terça-feira, 21 de março de 2017

Boas práticas combatem trabalho infantil

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 14/04/2016


BRENDA PANTOJA
Da Redação


Ver crianças vendendo bombom na rua e adolescentes limpando para-brisas no sinal de trânsito é mais uma cena comum para grande parte da população. No entanto, o trabalho infantil é um grave problema no Pará, que tem 223.338 meninos e meninas em situação de exploração, de acordo com os dados de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Estado é o quinto no ranking nacional com a maior ocorrência de menores de 18 anos trabalhando ilegalmente. Diversos órgãos públicos, organizações não-governamentais e instituições têm se mobilizado para discutir o tema, mas como engajar a sociedade civil e possibilitar que cada cidadão possa contribuir de forma efetiva para combater essa prática?
O projeto “Acadêmico Padrinho-Cidadão” foi criado com esse objetivo pela Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8). Lançado há duas semanas, já conta com mais de 100 voluntários interessados e 55 afilhados confirmados. A iniciativa consiste em estimular os universitários a atenderem estudantes de escolas públicas entre 7 e 18 anos incompletos com vários tipos de atividades: aulas de reforço escolar, musicalização, brincadeiras, rodas de leitura e outras expressões de solidariedade.
A ideia é ocupar os horários ociosos dos alunos, impedindo que sejam vítimas do trabalho infantil. A comissão também estipulou 2016 como o “Ano da Aprendizagem”, com ações baseadas na lei 10.097/2000, que garante uma formação técnico-profissional para jovens de 14 a 24 anos, segundo a juíza Maria Zuíla Lima Dutra, titular da 5ª Vara do Trabalho de Belém e Gestora Nacional e Regional do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. “No nosso caso, o público alcançado através do Programa da Aprendizagem é apenas de 14 a 18 anos incompletos, por meio de parcerias para oferta de cursos e vagas de trabalho, conscientizando também os empregadores”, explica.
O “Acadêmico Padrinho-Cidadão” veio para ampliar a atuação no âmbito da aprendizagem e fortalecer o crescimento pessoal e educacional dos voluntários e dos afilhados. Um dos padrinhos é o acadêmico de Direito Bruno Cézar Tavares, 31, que se comprometeu a auxiliar quatro jovens entre 14 e 17 anos. Ele decidiu estimular os afilhados a realizarem cursos de capacitação profissional em instituições parceiras da comissão e vai orientá-los sobre a inserção no mercado de trabalho como aprendiz. Para ele, a experiência está sendo engrandecedora. 
“Como estudante do Direito, acredito que preciso estar voltado para os problemas sociais da minha região. Encontrei uma forma de fazer isso com o programa, dando suporte a esses jovens. Incentivo, digo para não desistirem de buscar novas perspectivas. Todo dia dedico um tempo para conversar com eles e nos reunimos de vez em quando”, conta. Em um diálogo constante e produtivo, ele tira dúvidas sobre os cursos, orienta sobre o desempenho escolar e sugere leituras para os dois rapazes e duas moças que acompanha nos bairros do Coqueiro e Aurá, em Ananindeua. A estudante Natália Palheta, 14, está no 9º ano e é a afilhada mais recente.
Ela vê no projeto uma chance de garantir um futuro melhor. “Estou interessada em fazer cursos na área de relacionamento com o público e acho que chances como essa são muito boas, precisamos aproveitar. É melhor do que estar em casa sem nada para fazer e vai acrescentar para o meu desenvolvimento”, comenta. O trabalho infantil é Projeto ocupa tempo em que o aluno está fora da escola com atividades uma questão presente ao redor de Natália, que conhece a história de uma família onde a dificuldade financeira obrigou o filho mais velho a largar a escola para trabalhar como ambulante. Bruno ressalta que o projeto gera consciência cidadã entre os acadêmicos, colaborando para que se formem profissionais com mais responsabilidade social. 

