responsáveis, fazendo com que a associação atenda uma segunda geração de moradores.
Rita destaca que a entidade também atua em outras frentes. Tempos atrás, realizaram um projeto de ensino de capoeira e há pouco tempo implantaram o reforço escolar em matemática e leitura. A sede fica em uma casa de dois andares, mas apenas o pátio está disponível para o público e o espaço está ficando apertado, precisando ser ampliado. A programação ocorre nos dias de terça, quinta, sexta e sábado e uma arena é alugada para as aulas de futebol. A equipe é composta de cinco pessoas, incluindo os professores contratados.
“A experiência nos mostrou que não podemos depender de voluntários para coordenar os projetos e, como eles são muito importantes e priorizamos a qualidade do que é ensinado, temos educadores contratados. A professora de dança, por exemplo, é formada na área pela Universidade Federal do Pará”, acrescenta. A associação também entrega cestas básicas para pessoas de baixa renda e realiza ações educativas no bairro. A próxima na agenda será uma palestra sobre a gripe H1N1 e a presença de agentes de saúde para vacinar o público-alvo.
No momento, eles contam somente com os recursos financeiros do Banco da Amazônia, que repassa verba especificamente para o projeto Ciranda da Arte com Ballet, e doações da comunidade. Um dos maiores desejos de Rita é que a população se aproprie da iniciativa e ajude a garantir a sustentabilidade do projeto. “Mesmo com o aporte do banco, tentamos incentivar as pessoas a se engajarem, para que se apoderem desses serviços. Não é fácil, às vezes a comunidade quer se desprender dessa responsabilidade e esperar somente pelo poder público. É difícil se articular, exige muita consciência crítica, mas apostamos que vamos conseguir”, argumenta.
Maria Sales Araújo, 55, é mãe de Jenifer Raíssa Araújo, 10, que frequenta as aulas de ballet há dois anos. Ela também é avó de Pedro Vítor Araújo, 9, e Heitor Lima, 6, que fazem parte do projeto de futebol. Duas vezes por semana, ela faz questão de levar as crianças para as atividades e acredita que a sociedade poderia participar e ajudar mais a associação. “Mesmo quando tem reunião com os pais, muita gente falta. Não podemos esquecer que a união faz a força. Nós temos uma grande responsabilidade com as crianças e eu passo essa noção para eles, não deixando faltarem ou abandonarem o projeto, até porque eu vejo como faz bem a eles”, comenta.
Desde que começaram no projeto, ela notou que eles estão mais interessados pela leitura e que estão se expressando melhor. “Sem isso, as opções deles no tempo livre seria ficarem soltos pela rua? Ou presos em casa vendo televisão? Aqui eles gastam energia e aprendem bastante. É muito boa a iniciativa porque aqui faltam creches e ela faz a diferença para as mães que trabalham fora e não tem onde deixar os filhos”, complementa. Estudante do 6º ano do ensino fundamental, Jenifer pratica ballet há quase quatro anos.
As aulas começaram em um cursinho particular, mas foi ficando apertado para o orçamento da família e era longe de casa. “Fiquei feliz de poder continuar a fazer ballet porque é algo que me faz sentir alegre. Gosto muito de ensaiar, mas gosto mais das apresentações, de estar em um espetáculo”, revela. A garota já se apresentou no Theatro da Paz e em shoppings. Apesar de confessar que nunca quer abandonar a dança, Jenifer deseja ser professora. “O projeto me ajudou a ler mais, gosto das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de poesias e de Lendas da Amazônia”, completa.

