segunda-feira, 25 de julho de 2016

Tecnologia traz desenvolvimento social

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 06/11/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Investir nos produtores locais, pensar alternativas para tratamento de água e esgoto, utilizar os recursos naturais de forma mais consciente. Ações como estas transformam a realidade dos moradores. Mais do que levar as ferramentas e os equipamentos, é preciso levar informação e conhecimento. Essa combinação é a marca das chamadas Tecnologias Sociais (TS), que consistem em soluções relativamente simples, de baixo custo e fácil reaplicabilidade para melhorar demandas essenciais como água potável, alimentação, educação, habitação, saúde, meio ambiente, entre outras.
Quando se fala em tecnologia, muita gente costuma associar o termo aos laboratórios e grandes empresas, com equipamentos caros e computadores de última geração. No entanto, muitos pesquisadores, empresas e organizações da sociedade civil apostam na ciência, na inovação e na qualificação para alavancar o desenvolvimento social em comunidades que precisam de assistência. No município de Bragança, distante cerca de 210 km de Belém, as escamas e couro de peixes, que eram jogados no lixo pelas mãos de Liliane Quadros, 37, e outras artesãs locais, agora transformam-se em biojóia. 
Ela recebe apoio da Casa do Empreendedor, que já formalizou 409 microempreendedores individuais desde janeiro do ano passado e é uma das instituições parceiras da Rede Paraense de Tecnologias Sociais (RTS/PA). Ao desburocratizar o processo para pequenos investidores, que antes precisavam se deslocar para cidades vizinhas ou até mesmo para a capital, os benefícios começam a ser notados. “O primeiro resultado é o aumento na arrecadação do município, por causa dos impostos e taxas, algumas com tarifas especiais para os empreendedores legalizados. E o principal, que é o fomento da economia na região bragantina”, comenta a agente de desenvolvimento local Eliete Sampaio. 
Paneiros artesanais, cestos de guarumã (planta amazônica), panelas de barro e bolsas de fibra da bananeira são alguns exemplos de artesanatos produzidos em Bragança e comunidades próximas. A atividade tem muita força por lá, aquecendo não só a economia, mas também a cultura. Agora, os empreendedores se preparam para a tradicional Festa da Marujada, realizada em dezembro, que atrai muitos turistas e movimenta os negócios do município. “A nossa função, hoje, é chegar onde ninguém chegava. Bragança é rodeada por comunidades, então queremos ir lá naquele artesão que até sabe produzir, mas não sabe como entrar no mercado”, afirma. 
Os workshops e feiras promovidas pela Casa beneficiaram pessoas como Liliane, que envia encomendas de biojóias a Belém, Manaus, Rio de Janeiro e São Paulo. Ela aprendeu a técnica há três anos, por meio de uma oficina da Secretaria de Estado de Pesca. “Depois veio a Casa do Empreendedor, onde aprendi mais sobre produção e me capacitei, o que tem sido uma ótima ajuda para a minha renda”, conta. Ela prefere confeccionar peças únicas e trabalhar com matérias-primas como sementes, o que envolve outros fornecedores locais. “Incentivar os produtores de artesanato daqui é maravilhoso, porque são feitas peças de ótima qualidade. A atuação da Casa estimulou a união de mais de 50 grupos de artesãos, que estão mobilizados para fortalecer e divulgar a nossa arte”, acrescenta, reforçando que o trabalho de enfoque econômico ganhou dimensão social, de valorização da cultura. 

SANITÁRIOS 
Fortalecer o mercado é relevante, na visão de João Pinho, porque a baixa renda é um dos aspectos que influencia o morador a deixar sua comunidade. Outro motivo para essa saída é a má qualidade no abastecimento de água e saneamento precário. “Um dos papeis das tecnologias sociais é dar condições para que as pessoas, se assim desejarem, se mantenham na sua região com capacidade de produzir e ter qualidade de vida, sem ter que migrar e enfrentar dificuldades nos grandes centros”, argumenta. O projeto “Sanitários Ecológicos Secos”, da Caritas Arquidiocesana de Belém e com apoio do Banco da Amazônia, busca proporcionar essas condições aos habitantes da Região das Ilhas, em Belém. Em andamento desde 2006, a iniciativa atende 202 famílias nas Ilhas Jutuba, Urubuoca, Longa, Nova e Paquetá. 
Os moradores recebem um sistema de vasos sanitários artesanais, compostos por três peças básicas: cisterna, vaso e plataforma. Ele permite transformar os dejetos humanos em um forte adubo orgânico, misturando-os com serragem, folhas secas e cal. O material passa seis meses em um processo que não exala odor, não desperdiça água e não contamina a baía do Guajará. Até a urina tem sido reaproveitada, pois misturada com borra de café e exposta ao sol por 15 dias, já se provou um eficiente inseticida. “Temos famílias que estão comercializando esses produtos, algumas venderam a saca de adubo a R$ 400 e uma garrafa de 2 litros de inseticida a R$ 20. Além de preservar o meio ambiente, melhorar as condições sanitárias, ainda gera renda”, destaca o diácono Miguel Pinto, responsável pelo projeto. 
A previsão é que até o fim deste ano, mais 11 unidades de sanitários sejam instalados, alcançando 100% das famílias na Ilha Paquetá. Segundo o diácono, uma das dificuldades é conscientizar a população local sobre a importância de seguir as instruções corretamente, mas a participação dos moradores tem crescido muito. “Também estamos pensando em formas de melhorar a logística, uma vez que cada conjunto para instalação, feito de concreto, pesa cerca de 380 kg. Estamos procurando materiais mais leves. Também investimos em projetos de captação e desinfecção da água, fundamental para melhorar a vida dos ribeirinhos”, complementa. 
Moradora da Ilha de Urubuoca, a pescadora Jacqueline Costa, 50, diz que não tem a menor vontade de voltar a usar os banheiros a céu aberto. “Essa iniciativa foi ótima para a nossa família, melhorou muito a nossa condição sanitária. O adubo produzido rende bastante, ajuda muito e queremos até aumentar nossa plantação. O inseticida funciona muito bem com as formigas”, ressalta. O único problema é a falta de compromisso de muitas famílias, que continuam usando os antigos banheiros, despejando os dejetos na lama e no rio. “Se todos implantassem o sanitário ecológico, seria um lugar com mais higiene. As crianças adoeceriam menos, já que usamos a água do rio para tudo”, observa.