MUSICALIZAÇÃO
O padrinho-acadêmico Tayrony Santana, 18, concorda e está empolgado com a iniciativa, que veio para reforçar o trabalho de musicalização que ele faz com os jovens do bairro do Curió-Utinga. Ele cursa o terceiro semestre de Direito e está atendendo nove afilhados, que frequentam a casa dele aos sábados para aprender a tocar violão. Os alunos tem entre 11 e 17 anos.
“Ensinar esses jovens faz com que eles passem menos tempo na rua, que tenham influências positivas, que tenham uma atividade de lazer aprendendo a tocar um instrumento, deixando-os menos vulneráveis ao trabalho infantil”, observa. Ele está feliz de ver o empenho dos afilhados, que são pontuais e praticam os exercícios em casa, evoluindo bem no aprendizado. “Imagina se cada universitário apadrinhasse uma criança ou adolescente. Seria mais fácil vencer esse problema”, completa.
Jonas Cardoso Silva, 14, é um dos afilhados que está aprendendo violão. O garoto já pensa nas outras possibilidades do projeto. “Estou gostando muito das aulas porque ocupam o nosso tempo. Antes, nesse horário, ficava em casa sem fazer nada e agora criei uma nova responsabilidade, a de estudar música. Estavam comentando de vir um outro padrinho para ajudar a gente e ensinar inglês, espero que dê certo”, afirma. Adolescentes e jovens que abandonam o colégio para vender água, lanche ou trabalhar em oficinas mecânicas são realidade no bairro, dizem Jonas e o colega Eldio Rodrigues.
Eldio tem 17 anos e está no 3º ano do ensino médio, preparando-se para ingressar no curso de Ciências da Computação. Ele percebe que a falta de oportunidades e a pressão do trabalho na infância levam muitos meninos e meninas para caminhos errados. “Um bairro que não tem espaço de lazer e atividades culturais também é ruim. Todo jovem gosta de sair, passear, socializar... não quer ficar parado. Juntando isso com a pobreza de muitas famílias, eles começam a trabalhar cedo e alguns acabam se envolvendo com drogas e criminalidade”, analisa. Tocar violão sempre foi uma vontade do rapaz, que está satisfeito por receber aulas de graça. “É muito legal, da parte de todos os padrinhos, abraçar um projeto como esse. A gente vê que o trabalho infantil é algo que todo mundo conhece, muitos se interessam, mas a maioria das pessoas se acomoda. Esses padrinhos fizeram diferente”, acrescenta.