Ciranda da Arte vence edital do Banco da Amazônia dois anos seguidos

Sobre a parceria com o banco, o gerente de Imagem e Comunicação da instituição, Luiz Lourenço Neto, lembra que tudo começou com a inscrição do projeto no edital de patrocínio de 2014. O Ciranda da Arte com Ballet foi aprovado na seleção em dois anos seguidos e, neste ano, o apoio continua porque a empresa julgou interessante manter a continuidade da ação social. “Dos nossos recursos destinados à responsabilidade social, 80% é concedido via edital e 20% vai para projetos contínuos. Dessa vez, a Associação Renascer se encaixou nessa categoria”, explica.
No entanto, ele detalha que a continuidade não é garantida por muito tempo, dificilmente ultrapassando dois a três anos. O motivo é estimular a comunidade a comprar a ideia do projeto e o ajude a rodar. Para isso, o dinheiro do edital deve ser usado na divulgação da iniciativa, na aquisição de equipamentos e pagamento de instrutores. Em 2016, o banco destinou quase R$ 2,5 milhões, valor 8% maior do que no ano passado, a 132 projetos artísticos, culturais, educativos e esportivos em toda a Amazônia Legal. Ainda de acordo com Luiz, 40% desses projetos contemplados estão no Pará. 
“Temos projetos maiores via Lei Rouanet e uma modalidade de apoio para eventos artísticos que contribui para fomentar a cultura na região. Em um momento em que muitas empresas estão diminuindo orçamento para iniciativas sociais, nós investimos mais por acreditar que temos um importante papel social, como banco inserido na Amazônia”, declara. Luiz informa, ainda, que as inscrições para o próximo edital serão abertas em agosto e que “várias possibilidades e surpresas estão sendo estudadas na área para 2017, quando o Banco completa 75 anos”.

terça-feira, 21 de março de 2017

Boas práticas combatem trabalho infantil

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 14/04/2016


BRENDA PANTOJA
Da Redação


Ver crianças vendendo bombom na rua e adolescentes limpando para-brisas no sinal de trânsito é mais uma cena comum para grande parte da população. No entanto, o trabalho infantil é um grave problema no Pará, que tem 223.338 meninos e meninas em situação de exploração, de acordo com os dados de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Estado é o quinto no ranking nacional com a maior ocorrência de menores de 18 anos trabalhando ilegalmente. Diversos órgãos públicos, organizações não-governamentais e instituições têm se mobilizado para discutir o tema, mas como engajar a sociedade civil e possibilitar que cada cidadão possa contribuir de forma efetiva para combater essa prática?
O projeto “Acadêmico Padrinho-Cidadão” foi criado com esse objetivo pela Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8). Lançado há duas semanas, já conta com mais de 100 voluntários interessados e 55 afilhados confirmados. A iniciativa consiste em estimular os universitários a atenderem estudantes de escolas públicas entre 7 e 18 anos incompletos com vários tipos de atividades: aulas de reforço escolar, musicalização, brincadeiras, rodas de leitura e outras expressões de solidariedade.
A ideia é ocupar os horários ociosos dos alunos, impedindo que sejam vítimas do trabalho infantil. A comissão também estipulou 2016 como o “Ano da Aprendizagem”, com ações baseadas na lei 10.097/2000, que garante uma formação técnico-profissional para jovens de 14 a 24 anos, segundo a juíza Maria Zuíla Lima Dutra, titular da 5ª Vara do Trabalho de Belém e Gestora Nacional e Regional do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. “No nosso caso, o público alcançado através do Programa da Aprendizagem é apenas de 14 a 18 anos incompletos, por meio de parcerias para oferta de cursos e vagas de trabalho, conscientizando também os empregadores”, explica.
O “Acadêmico Padrinho-Cidadão” veio para ampliar a atuação no âmbito da aprendizagem e fortalecer o crescimento pessoal e educacional dos voluntários e dos afilhados. Um dos padrinhos é o acadêmico de Direito Bruno Cézar Tavares, 31, que se comprometeu a auxiliar quatro jovens entre 14 e 17 anos. Ele decidiu estimular os afilhados a realizarem cursos de capacitação profissional em instituições parceiras da comissão e vai orientá-los sobre a inserção no mercado de trabalho como aprendiz. Para ele, a experiência está sendo engrandecedora. 
“Como estudante do Direito, acredito que preciso estar voltado para os problemas sociais da minha região. Encontrei uma forma de fazer isso com o programa, dando suporte a esses jovens. Incentivo, digo para não desistirem de buscar novas perspectivas. Todo dia dedico um tempo para conversar com eles e nos reunimos de vez em quando”, conta. Em um diálogo constante e produtivo, ele tira dúvidas sobre os cursos, orienta sobre o desempenho escolar e sugere leituras para os dois rapazes e duas moças que acompanha nos bairros do Coqueiro e Aurá, em Ananindeua. A estudante Natália Palheta, 14, está no 9º ano e é a afilhada mais recente.
Ela vê no projeto uma chance de garantir um futuro melhor. “Estou interessada em fazer cursos na área de relacionamento com o público e acho que chances como essa são muito boas, precisamos aproveitar. É melhor do que estar em casa sem nada para fazer e vai acrescentar para o meu desenvolvimento”, comenta. O trabalho infantil é Projeto ocupa tempo em que o aluno está fora da escola com atividades uma questão presente ao redor de Natália, que conhece a história de uma família onde a dificuldade financeira obrigou o filho mais velho a largar a escola para trabalhar como ambulante. Bruno ressalta que o projeto gera consciência cidadã entre os acadêmicos, colaborando para que se formem profissionais com mais responsabilidade social. 