Energia interliga os eixos e garante o sucesso da cadeia produtiva

Projetos como esses estão sendo apresentados e discutidos no III Fórum Paraense de Tecnologias Sociais e na IV Mostra de Tecnologias Sociais, no Campus II da Universidade do Estado do Pará (CCBS/UEPA). Os eventos, que começaram ontem e continuam hoje durante todo o dia, são promovidos pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Técnica e Tecnológica (Sectet), com apoio da RTS/PA. A entrada é gratuita e aberta ao pú- blico em geral, com palestras, oficinas e exposições. O tema central do Fórum é “Energia e Desenvolvimento Social”, mas também foram realizados quatro workshops sobre “Energia”; “Água e Saneamento”; “Telecomunicações e Inclusão Digital”; e “Emprego e Renda”. 
Para o diretor de Ciência e Tecnologia da Sectet, João Tavares Pinho, todos os eixos estão interligados, mas pensar em alternativas para a energia é de suma importância para qualquer outra ação. “Sem a disponibilidade de energia não há possibilidade de comunica- ção a distância, de atendimento com água tratada de qualidade para uso humano, de aproveitamento em processos produtivos que geram emprego e renda para a população”, pontua. O envolvimento da comunidade é outro fator essencial para garantir o sucesso das tecnologias voltadas ao desenvolvimento social.
Segundo ele, na maioria das vezes, a ideia de mecanismos ou de ajustes em um projeto vem do usuário final, do morador da comunidade onde a TS está sendo implantada. “Interação é a palavra-chave e uma característica importante do Fórum. Se por um lado, a energia é o básico para você fazer qualquer trabalho, o principal objetivo é a geração de emprego e renda, pois assegurando a capacitação e a qualificação da comunidade, o impacto é sentido em toda a cadeia produtiva”, complementa. 
O foco do Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Alternativas Energéticas (Gedae), da Universidade Federal do Pará (UFPA), é justamente proporcionar energia aos lugares onde isso ainda é uma deficiência. Em exposição na IV Mostra, eles explicam os sistemas montados pelo grupo e implantados em vários pontos da Amazônia, envolvendo energia eólica, solar e biomassa. “Nossa região tem índices de radiação muito superiores aos lugares da Europa onde a energia solar é melhor utilizada. Temos muito potencial e, de fato, os painéis solares (ou fotovoltaicos) são muito viáveis e já são muito utilizados no Pará”, avalia o bolsista de doutorado Max Nascimento. 
Dentre os projetos voltados para energia, o Barco Solar e Oficina Solar são destaquea, desenvolvidos em parceria entre a Universidade Federal de Santa Catarina e o Gedae. A embarcação sustentável, batizada de “Aurora Amazônica”, foi lançada no mês passado e é composta por dois conversores de corrente contínua para corrente alternada, dois motores elétricos WEG responsáveis pelo sistema de propulsão com sistema de refrigeração à água, banco de baterias com autonomia para cinco horas de navegação e capacidade total de 22 pessoas. No momento de atracação do barco, ele pode ser carregado conectando-se ao terminal elétrico da oficina solar, tendo um banco extra de armazenamento de energia, o que permite que ele possa ser recarregado mesmo nos períodos de vários dias de chuva, comuns na Região Amazônica. 
Expandir esses mecanismos é o desafio. Em várias comunidades, não é novidade usar energia solar para bombear água e para alimentar sistemas autônomos, que por sua vez, podem proporcionar iluminação e o uso de rádios e televisões a locais onde a rede elétrica não chegou. Max citou os municípios de Maracanã, Marapanim e Ponta de Pedras, além do distrito de Mosqueiro, como exemplo de pontos de implantação dessas tecnologias sociais. “Temos projetos de balsas itinerantes com sistemas híbridos de captação de energia, que circulariam pelo Arquipélago do Marajó. Ainda que seja possível comprar kits prontos para captação de energia solar e montagem de sistemas autônomos, é preciso aumentar o investimento nessa área para diminuir os custos e aumentar o alcance”, conclui.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Banco comunitário estimula economia

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 22/10/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação

Com as compras no caixa, o cliente pergunta: “aceita moqueio?”. O questionamento parece estranho, mas é bastante natural na Baía do Sol, comunidade localizada na Ilha de Mosqueiro, em Belém. O termo é usado para descrever uma técnica indígena de conservação do pescado, mas por lá, o moqueio (M$) é uma moeda social que circula nos estabelecimentos e no Banco Comunitário Tupinambá, que completou seis anos de atuação no local e está transformando a realidade econômica de cerca de oito mil moradores. Com valor equivalente ao do real, o dinheiro complementar é utilizado no pagamento de mercadorias, serviços e contas, cumprindo o importante papel de fortalecer a economia local. Antes da iniciativa, apenas 2% dos moradores compravam internamente. Agora, esse número saltou para 84%. 
Os significativos resultados já renderam várias premiações e a mais recente foi ser um dos 20 projetos selecionados em todo o país no prêmio de “Melhores Práticas Sociais”, da Caixa Econômica Federal. Enquanto a equipe de reportagem conversava com os coordenadores do Instituto Tupinambá, Marivaldo do Vale e Ivoneide Vale, vários eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos chegaram para entrega à sede da ONG, como parte do Prêmio Consulado da Mulher de Empreendedorismo Feminino. Eles venceram a disputa com o projeto Ceci, outro braço do instituto, cujo foco é o empoderamento das mulheres, mas que está diretamente ligado ao banco comunitário. 
Para compreender melhor como essa cadeia funciona, Marivaldo explica que o objetivo da moeda social é fazer com que o capital circule no próprio bairro. Estimulando moradores e empreendedores a comprarem de fornecedores locais, é possível aumentar o poder de comercialização, gerando trabalho e renda e, assim, contribuir para o desenvolvimento da comunidade. “Pesquisas que realizamos ao longo dos anos nos mostraram que era de R$ 30 o gasto por pessoa para se deslocar até a Vila de Mosqueiro para realizar as transações bancárias. O banco proporciona uma economia de pelo menos R$ 90 mil por mês, só pelo simples fato dos habitantes não terem que sair da Baía”, afirma. 
Durante a entrevista, a movimentação de clientes era intensa no Banco Tupinambá, pois era dia de pagamento do programa Bolsa Família. Eles firmaram convênio com a Caixa Econômica há três anos e realizam todos os serviços de uma agência comum, o que atualmente significa uma média de três mil atendimentos mensais. Os usuários podem, inclusive, fazer empréstimos com o moqueio. “Antes do Banco Comunitário, as famílias iam receber a Bolsa ou fazer qualquer outro tipo de transação fora da Baía do Sol. Por causa da distância, muitos também almoçavam e faziam as compras na Vila. Pouco desse recurso chegava aqui. Agora, quase 100% da demanda financeira fica na comunidade, dando mais chance de crescimento aos comerciantes daqui”, reforça. 
Dois tipos de empréstimo são praticados pelo Banco: o produtivo, que é negociado em reais e voltado aos empreendedores, e o de consumo, realizado em moqueios para os moradores. Segundo Marivaldo, a moeda social possui um lastro (fundo sem o qual ela não poderia circular na comunidade) de R$ 8 mil, o que possibilita atender com empréstimos em torno de 300 famílias. As mães do Bolsa Família tem um crédito especial de M$ 30 por mês, pagando uma taxa de R$ 0,10 a cada M$ 10. “Muitas delas têm apenas o programa como fonte de renda e a ideia é que não falte o pão na mesa. Elas também recebem aulas de educação financeira, assim como todos os clientes que fazem empréstimo conosco”, informa. 
Os empréstimos de consumo variam entre M$ 30 e M$ 150. Em seis anos, mais de 3.400 empréstimos já foram realizados, movimentando um valor de M$ 144 mil. Apenas três casos de inadimplência foram registrados em todo esse período e Marivaldo acredita que o envolvimento da comunidade no funcionamento do banco contribui para o fortalecimento. “A gente busca fazer eles entenderem que o Banco Tupinambá não é nosso, é de cada um que já se beneficiou com a circulação do moqueio. A comunidade tem crescido muito nos últimos anos, tanto que não está sendo atingida pela crise da mesma forma que o resto da capital”, observa. 
De fato, vários comerciantes e mães de família da região afirmaram ainda não terem sentido os impactos por causa do momento difícil da economia brasileira. Alguns até conseguiram expandir o comércio. “Talvez a crise se reflita mais no recurso que não está vindo, uma vez que a Baía do Sol sempre foi uma comunidade muito desassistida. No entanto, a gente observa que tem várias construções, que o que está aqui consegue alavancar”, avalia Ivoneide. Ela pontua que o crescimento é fruto de um processo de conscientização social dos habitantes. Quando o Instituto começou, ela lembra que não existiam açougues apropriados e só havia uma panificadora, além da maioria dos comerciantes serem informais. 