Projeto ocupa tempo em que o aluno está fora da escola com atividades

A juíza titular da 2ª Vara Trabalhista de Belém Vanilza Malcher, que também integra a Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil do TRT8, destaca os próximos passos da mobilização. “Teremos a Semana da Aprendizagem, entre os dias 2 e 6 de maio, quando serão realizadas programações focadas nesse eixo. Serão seminários com alunos de escolas públicas, com universitários, terá uma audiência pública no Ministério Público do Trabalho, entre outros eventos”, adianta. A intenção é chamar a atenção para o tema e mobilizar todos que possam contribuir.
O TRT8 vai divulgar no dia 12 de junho, celebrado como o Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, uma pesquisa feita pela comissão nos últimos dois anos, mostrando os focos de trabalho infantil no Pará. Foram entrevistadas 234 mil crianças e adolescentes em 30 municípios e o levantamento comprovou que, na capital, o maior índice é de serviço doméstico e de ambulantes. “De todos os trabalhadores infantis da Região Norte, 55% estão no Pará. É alarmante. Ainda há o discurso de que colocar crianças e adolescentes para trabalhar é melhor do que deixar na rua ou do que estar roubando”, pontua a juíza Zuíla Dutra.
Contudo, ela argumenta que o trabalho infantil é um ato ilícito, tal como o roubo. “Não podemos combater um ilícito com outro. Ambos trazem consequências perversas para a infância e, por consequência, para a sociedade”, defende. Vanilza frisa que a prática está diretamente ligada ao alto índice de violência na região, uma vez que expõe a criança a sérios riscos e à ação de exploradores. Ainda de acordo com ela, o artigo 227 da Constituição Federal deixa claro que a responsabilidade pela proteção da infância e adolescência é dividida entre a família, o estado e a sociedade.
“O ideal seria a escola em tempo integral, mas não é a nossa realidade. Por isso pensamos nesse projeto como um caminho para ocupar o tempo que o aluno está fora da escola, com atividade lúdica, esportiva, educacional, e com pequenos cursos que possam ajudá-lo em sua formação profissional”, salienta. As juízas informam que as inscrições para padrinhos seguem abertas e que está sendo montado um banco de dados para acompanhar melhor as atividades.
“Pode ser um padrinho isolado ou um grupo de amigos, que podem escolher um ou até 30 afilhados. Não é fechado apenas para acadêmicos, ainda que eles sejam o foco. Temos servidores e empresários querendo participar. O importante é ajudar. O problema é imenso e precisamos de mais braços”, declara Vanilza. Um exemplo é o escritor Edgar Macedo, 57, funcionário público, que decidiu apadrinhar uma escola inteira. A proposta dele é levar cultura aos estudantes, com saraus e rodas de leitura. Ele, que é poeta, vai se reunir com outros amigos para preparar atividades lúdicas para as turmas. 
Durante uma das reuniões do projeto, ele adotou a escola estadual Marilda Nunes, no bairro do Benguí, que ensina do 6º ao 9º ano. A diretora da unidade, Ivanete Figueiredo, que compareceu ao encontro para conhecer a iniciativa, ficou muito contente de sair de lá com um padrinho para os alunos. “Estimular o interesse pela leitura alimenta a consciência crítica. Com a poesia e a literatura, elas poderão brincar com a realidade, ter outros meios de se defender dos riscos que se apresentam na infância e adolescência. A formação cultural é essencial e faz parte da construção de um cidadão”, acredita.
A comissão é ligada ao Programa de Combate ao Trabalho Infantil e de Estímulo à Aprendizagem, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT). O projeto “Acadêmico Padrinho-Cidadão” foi lançado em Belém, mas poderá ser executado em todo o Pará e Amapá, área de abrangência do TRT8. No Pará, tem como parceiros: Faculdade Maurício de Nassau, Uepa, Unama, Proativa do Pará, CIEE, Sebrae, Associação Comercial do Pará, Federação das Associações Comerciais do Pará/Faciapa, Seduc, Secretarias Municipais de Educação de Municípios Parceiros do TRT8, pedagogos e professores em geral. Mais informações podem ser obtidas com a Escola Judicial do TRT, pelos telefones 4008-7278 / 7280.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Comunidades estimulam a leitura

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 07/04/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação


                    Uma sala ampla com estantes cheias de livros, que estão sempre levemente desarrumados, e o burburinho de vozes infantis em uma roda de leitura. Assim é uma biblioteca viva. “Você nunca vai chegar aqui e ver tudo impecável. É muito grande o fluxo de crianças, adolescentes e leitores de todas as idades. Queremos mesmo ver esse lugar sempre movimentado”, comenta Minéia Silva, 35, mediadora de leitura do Espaço Cultural Nossa Biblioteca (ECNB), localizado no bairro do Guamá. A instituição, que tem 38 anos de existência, atua para formar leitores e promover a cultura na cidade. Junto com outras bibliotecas comunitárias e entidades, eles estão engajados na construção do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de Belém (PMLLLB).
Realidade em muitas cidades, o plano ainda não foi elaborado na capital paraense e será uma ferramenta relevante para a democratização do acesso ao livro e para fomentar o hábito da leitura. A partir daí, se abre o caminho para outras transformações sociais, acredita Raimundo de Oliveira, professor de História e coordenador do ECNB. “Queremos construir essa política pública para garantir que o governo tenha mais verba destinada à causa. Podemos tornar a leitura em uma cultura da região e fazer com que o amazônida seja reconhecido como um povo leitor. O que não dá é para esperar só pelo governo. Com o plano, a ideia não jogar a responsabilidade para o Estado, queremos somar com eles e a sociedade civil”, diz.
O Polo de Leitura Resistência Guamazônica, rede que congrega instituições em prol do livro e da leitura, realizará um seminário no segundo semestre para discutir os eixos do PMLLB. Antes do evento, será elaborada uma carta de compromisso para ser assinada pelos candidatos ao cargo de prefeito de Belém. Baseado nos planos implantados em outros municípios, Raimundo cita algumas das propostas que serão debatidas: formação de mediadores, investimento em propaganda de leitura, aumentar o acervo de livros, ter pelo menos uma biblioteca em cada bairro com mais de 20 mil habitantes, entre outras propostas.
“Através da leitura, o aluno melhora o desempenho na escola. A literatura é um dos alicerces necessários para mudarmos a condição de vida das pessoas. Vivemos em uma região explorada, em que a população luta contra a pobreza e o subdesenvolvimento. O livro é um instrumento de empoderamento e precisa passar a ser um hábito alimentado no seio das famílias, não visto apenas como um instrumental para a escola”, argumenta. Segundo Raimundo, aprovar o Plano vai ser importante para pressionar o governo a trabalhar no processo de mudança de uma cultura de não-leitura para uma de leitores.

RECURSOS 
Atualmente, a maior parte dos recursos do Espaço vem de financiamentos a partir de projetos, mas que não se estendem por muito tempo. O apoio de voluntários comprometidos com a educação é fundamental. Minéia faz parte desse time há 16 anos e vê o impacto que a biblioteca provoca na comunidade. Em torno de dois mil livros são emprestados por mês, mas a circulação de pessoas é maior, em função das atividades de dança, violão, inglês, teatro, oficinas de literaturas e rodas de conversa. “As crianças que acompanhamos nas mediações de leitura tem melhora no rendimento escolar. Muitas vezes, a dificuldade em algumas matérias se dá pela dificuldade de interpretar uma questão ou de um vocabulário pobre. Em longo prazo, muitos pais dizem que os filhos ficam mais comunicativos e seguros”, observa.
Outro fenômeno observado por ela é a disseminação do hábito da leitura a partir dos filhos. “Os pais começam a ler em casa com os filhos, passam a se interessar mais e quando os trazem para alguma atividade, ficam lendo enquanto esperam. Tanto é que vamos criar o grupo de pais leitores nesse ano, para discutir temas diversos por meio das leituras”, afirma. Cidadania, identidade sociocultural e até agricultura urbana são temas abordados em rodas de leitura do ECNB. Minéia ressalta que uma das metas para esse ano é conseguir mais colaboradores. As contribuições de pessoas físicas ainda são poucas. “Além da ajuda financeira, sempre precisamos de pessoas para ajudar com a organização e com as atividades. Quanto mais pessoas envolvidas, melhor”, completa.