MUSICALIZAÇÃO
O padrinho-acadêmico Tayrony Santana, 18, concorda e está empolgado com a iniciativa, que veio para reforçar o trabalho de musicalização que ele faz com os jovens do bairro do Curió-Utinga. Ele cursa o terceiro semestre de Direito e está atendendo nove afilhados, que frequentam a casa dele aos sábados para aprender a tocar violão. Os alunos tem entre 11 e 17 anos.
“Ensinar esses jovens faz com que eles passem menos tempo na rua, que tenham influências positivas, que tenham uma atividade de lazer aprendendo a tocar um instrumento, deixando-os menos vulneráveis ao trabalho infantil”, observa. Ele está feliz de ver o empenho dos afilhados, que são pontuais e praticam os exercícios em casa, evoluindo bem no aprendizado. “Imagina se cada universitário apadrinhasse uma criança ou adolescente. Seria mais fácil vencer esse problema”, completa.
Jonas Cardoso Silva, 14, é um dos afilhados que está aprendendo violão. O garoto já pensa nas outras possibilidades do projeto. “Estou gostando muito das aulas porque ocupam o nosso tempo. Antes, nesse horário, ficava em casa sem fazer nada e agora criei uma nova responsabilidade, a de estudar música. Estavam comentando de vir um outro padrinho para ajudar a gente e ensinar inglês, espero que dê certo”, afirma. Adolescentes e jovens que abandonam o colégio para vender água, lanche ou trabalhar em oficinas mecânicas são realidade no bairro, dizem Jonas e o colega Eldio Rodrigues.
Eldio tem 17 anos e está no 3º ano do ensino médio, preparando-se para ingressar no curso de Ciências da Computação. Ele percebe que a falta de oportunidades e a pressão do trabalho na infância levam muitos meninos e meninas para caminhos errados. “Um bairro que não tem espaço de lazer e atividades culturais também é ruim. Todo jovem gosta de sair, passear, socializar... não quer ficar parado. Juntando isso com a pobreza de muitas famílias, eles começam a trabalhar cedo e alguns acabam se envolvendo com drogas e criminalidade”, analisa. Tocar violão sempre foi uma vontade do rapaz, que está satisfeito por receber aulas de graça. “É muito legal, da parte de todos os padrinhos, abraçar um projeto como esse. A gente vê que o trabalho infantil é algo que todo mundo conhece, muitos se interessam, mas a maioria das pessoas se acomoda. Esses padrinhos fizeram diferente”, acrescenta.