“Muita gente também não comprava aqui porque os vendedores não aceitavam cartão de crédito. Os produtos eram caros e não tinha muita opção, porque a competitividade era muito baixa. Com base em estudos, pautamos melhorias e fomos vencendo deficiências. A comunidade entendeu e começou a se formalizar”, recorda. De acordo com ela, apostar em quem estava com crédito negativado, concedendo empréstimo social e dando orientações financeiras, também se mostrou uma boa escolha. “Não somos uma casa lotérica, em que as pessoas pagam e não existe relacionamento algum. Somos um banco comunitário, somos moradores locais. A gente acaba sendo assistente social e psicólogo, às vezes, e isso é muito importante”, destaca.
Projeto promove capacitação técnica e produtivas às mulheres
Foi a partir dessa inquietação que surgiu, há três anos, o projeto Ceci Mulheres. Quase 30 mulheres que recebem o Bolsa Família têm crédito no Banco Comunitário e desejam empreender participam da iniciativa. Ivoneide diz que a demanda surgiu logo após o convênio com a Caixa. “Percebemos a vulnerabilidade de muitas mulheres que recebiam o Bolsa conosco, mas estavam em situações de violência doméstica, drogadição e alcoolismo”, detalha. A ideia do Ceci é beneficiar essas mães através de capacitação técnica e produtiva em diversas áreas, inclusão financeira e acompanhamento social. Para ela, ainda que a quantidade de pessoas atendidas pelo projeto pareça pequena, o impacto vai ser grande. O prêmio do Consulado da Mulher garantirá a elas dois anos de acompanhamento técnico.
“Elas nunca mais serão as mesmas. E é por elas que passa a educação da futura geração. Se essas mães não estiverem bem, não criarão bem os seus filhos. A gente quer disseminar na comunidade a ideia do protagonismo. De fazer algo pelo ambiente em que está inserido, sem esperar pelo poder público para mudar a realidade”, declara. No mês que vem, representantes do projeto Ceci viajarão pelo Nordeste para criar a Associação das Mulheres Emancipadas do Programa Bolsa Família entre o Norte e o Nordeste. O objetivo é reunir mulheres, que conseguiram se estabilizar e se tornaram mais independentes, a abrir polos de atendimento e alcançar mais pessoas.
E-DINHEIRO
Outra ação na qual o Instituto Tupinambá está trabalhando é a implantação do e-dinheiro, a moeda social eletrônica que será utilizada por todas as 110 instituições da Rede Brasileira de Bancos Comunitários. A previsão é que ela esteja rodando em todo o país em março do ano que vem. Marivaldo explica que o maior ganho é a mobilidade e que cada banco movimentará a sua moeda própria dentro do fundo que dispõe. “O aplicativo vai permitir que eu movimente o moqueio, por exemplo, para pagar um boleto ou até trocá-lo por reais”, adianta. A ideia já foi apresentada para os clientes do banco e a dona Raimunda da Silva, 51, já está cadastrada.
Ela é proprietária de um mercadinho e se rendeu ao uso do moqueio há quatro anos, depois da insistência dos clientes. “Eles sempre perguntavam se aceitava pagamento em moqueio, até que resolvi aderir e não tive nenhum prejuízo, pelo contrário. Aumentou a fidelidade dos clientes”, conta. Na fila do caixa, ela estava com vários boletos e muitos moqueios em mãos. Raimunda utiliza a moeda social no pagamento de boletos e para facilitar o troco aos clientes. Com as informações sobre empreendedorismo, ela tem gerenciado melhor os negócios e conseguiu aumentar o espaço do comércio, além de ter comprado um freezer novo. Valdenira Villaça, 27, é vendedora em um armarinho e garante que o moqueio circula como uma moeda normal na Baía do Sol.
“É uma moeda totalmente comum na nossa rotina. Usamos pra comprar desde crédito pra celular até açaí com farinha, remédios e tudo mais. Alguns estabelecimentos até dão 5% de desconto para quem pagar em moqueio. Tudo isso faz o dinheiro circular aqui”, comenta. Ela, que tem duas filhas e recebe o Bolsa Família, também faz parte do projeto Ceci, não tem dúvidas do retorno positivo que tem com os projetos. “Faço os empréstimos mensais de M$ 30, é um valor que me ajuda bastante. E com os treinamentos de educação financeira, mudou a minha visão sobre o assunto. Antes, achava que só saindo daqui poderia ter uma renda, mas hoje entendo que posso investir aqui mesmo”, diz.
A universitária Valéria Barbosa, 31, acredita que o projeto merece mais visibilidade, pois tem ajudado muitos moradores da área. “A aceitação da moeda é muito boa, as pessoas se sentem seguras utilizando o moqueio e o comércio local tem se desenvolvido bastante com esse fortalecimento, o que resulta numa melhor qualidade de vida para todos”, pondera.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Aventuras, mistérios e risadas com a turma do Bolachão