Projeto Educar chega a mais de 130 crianças em três bairros da capital

Em 2005, a auditoria fiscal Irinéa Simões, 70, trouxe duas garotas do município de Santa Maria do Pará para estudar em Belém. Aos 10 e 8 anos, elas eram analfabetas, mas em um ano de aulas particulares, as crianças já estavam lendo. Vendo o esforço das meninas e a mudança na realidade delas, que começaram a frequentar a escola, Irinéa resolveu montar um projeto voltado para a alfabetização e o reforço na leitura e escrita dos alunos. Em 2008, ela fundou o projeto Educar, uma iniciativa independente que já atende 136 crianças nos bairros de Canudos, Tapanã e em Marituba.
Ela conta com quatro professoras, que trabalham no projeto com carteira assinada, e uma rede de, no máximo, dez colaboradores. Em sete anos de projeto, estima que tenham sido atendidas 800 crianças, entre 6 e 13 anos. As aulas são de leitura e escrita, matemática, comportamento e religiosidade. “É fato que muitos alunos vão passando de série com muita dificuldade para ler e para saber interpretar, ter consciência crítica. Em algumas famílias, a educação é negligenciada, como se fosse responsabilidade apenas do colégio. Esse problema na leitura em muitas crianças aqui mesmo na cidade foi o que me motivou a tomar uma atitude, fazer algo para ajudar”, diz.
Simone Oliveira, 46, é professora de uma das turmas que frequentam o reforço diariamente na Paróquia São José de Queluz, em Canudos. Para ela, o trabalho é gratificante pela influência direta na vida dos meninos e meninas. “Já trabalhamos até com crianças do quinto ano que não sabiam ler. Aqui, com uma atenção mais próxima, eles se desenvolvem bem melhor. Os pais precisam incentivar a leitura sempre”, orienta. Muito querida pelos alunos e pais, ela conversa com professoras das escolas próximas para saber sobre o conteúdo programático.
Ana Cláudia Viana é mãe de Raphael Nikolas, 6, que estuda em escola particular e entrou para o reforço escolar no ano passado. A mudança é visível e tem agradado muito a família. “Antes ele era muito ligado na televisão e isso diminuiu. Ele melhorou a caligrafia, ortografia, o ritmo da leitura e até o interesse pelas tarefas da escola no geral. Está até um pouco mais adiantado que o resto da turma dele”, afirma. Os pais pagam um valor simbólico de R$ 10 por semestre. De acordo com Irinéa, antes de cobrar ações do governo, o cidadão precisa pensar em de que forma ele está contribuindo para resolver o problema. “Muitas crianças só precisam de um empurrão para se desenvolverem melhor e eu acredito que o melhor presente que você pode dar para alguém é a cultura”, diz.

CONSCIENTIZAÇÃO
Doações de pessoas que, como os vaga-lumes, vão ajudar a iluminar cantos distantes da Amazônia. É nisso que aposta a Vaga Lume, uma iniciativa que implanta bibliotecas comunitárias em localidades rurais e ribeirinhos da região. O projeto existe há 15 anos e abriu 159 bibliotecas em 23 municípios. Neste ano, a organização não governamental (ONG) paulista investiu em uma campanha para mobilizar doadores avulsos, em vez de contar apenas com empresas parceiras e financiamentos de projetos. Para alcançar esse outro público, a entidade criou um esquema de contribuições mensais no valor mínimo de R$ 30, basicamente o preço de um livro, que podem ser feitas através do site www. doe.vagalume.org.br.
A coordenadora de Desenvolvimento Institucional da Vaga Lume, Marina de Castro Rodrigues, reforça que a estratégia é conscientizar as pessoas sobre a importância de garantir o acesso ao livro para as populações mais isoladas da Amazônia. A ideia também é escolher doadores que possam se tornar “embaixadores” e assumam o compromisso de divulgar a causa para outros amigos. Marina incentiva, ainda, as doações por meio da Lei Rouanet que podem ser feitas por pessoas jurídicas e físicas até 30 de dezembro. “Muita gente não sabe desse recurso ou tem receio, mas é possível investir um valor equivalente a até 6% do IRPF, por meio de um depósito para nós, e esse montante é ressarcido no ano fiscal seguinte”, acrescenta.
O Instituto Ayrton Senna lançou, recentemente, a campanha de mobilização “Doe Educação”. O objetivo é incentivar a sociedade a se engajar por uma educação pública de qualidade. A campanha conta com um selo que demonstra o ato de “levantar a bandeira”, em alusão ao gesto histórico eternizado por Senna como símbolo de vitória e superação. A partir de R$ 10 por mês, é possível contribuir com a alfabetização de uma criança ao longo de um ano e a pessoa recebe um adesivo para demonstrar seu apoio.
Com R$ 30, contribui com a alfabetização de três crianças e recebe um chaveiro; e com R$ 50, o doador recebe uma camiseta e contribui mensalmente para que cinco crianças sejam alfabetizadas. “A educação é uma causa essencial para acelerarmos o desenvolvimento do Brasil e temos a certeza de que mais uma vez a sociedade está ao nosso lado. A campanha mostra de forma clara e objetiva a transformação que o ensino de qualidade faz na vida das pessoas. Por isso, quem é socialmente responsável e quer um país melhor e mais justo certamente não vai deixar de se engajar”, destaca Marco Crespo, diretor de Negócios do Instituto.
A campanha vai até maio. O Instituto Ayrton Senna trabalha há mais de 20 anos na melhoria da educação pública do Brasil. São pesquisas e produção de novos conhecimentos em pedagogia, gestão educacional e avaliação de impacto que servem para elaborar soluções educacionais inovadoras. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Música ao alcance de todos os públicos