Projeto ocupa tempo em que o aluno está fora da escola com atividades

A juíza titular da 2ª Vara Trabalhista de Belém Vanilza Malcher, que também integra a Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil do TRT8, destaca os próximos passos da mobilização. “Teremos a Semana da Aprendizagem, entre os dias 2 e 6 de maio, quando serão realizadas programações focadas nesse eixo. Serão seminários com alunos de escolas públicas, com universitários, terá uma audiência pública no Ministério Público do Trabalho, entre outros eventos”, adianta. A intenção é chamar a atenção para o tema e mobilizar todos que possam contribuir.
O TRT8 vai divulgar no dia 12 de junho, celebrado como o Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, uma pesquisa feita pela comissão nos últimos dois anos, mostrando os focos de trabalho infantil no Pará. Foram entrevistadas 234 mil crianças e adolescentes em 30 municípios e o levantamento comprovou que, na capital, o maior índice é de serviço doméstico e de ambulantes. “De todos os trabalhadores infantis da Região Norte, 55% estão no Pará. É alarmante. Ainda há o discurso de que colocar crianças e adolescentes para trabalhar é melhor do que deixar na rua ou do que estar roubando”, pontua a juíza Zuíla Dutra.
Contudo, ela argumenta que o trabalho infantil é um ato ilícito, tal como o roubo. “Não podemos combater um ilícito com outro. Ambos trazem consequências perversas para a infância e, por consequência, para a sociedade”, defende. Vanilza frisa que a prática está diretamente ligada ao alto índice de violência na região, uma vez que expõe a criança a sérios riscos e à ação de exploradores. Ainda de acordo com ela, o artigo 227 da Constituição Federal deixa claro que a responsabilidade pela proteção da infância e adolescência é dividida entre a família, o estado e a sociedade.
“O ideal seria a escola em tempo integral, mas não é a nossa realidade. Por isso pensamos nesse projeto como um caminho para ocupar o tempo que o aluno está fora da escola, com atividade lúdica, esportiva, educacional, e com pequenos cursos que possam ajudá-lo em sua formação profissional”, salienta. As juízas informam que as inscrições para padrinhos seguem abertas e que está sendo montado um banco de dados para acompanhar melhor as atividades.
“Pode ser um padrinho isolado ou um grupo de amigos, que podem escolher um ou até 30 afilhados. Não é fechado apenas para acadêmicos, ainda que eles sejam o foco. Temos servidores e empresários querendo participar. O importante é ajudar. O problema é imenso e precisamos de mais braços”, declara Vanilza. Um exemplo é o escritor Edgar Macedo, 57, funcionário público, que decidiu apadrinhar uma escola inteira. A proposta dele é levar cultura aos estudantes, com saraus e rodas de leitura. Ele, que é poeta, vai se reunir com outros amigos para preparar atividades lúdicas para as turmas. 
Durante uma das reuniões do projeto, ele adotou a escola estadual Marilda Nunes, no bairro do Benguí, que ensina do 6º ao 9º ano. A diretora da unidade, Ivanete Figueiredo, que compareceu ao encontro para conhecer a iniciativa, ficou muito contente de sair de lá com um padrinho para os alunos. “Estimular o interesse pela leitura alimenta a consciência crítica. Com a poesia e a literatura, elas poderão brincar com a realidade, ter outros meios de se defender dos riscos que se apresentam na infância e adolescência. A formação cultural é essencial e faz parte da construção de um cidadão”, acredita.
A comissão é ligada ao Programa de Combate ao Trabalho Infantil e de Estímulo à Aprendizagem, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT). O projeto “Acadêmico Padrinho-Cidadão” foi lançado em Belém, mas poderá ser executado em todo o Pará e Amapá, área de abrangência do TRT8. No Pará, tem como parceiros: Faculdade Maurício de Nassau, Uepa, Unama, Proativa do Pará, CIEE, Sebrae, Associação Comercial do Pará, Federação das Associações Comerciais do Pará/Faciapa, Seduc, Secretarias Municipais de Educação de Municípios Parceiros do TRT8, pedagogos e professores em geral. Mais informações podem ser obtidas com a Escola Judicial do TRT, pelos telefones 4008-7278 / 7280.