     Volto a falar da entrevista mais prolongada que já fiz. Dura quase 10 anos a minha troca de mensagens com o escritor João Carlos Marinho e este foi o tema da minha postagem anterior (para ler a primeira parte, clique aqui). Foi maravilhoso ver o carinho com que meu texto foi recebido pelo autor e por seus leitores. Nas próximas linhas, divido algumas falas pessoais do criador da Turma do Gordo sobre prêmios literários, "arrependimentos", linguagem e estilo. É fácil perceber a ligação afetiva que ele estabelece com o público que aprecia sua obra, não importa a idade.

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       Depois que eu recebi a resposta dele sobre as mudanças da mãe do Gordo, fiquei curiosa sobre o processo de edição dos livros, queria saber exatamente como funcionava. E ele, solícito como sempre, esclareceu a minha dúvida.
JCM: Fico feliz que você gostou da mudança que eu fiz na mãe do Gordo. Ela era uma mulher desagradável e grosseira, não combinava com a família. Agora ela ficou ótima, inclusive muito valente, participa das aventuras, gosta da Berenice. A possibilidade de fazer alterações nos livros veio porque a editora resolveu dar uma nova forma aos meus livros, ficaram maiores, mais bonitos, e para isto foi preciso fazer uma nova editoração eletrônica, quer dizer, fazer novas provas dos livros, e então aproveitei para mudar a mãe do gordo no novo Livro da Berenice. Antes eu não podia mexer, como daqui para frente não posso mais, porque o livro é filmado e basta a edição ir se esgotando que eles imprimem automaticamente. 
       Ainda no mesmo assunto, o questionei sobre as motivações para fazer tais alterações tanto tempo após a publicação de uma obra que teve boa aceitação. Ele tinha algum arrependimento em relação aos livros escritos? João Carlos é sincero na resposta e diz:
JCM: Não é bem me arrependo, não, mas eu constato que nos livros "O Livro da Berenice", "Maníaco Janeloso" e "Cascata de Cuspe", eu tenha levado o livro tão bem até os três quartos e que poderia ter esperado mais tempo para terminar melhor. Eu gosto muito destes livros, mas hoje eu teria ficado com os originais mais tempo para fazer um fim à altura do resto. Mas não vou mexer, vai ficar assim mesmo. Ruim não está, mas poderia ter sido melhor.
    Algum tempo depois, retomamos a conversa e eu o comuniquei da minha decisão de cursar Jornalismo. Ele me desejou felicidades na carreira e comentou que eu tinha "uma excelente redação e um estilo muito vivo, com certeza é a sua vocação e, principalmente, curiosidade, essencial para a profissão, como esta que você teve de escrever ao autor do livro que você gostou". Em seguida, compartilhou um breve relato de sua passagem pela capital paraense, na década de 70. 
JCM: Como eu já lhe disse eu estive em Belém, foi em janeiro de 1973. Eu vinha de Manaus com minha mulher, o Sr. Francesco, um italiano, pai de um falecido amigo meu de quando eu morei na Europa e que sempre me recebia nas férias, a minha cunhada e o meu concunhado Ozório. Nosso destino era uma fazenda de gado que ele tinha perto de Belém (não muito perto por causa da estrada horrível). Estávamos no hotel e aí recebi um telefonema de São Paulo dizendo que a minha querida avó, a quem dedico o Gênio do Crime, estava morrendo. Então deixei meus amigos e minha mulher continuarem e viagem para a fazenda e na manhã seguinte, bem cedinho, peguei um avião da Varig. O avião fazia escala no Rio antes de vir para São Paulo. Quando o avião levantou vôo, a aeromoça chegou para mim e disse que eu tinha jeito de estar acostumado a voar mas havia um senhor no avião que nunca saíra de Belém na vida e que nunca andara de avião na vida, e que ia ao Rio de Janeiro para o casamento da filha. Então eu fui sentar ao lado dele, puxei conversa , e era um senhor muito simpático. Eu tinha 37 anos na época e minha filha Cecília tinha cinco, aquilo de casar uma filha me parecia uma coisa muito longe, quase impossível, uma coisa dum outro planeta, e aqui estou eu hoje, com a minha filha que tinha cinco anos casada e já com uma filha, a minha neta Gabriela. Isso me ficou na cabeça, aquele senhor que nunca saiu de Belém e nunca andou de avião. Não se preocupe com o "Assassinato", você vai fazer vestibular, está na hora de ler Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos e outros clássicos que caem no vestibular. Quando você casar, que nem a filha daquele senhor, e tiver um filho, aí você compra para ele.
     O trecho acima é um exemplo de uma característica que muito me agrada nesse contato com o João Carlos Marinho. Mesmo por e-mail, que costuma ser um canal mais impessoal, ele consegue imprimir leveza e espontaneidade à conversa, que tem repetições e digressões, naturais no nosso cotidiano. Interessada em manter o diálogo e ainda curiosa, perguntei sobre os prêmios conquistados com os livros. Qual ele achava que era o impacto das premiações na repercussão e venda das obras?
JCM: A minha grande satisfação com os livros que escrevi não são os prêmios. Os prêmios literários no Brasil não tem grande repercussão, acho que é na música, estes concursos internacionais de pianistas e outros instrumentos, que os prêmios ajudam muito na carreira. Talvez no cinema com os Oscar e os prêmios do Festival de Cannes. Veja que nunca na minha vida eu comprei um livro porque ele tinha ganho um Prêmio Nobel de Literatura. Nem sei quem ganhou o último. As pessoas que eu conheço também não compram livros por causa de prêmios. Talvez o Goncourt na França, pela tradição, por ser a França. O que eu gosto mesmo é de continuar sendo lido por todo o Brasil, tem você, uma leitora tão longe como Belém, ontem recebi quatro e-mails de Goiânia, é isso que eu gosto. E depois acabei fazendo o que eu queria, cumpri a minha vocação, o meu sonho de criança.
     A partir daí, diminuímos o ritmo da troca de mensagens, mas o escritor é muito atencioso e sempre me enviava convites para a participação dele na Bienal do Livro, em São Paulo.
JCM: Eu sei direitinho o que você vai dizer: não posso ir, moro em Belém, avião é caro, pior, é perigosíssimo, tem lugar que nenhum radar sabe nada, eu fico aqui. Tá bom, falou, mas não podia esquecer de você, principalmente pelo entusiasmo com os meus livros e também por aquela engraçadíssima história da devolução do Caneco que meus filhos adoram, eles morrem de rir quando eu conto. E é profundo, o que você fez está inteiramente no espírito do Caneco de Prata (...)
    Nesse meio tempo, continuamos nos falando e ele sempre me avisava quando entrava um vídeo novo sobre a Turma do Gordo no site da editora ou compartilhava algum fato interessante, como a festa de 40 anos de lançamento de "O Gênio do Crime" ou outros leitores desavisados que estranharam o "Caneco de Prata".
JCM: De Copa do Mundo em Copa do Mundo, de Bienal em Bienal, a gente vai empurrando a vida. Acho que essa é a terceira vez que eu te mando convite e vou continuar mandando até o fim das Bienais e a última Copa do Mundo. Como vai o seu curso de jornalismo? E o seu blog? Pela foto que eu vi no blog você já está praticamente uma mulher, mas é isso mesmo, de Bienal em Bienal a gente vira homem, vira mulher, fica moço, fica velho, e toca o bumbo! Um abraço.
    Pouco depois, fiz umas fotos minhas e do meu irmão (que também leu os livros por minha influência), cada um mostrando os seus títulos preferidos. O Gênio do Crime, Sangue Fresco e Conde Futreson foram as nossas escolhas. Entre outros emails, um dos mais interessantes que recebi dele foi o que compartilhou a entrevista concedida para uma pesquisa de mestrado. Na mensagem, ele diz: 
JCM: Querida Brenda, você sempre se interessou pelos videos e notícias da minha literatura. E você sabe que considero você uma leitora histórica e muito ligada aos meus livros. Saem às vezes umas coisinhas que não vale a pena perder tempo mas esta entrevista de uma professora para o mestrado dela, não por ser entrevista, há muitas, mas nessa aqui eu consegui, talvez pelos meus 77 anos, ter uma visão bastante clara do que eu fiz e me senti bem com as respostas que dei. Mando em anexo. Isso está, junto com outras coisas, na seção Noticias do meu site, mas mando para você para tê-la no seu computador. Fiquei muito feliz de você ter gostado do Gordo contra os Pedófilos e do meu rap. O meu rap saiu legal! Acertei a mão.
     Uma das perguntas da entrevista é sobre a relação do autor com linguagem e estilo, ao que ele responde que escreve o "delicioso português brasileiro que se falava em casa"."É um ritmo delicioso que se aprende no berço e que forma uma estrutura dentro da gente: é a própria estrutura da gente. Você vê que o Gênio do Crime está lá há 43 anos, nada foi mudado, e as crianças de todo o Brasil entendem imediatamente a minha linguagem", defende. Em meu comentário, destaquei que considero o diálogo construído tão próximo da realidade uma das grandes sacadas da obra dele. Nas páginas de seus livros, lemos as repetições, a prolixidade e os desvios de raciocínio que praticamos diariamente, o que gera uma identificação imediata. A entrevista completa está disponível no site da editora Global (www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho/perguntas.html) e aborda a violência ingênua e hilária de seus enredos, entre outros temas. Também recomendo a leitura do processo de produção do livro Sangue Fresco (www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho/passoapasso.html).