*Publicado na página de Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 24/03/2016

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Pelos corredores da sede da Associação Paraense das Pessoas com Deficiência (APPD), nas tardes de segunda a quinta-feira, é comum ouvir uma mistura de sons de flautas doces, teclados e ainda violões e cavaquinhos sendo afinados. São as turmas do projeto Música e Cidadania, promovido pela Fundação Carlos Gomes (FCG). A APPD é um dos cinco polos de aulas e o objetivo é oferecer classes de música a crianças, jovens, adultos e idosos com deficiência e para a comunidade em geral.
A iniciativa existe há 16 anos e tem como proposta a descentralização do ensino da Fundação Carlos Gomes, promovendo a acessibilidade educacional e musical das pessoas de baixa renda. Desde a criação do projeto, em torno de 15 mil pessoas já foram atendidas, em uma faixa etária que vai dos 7 ao 80 anos. Através das aulas, participantes com deficiências visuais, auditivas, intelectuais ou físicas mostram que qualquer limitação pode ser superada e não só aprendem a tocar instrumentos, mas também ganham em formação cultural, autoestima, segurança e oportunidades.
O ex-vigilante Arcelino Almeida da Conceição, 58, é um dos 163 alunos matriculados no polo da APPD e está na turma de violão desde o início da parceria, há oito anos. Por causa de um deslocamento da retina, ele só tem 15% da visão em um dos olhos e isso não foi impedimento para ir atrás do sonho de ser um violonista. “Tinha vontade de aprender desde adolescente e quando  cheguei no projeto, já com 49 anos, não tinha noção nenhuma. Hoje em dia, tenho bastante conhecimento e habilidade com o violão”, conta ele, que dedica horas ao instrumento musical em casa e até está ensinando um sobrinho.
Duas vezes por semana, ele viaja uma hora de Ananindeua para o prédio da APPD, no bairro de São Brás, para participar das aulas. Esse interesse se consolidou porque a musicalização o ajudou a enfrentar problemas como depressão, ansiedade e timidez. “Quando fui perdendo a visão, fiquei um tempo deprimido, tinha medo de sair de casa. Começar as aulas de violão foi ótimo para mim. A música tem a capacidade de transformar uma pessoa. Fiquei mais otimista, comunicativo e passei a socializar mais com parentes e amigos”, afirma.
Os ritmos paraenses e a música popular brasileira são os estilos que Arcelino mais gosta de tocar. Em festas e reuniões de família, ele é convidado a tocar algumas músicas, mas é nos palcos que a emoção bate forte. Por meio do projeto, o ex-vigilante e outros integrantes se apresentaram nos teatros Estação Gasômetro, Margarida Schivasappa e no Theatro da Paz, este último durante o Festival Internacional de Música de 2013. Ele anseia pela chance de repetir a experiência. “Foi um sonho realizado, sempre dizia aos meus amigos que um dia ia pisar naquele palco. Não tem dinheiro que pague a sensação de ser ovacionado pelo público. Estou aprendendo e evoluindo a cada dia. Quero, quem sabe um dia, ser pelo menos um bom violonista”, diz, com modéstia.