Para finalizar, destaco mais um momento especial: A surpresa maravilhosa que tive quando visitei a Ilha do Marajó, aqui no Pará, a trabalho para conhecer um projeto que implanta bibliotecas comunitárias no interior da Amazônia e me deparei com o Gênio do Crime amarrado a uma frondosa amendoeira. As crianças atendidas pela ONG nos receberam debaixo da sombra de várias árvores, com muitos livros pendurados pelos galhos, que balançavam pelo vento incessante da praia. Confesso que me emocionei quando dei de cara com a Turma do Gordo lá na vila do Caju-Una, perto de Soure, onde a gente chega de canoa ou de carro por dentro de uma fazenda. Percebi a força e o alcance que a literatura pode ter, capaz de encantar tanta gente. Sobre o projeto, a matéria está aqui no blog: http://brendapantoja.blogspot.com.br/2015/11/vaga-lume-encanta-de-livros-o-marajo.html
    Agradeço ao João Carlos Marinho pela autorização em publicar as mensagens e pelo carinho com os leitores. A Turma do Gordo sempre terá lugar especial na minha estante.

sexta-feira, 11 de março de 2016

O reverso do revirado*



Uma edição antiga e gasta, sem a capa e com um cheiro forte de cigarro. Foi assim que "O Gênio do Crime" chegou às minhas mãos pela primeira vez, aos 10 anos de idade. Veio emprestado de uma amiga da minha mãe, que fez questão de receber o livro de volta. Hoje eu entendo o apego dela à obra, porque eu mesma não sosseguei até comprar o meu próprio volume e depois a coleção inteira do escritor João Carlos Marinho. Até os empresto, mas só fico tranquila quando eles retornam para mim.
      "O Gênio do Crime" é a primeira aventura da Turma do Gordo e, ao todo, já foram publicados 13 livros com os mistérios e as façanhas do Bolachão (também conhecido como Gordo), a Berenice, o Edmundo, o Pituca, o Godofredo, a Sílvia, o mordomo Abreu, o frade João e muitos outros personagens. Os títulos da Turma do Gordo me acompanharam também na adolescência, passaram pelas mãos do meu irmão mais novo e de alguns amigos que pegaram o gosto pela leitura por causa da coleção. Foi lançado em 1969 e tornou-se um clássico da literatura infantojuvenil, tendo ultrapassado a marca de 70 edições. Na sequência, "Sangue Fresco" (um dos meus preferidos!) recebeu o Prêmio Jabuti, o Grande Prêmio de Literatura Juvenil da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e foi considerado Altamente Recomendável para o Jovem pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). 
      Sendo assim, quase 10 anos atrás, movida pela curiosidade, enviei um e-mail ao autor pelo site da editora e iniciamos uma correspondência periódica que se mantém até hoje. Ainda estava na escola, mas o instinto do jornalismo era mais forte e fiz uma espécie de entrevista com o "caro João Carlos" (era como começavam a maioria das minhas mensagens) ao longo de vários e-mails. Perguntei sobre o processo de escrita, de edição, linguagem, construção de personagens e a carreira de escritor. Infelizmente, pela falha de confiar cegamente na tecnologia, perdi as perguntas que elaborei, mas consegui resgatar as respostas enviadas por ele, que autorizou a reprodução delas aqui no blog. Eu acredito que a nossa conversa se iniciou em 2006 ou 2007, não tenho certeza. 
     Logo na primeira mensagem, contei a ele uma história inusitada que passei com um de seus livros. "O Caneco de Prata" é apresentado pelo próprio João Carlos Marinho como uma "aventura surrealista". Com essa proposta, a paginação e a numeração dos capítulos são diferentes do usual. Aquilo me intrigou muito, tanto que cismei que precisava voltar à livraria para trocar a edição. Só acreditei que estava tudo certo depois que liguei para o vendedor, que era meu conhecido, e pedi para ele comparar com outros exemplares. A resposta do escritor não demorou a vir: 
JCM: Você é uma leitora entusiasmada, pelo jeito de escrever eu sinto. Muito engraçado o que aconteceu entre você e o Caneco. O Caneco é assim mesmo, hiperloucura. Desconcentra, baratina (...) Eu conheço Belém, é uma cidade muito linda, cheia de mangueiras na praça.
    Achei aquilo o máximo! Fiquei empolgada por poder conversar com alguém tão admirado. Tirei uma dúvida com ele sobre a idade do Gordo, que continua com 10 anos mesmo tendo ido e voltado ao espaço nos livros O Disco I e II, pois o autor resolveu aplicar a equação de Einstein sobre a relatividade do tempo e mantendo, assim, essa fase gostosa da infância da turma. Aí eu questionei sobre os vilões, queria saber qual era o preferido dele.
JCM: Que bom que você gosta do Zé-folha. Ele é um rei de alta categoria apesar de ter dado uma dentada na orelha da Berenice. Os grandes vilões, aqueles absolutamente perversos e monstruosos, são, se a memória não me falha: o anão do Gênio do Crime, Ship O'Connors, Papoulos Scripopulos, o Conde Futreson, o doutor Sovograu (do Disco II- A Catástrofe do Planeta Ebulidor) e o Chefe (do Gordo contra os Pedófilos).Tem ainda o "alemão nazista" do Caneco de Prata. Eu gosto muito, e até me identifico, pois fui absolutamente fanático por futebol, com o Prof. Giovanni, ele é um vilão, mas não está entre aqueles "repulsivos". Pelo contrário, ele é humano e engraçado e até não deixou o alemão nazista colocar vírus do câncer na bomba bacteriológica. Dos repulsivos fica difícil escolher. O Conde Futreson é ótimo, mas em parte eu tomei emprestado do Drácula que já existia, talvez o Ship seja o mais humano, mas acho que a frieza absoluta e a grande classe para ser mau do anão acaba ganhando. Sua pergunta é difícil.
     Os meus vilões prediletos eram o professor Giovanni, o Ship O'Connors (particularmente prefiro o apelido Shipo Croma) e o Kuntz, que aparece em "O Livro da Berenice". João Carlos aprovou minhas escolhas, mas fez uma ressalva:
JCM: O Kuntz é bom também, fez uma confusão, o gordo tirou a orelha dele pensando que era do Abreu, mas o Kuntz pode ser classificado na categoria dos "vilões secundários, empregados do vilão principal", como são o Atlas, o Almeidinha, aqueles médicos alemães que tiram sangue do gordo no acampamento da Amazônia, etc. Eu tenho um certo jeito para fazer "homens maus", sem eles os meus livros seriam menos emocionantes e menos engraçados. Quem tem aparecido muito nas últimas histórias, como gente boa, é a mãe do gordo , a dona Belinha e o doutor Paixão. A mãe do gordo, depois de "Catástrofe", está tendo uma participação especial,o pai também. A velha dona Belinha está cada vez mais irresistível. 
     Aproveitei a deixa dele e perguntei sobre a mudança gradativa na participação e na personalidade da mãe do Gordo. Foi quando ele revelou uma das poucas - se não a única - modificações estruturais que fez nas histórias. Também devo ter comentado algo sobre o namoro do Bolacha com a Berê, pois ele responde que "romance na idade de dez anos tem que ser superficial, inclusive a Berenice só continua a ser inconstante até o Berenice Detetive, onde ela namora o Anderson, agora quietou".
JCM: A mãe do gordo implicou com a Berenice até o Livro da Berenice, que está saindo na edição nova e eu tirei as implicâncias. É porque a mãe do gordo estava "fora" da turma. Como ela foi entrando na turma e participando nas aventuras com heroísmo até, decisivamente até, não tinha cabimento continuar contra a Berenice. Isso é um capitulo apagado, de verdade, porque eu apaguei. Quem continua implicando com todo mundo é o Abreu, mas isso é personalidade dele, que é boa pessoa, as crianças gostam dele.
     O restante das informações vai ficar para uma "parte dois" porque esse post já está muito grande. Decidi compartilhar as mensagens que trocamos pelo carinho que tenho por toda a obra do João Carlos Marinho. Eu já gostava de ler quando conheci o trabalho dele, mas a coleção foi como um sopro de vivacidade para aquela jovem leitora. Não costumava rir sonoramente durante minhas leituras, mas com a Turma do Gordo eu gargalhava e me divirto até hoje quando revisito as páginas.