BEM ESTAR
As turmas da APPD reúnem tanto alunos com deficiência quanto amantes da música que desejam tocar algum instrumento. Aos 68 anos, Creuza Melo é da mesma turma que Arcelino Almeida e também frequenta as aulas desde 2008, pois já se tornaram uma terapia. Com problemas de locomoção nas pernas, ela sofre com artrite e reumatismo, mas aperfeiçoar a técnica com o violão contribui para o seu bem estar. Se dedicar à música era um sonho desde a infância, quando via os avós tocando flauta. “O violão me acalma. Amo música, me dá prazer e me rejuvenesce. Também sou de um grupo de dança folclórica, onde toco maraca. Tem dias que as dores são muito fortes, mas sempre que melhoro um pouco, me visto e vou à luta. Faço questão de participar do projeto porque me faz muito bem”, relata.
As portas do “Música e Cidadania” são abertas também para moradores da comunidade, como é o caso de Aldilene Fernandes, 31, que mora no bairro da Marambaia. Com um conhecimento básico de violão, ela queria aprofundar e está no projeto desde agosto do ano passado. A meta é tocar profissionalmente em uma banda. “Quero melhorar no violão porque em casa temos o projeto de formar um grupo de música religiosa. Já escolhemos o nome, vai se chamar Sementes do Amor. Minha irmã toca teclado, meu irmão fica na percussão, os dois cantam, e o meu pai coordena tudo”, revela.
Poder aprender a tocar um instrumento de graça, com apoio da Fundação Carlos Gomes, foi algo que ela não quis deixar passar. “Está sendo excelente para mim e estou me esforçando, praticando em casa e logo vamos concretizar o sonho de ter uma banda”, completa. As aulas têm um significado especial também para a estudante Ingrid Souza da Silva, 16, pois é o que ela se vê fazendo no futuro. “Pretendo estudar música na universidade e dar aula de violão, quero ser professora. Inclusive, acho que deveria ser uma área mais trabalhada nos currículos escolares”, pontua.
Ela chegou ao polo da APPD há um ano, depois de ter feito aulas particulares de violão e ter participado de um projeto de musicalização na escola, mas que foi interrompido. “A música me ajuda muito, até passei a tirar notas melhores, porque eu treino muito e isso colabora para a concentração e disciplina”, conclui.

Deficiência não limita capacidade de aprendizagem musical dos alunos

A professora de Música Elaine Valente destaca a relevância do “Música e Cidadania” para a inclusão social. Segundo ela, muitos acreditam que as pessoas com deficiência não têm a capacidade de aprender a tocar instrumentos, o que se mostra um erro. “A prática traz uma série de benefícios a esse público, começando pelo enriquecimento cultural e ampliação da visão de mundo. Em muitos lugares, esse trabalho é feito de forma segregada, em que eles são colocados em espaços separados. Aqui, a gente aposta na homogeneidade e tem funcionado muito bem”, salienta.
Eugênia Lobato, professora de canto do projeto, percebe que a evolução dos alunos se reflete na postura deles. “A pessoa chega aqui pensando que não sabe cantar e, na primeira aula, se surpreende, se encanta. A disciplina dos exercícios os deixa mais seguros na afinação, na entonação. E o interesse pela música só aumenta, temos alunos que passam por várias turmas. Começam no violão, fazem canto, depois flauta e assim vai”, complementa. Josiane Pantoja, 26, cursou violão na APPD, onde é associada, por três anos e agora entrou para a turma de canto.
Ela foi diagnosticada com esquizofrenia, de acordo com a mãe, Lourdes Rodrigues, e a música tem sido uma ferramenta muito útil no tratamento da filha. “Ela também faz dança de salão em outro lugar. A música melhora o ânimo dela, ocupa a mente. Acredito que o canto vai ser muito bom por ser algo que vem de dentro para fora, ajuda a lidar com emoções”, pondera.
Josiel Cardoso, 24, também está estudando canto e é um dos alunos que leva as aulas a sério, movido pela paixão que tem pela música. Com deficiência motora no braço esquerdo, ele gostou de saber que tinha acesso a um projeto como este.
“Tive aulas particulares de canto por três anos, é algo que eu amo. Quando soube das aulas gratuitas, fiquei feliz e vou continuar praticando porque penso em seguir carreira na música. A pessoa com alguma deficiência muitas vezes se sente desigual e quando essa iniciativa nos dá a chance de fazer uma atividade tão boa, com ótimos professores e sem nenhuma separação nas turmas, você esquece essas diferenças. Você se sente totalmente parte do grupo e isso é muito legal”, analisa.