     No próximo texto, as respostas do escritor sobre arrependimentos, suas memórias de Belém do Pará, os prêmios, os diálogos maravilhosos da Turma do Gordo e os convites afetuosos para a Bienal do Livro, em São Paulo. 

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Mais informações sobre a obra e a vida de João Carlos Marinho estão disponíveis no site www.globaleditora.com.br/joaocarlosmarinho. A página traz, ainda, vídeos muito interessantes em que ele explica o trabalho de pesquisa, a história por trás da produção, além de registros de eventos com os leitores. 

*Fazer "o reverso do revirado" depois de "seguir ao avesso" o cambista é a ideia brilhante do Gordo para investigar o mistério da falsificação das figurinhas em "O Gênio do Crime"

quinta-feira, 10 de março de 2016

Projeto visa desmistificar a matemática

*Publicado na página Responsabilidade Social, no jornal O LIBERAL de 17/09/2015

BRENDA PANTOJA
Da Redação


E se as crianças gostassem de matemática? A temida disciplina deixaria de ser vista como um bicho de sete cabeças, melhorando o rendimento escolar e tornando os alunos mais seguros também em outras áreas. É nisso que acredita o projeto “Círculo da Matemática”, promovido pelo Instituto TIM em todo o Brasil há dois anos e que começa a ser ampliado no Pará. Oito escolas em Belém e uma em Marabá já integram a rede. Felipe dos Santos, de 8 anos, cursa o 1º ano do Ensino Fundamental na Fundação Escola Bosque (Funbosque), em Outeiro, e já compreende a importância dos conceitos matemáticos para a vida escolar. Ele sonha em ser jogador de futebol e diz que é preciso se esforçar nos estudos para alcançar este objetivo. 
“Matemática é o que eu mais gosto de estudar, ainda mais quando tem jogos e brincadeiras”, conta. A abordagem participativa e lúdica do projeto estimula os estudantes a desenvolver o raciocínio, o senso crítico e o interesse pelo conteúdo. Felipe é um dos 920 alunos integrantes do “Círculo” na capital paraense. O projeto consiste em aulas semanais para crianças entre 7 e 10 anos de idade e com turmas pequenas, de no máximo 10 pessoas. Não há lição de casa nem caderno para copiar as tarefas.
O método diferenciado tem trazido bons resultados, uma vez que os participantes do projeto melhoraram o desempenho em matemática em média 7,3%, no ano passado. Esta foi a média nacional, enquanto Belém registrou rendimento de 3,2%. Ainda que o índice pareça baixo, o desenvolvimento é visível para os professores. Felipe e os coleguinhas Ruan dos Santos, 8, e Luemily Borges, 7, fazem questão de responder às tarefas no quadro e de interagir com a professora Manoela Franco, educadora do “Círculo” na Funbosque. “Eu gosto mais das aulas de Português, mas agora eu também gosto quando tem aula de matemática porque a gente aprende muita coisa legal”, afirma Ruan, com a sinceridade e a simplicidade característica das crianças. 
A ideia é atacar o problema na raiz e combater a realidade mostrada pelos levantamentos do Ministério da Educação (MEC), que mostram que apenas 42% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental dominam operações simples como adição e subtração. “Muito se fala na necessidade de melhorar a qualidade da educação brasileira, mas pouco se faz para melhorar este cenário. Os primeiros anos de formação acadêmica são fundamentais para definir a trajetória escolar do aluno”, defende o coordenador do projeto no Brasil, Flávio Comin. 
Ele explica que a “pedagogia estruturada” utilizada pelo “Círculo da Matemática” foi desenvolvida por Robert e Ellen Kaplan, professores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Para a implantação do projeto, cerca de 50 educadores de todas as regiões foram selecionados e enviados para fazer o treinamento com os criadores. Neste ano, a iniciativa entrou em uma nova fase e começou a realizar formações ministradas pelos professores treinados inicialmente. O público-alvo é composto por docentes da rede pública e a meta é formar 1.800 profissionais em 20 cidades, até o fim deste ano. 
Comin reforça que a estratégia trabalha não apenas a habilidade de contar dos alunos, mas os faz pensar de forma independente. “O Círculo vai além disso e desmistifica o erro. Ao trabalhar a cooperação e valorizar o envolvimento do aluno, isso faz com que ele perca o medo de errar e aprenda a atuar em equipe. Neste sentido, tem um viés de cidadania, pois estimula o pensar lógico e o pensar cidadão”, pontua. O efeito das aulas matemáticas é refletido no desempenho escolar e na comunidade onde o aluno está integrado. 
“O estudante, especialmente aquele que passa mais de um ano no projeto, tem menos chances de abandonar a escola e, consequentemente, melhores perspectivas. A matemática ficando mais acessível, também melhora a imagem do ambiente escolar”, observa. O coordenador do projeto diz, ainda, que esta mudança de postura vale até para os pais que não tiveram boas experiências com os estudos, pois deixam de pensar na escola como um lugar de fracasso, mas sim de êxito. 
Sobre as particularidades do “Círculo da Matemática” no Pará, Comin menciona as dificuldades enfrentadas pela educação em um estado tão vasto. “A região Norte como um todo apresenta índices educacionais sistematicamente piores, daí a importância de investirmos no setor e ampliar o projeto nessa área”, argumenta. No entanto, ressalta que o Pará não tem ficado para trás nos resultados alcançados pelo programa, obtendo bons índices assim como o restante do país, levando em consideração a quantidade de crianças atendidas.