ACESSIBILIDADE
A musicalização acessível foi uma causa abraçada pela Associação Paraense das Pessoas com Deficiência, assegura o diretor técnico e científico da entidade, Ronaldo Castro de Oliveira. Ele diz que o serviço funciona como mais do que uma terapia para os associados, pois mostra novos caminhos, impactando as relações interpessoais e até a vida profissional de alguns participantes. “Temos casos de alunos com deficiência que deixaram o projeto e passaram a cantar e tocar profissionalmente. Para quem está no projeto ou quer entrar, eu digo que o limite é de acordo com a sua força de vontade”, comenta.
A lista de espera para o próximo semestre chega a 40 pessoas e a demanda é grande justamente pela dificuldade de turmas que garantam acessibilidade no ensino. “Os associados têm prioridade, mesmo com as vagas abertas para a comunidade, porque a falta de espaços que matriculem alunos com deficiência para musicalização é uma queixa recorrente. Nós temos turmas que se mantém com apenas dois alunos, se preciso for, porque acreditamos que é uma ação importante para eles. A sociedade como um todo deveria se comprometer mais com a acessibilidade”, cobra.
Ronaldo fala com orgulho e alegria do andamento do projeto, especialmente dos momentos de apresentação ao público. “Ali no palco, eles são o espetáculo e é muito legal ver a satisfação deles, o senso de realização. A música é um instrumento de mudança não só das pessoas com deficiência, mas das crianças e jovens em geral”, reitera.

INICIATIVA
Reginaldo Viana coordena o “Música e Cidadania” e aponta um desdobramento interessante da iniciativa, que é a oportunidade de ingressar no Instituto Carlos Gomes após dois anos de aula em qualquer um dos polos. Ele explica, ainda, que o projeto surgiu para suprir a necessidade de democratização da educação musical na Região Metropolitana de Belém. Temos uma demanda muito grande, que a instituição não consegue suportar pela própria estrutura física. “Pensando em atender esse público que não passou nos exames habilitatórios ou não tem acesso ao ensino musical e que estão em áreas de vulnerabilidade social, criamos esse curso, que é livre”, detalha.
Para começar o ensino técnico, é possível fazer um teste específico, aplicado especialmente aos atendidos pelo projeto e eles concorrem entre eles pelas vagas. “Hoje, 60% dos alunos do Instituto são oriundos dessa ação social. Temos ex-alunos que já são professores e tem mestrado. Acredito que a música é para todos, não só para alguns. O projeto os aproxima da música e da arte, amplia os horizontes, a formação cultural, a visão dele mesmo como alguém envolvido em uma produção artística”.  Reginaldo informa que pessoas com deficiência são aceitas em todos os polos, mas que a APPD é referência e tem profissionais que desenvolveram métodos específicos para esse público. Ainda segundo ele, as matrículas devem ser feitas diretamente em um dos polos e novas turmas serão abertas no segundo semestre.