Funbosque envolve 79 crianças no “Círculo da Matemática”

Na sala de aula, o carinho com a professora Manoela Franco é grande por parte de todos os alunos. Ela é uma das educadoras que, através do projeto, ajudam a construir uma visão mais positiva sobre o ensino da matemática e a educação no geral. Licenciada em Física e Matemática, ela viu na iniciativa a oportunidade de fazer mais pela comunidade em que trabalha e atualmente é a responsável, sozinha, pelas 79 crianças – divididas em oito turminhas, do 1º ao 4º ano - integrantes do “Círculo” na Funbosque. Em 45 minutos de aula, ela envolve os estudantes em problemas e brincadeiras, sempre fazendo com que a resposta venha deles. “Eles não vêm apenas para sentar, ouvir e copiar. Tento extrair a solução deles, sem acusar quando respondem errado e perguntando o porquê daquela resposta”, destaca. 
Uma vez por semana, os estudantes são liberados durante um horário para assistir à aula do projeto. O padrão é que as aulas aconteçam no contraturno, mas esse formato não funciona na Funbosque, pois muitas famílias moram longe. “Converso com a professora deles para saber o conteúdo e o nível de aprendizado. Deixo o conteúdo por conta dela e nos concentramos nas tarefas e dinâmicas com eles”. Manoela também ensina turmas do nível médio e conseguiu dinamizar a aula dos alunos maiores também, ainda que não sejam o público-alvo do projeto. 
“Muitos já chegam no fundamental II e no médio dizendo que não gostam de matemática e que não serve para nada. É bom mudar isso logo cedo, para não limitar o aprendizado lá na frente”, frisa. Os efeitos não passam despercebidos pelos responsáveis. A dona de casa Angélica Oliveira, 39, é mãe de Ísis Martins, 8, e deseja uma boa trajetória acadêmica para a filha. “Mesmo com dificuldades na matéria, ela está ficando mais interessada em superar e está indo muito bem. Para mim, a matemática e a física foram um peso, mas para ela quero que seja diferente”, conta. 
O extrovertido Ruan dos Santos recebeu muitos elogios da mãe, que está contente com o comprometimento do filho na escola. “Ele já é um ótimo aluno, gosta de estudar principalmente Português, mas notei que ele está com mais vontade de estudar matemática. Acho ótimo, pois é um conhecimento essencial para tudo e quanto antes a gente acabar com isso de detestar essa matéria, melhor para as crianças”, opina.

“Etnoconexões” utiliza a cerâmica para ensinar elementos geométricos

Em Belém, o “Círculo” também funciona nas escolas municipais Amância Pantoja, André Avelino Piedade, Josino Viana e na escola estadual Jonathas Athias. A Secretaria Municipal de Educação (Semec) é parceira da iniciativa e também mantém seus próprios projetos que colaboram para estreitar os laços dos estudantes com a matemática. Na Escola Liceu de Artes Mestre Raimundo Cardoso, no distrito de Icoaraci, o projeto “Etnoconexões entre a arte e a matemática” utiliza o saber local empregado no artesanato da cerâmica para ensinar os elementos geométricos aos alunos.
Idealizado pela professora Rosângela Dantas, ele está em execução há seis anos e já envolveu cerca de 420 alunos, sempre das turmas de 8º ano do ensino fundamental. “Temos aulas teóricas e práticas, com oficinas de cerâmica, de educação patrimonial e expressão gráfica. Ao envolver arte e cidadania, damos um novo significado à matemática e o resultado vem na vontade de aprender, de fazer parte das aulas”, relata. Segundo ela, a retenção de estudantes pela disciplina ficou mínima desde que o projeto foi implantado. 
Para ela, o trabalho precisa começar pela conscientização dos professores de buscar novos caminhos para desconstruir este bloqueio. Este é o papel do programa Alfamat, também da Semec, que trabalha alfabetização, matemática, leitura e escrita. Elaborado pelo Centro de Informática Educativa (NIED) da secretaria, ele existe desde 2009 e inclui 345 professores. Capacitando os educadores do 4º e do 5º ano, o programa beneficia em torno de 11.758 alunos. Por meio de oficinas, os docentes têm a formação reforçada. Só em matemática, são trabalhadas 28 habilidades. “Desde geometria e leitura de tabelas até medidas de comprimento, muitos professores que aprenderam matemática de forma mecânica tiram dúvidas, aprendem métodos e vão para a sala de aula mais seguros”, salienta Odinéia Lopes, assessora pedagógica do Alfamat. 
A primeira preocupação é contextualizar os problemas e incentivar a diversidade de estratégias, sem se prender a só um caminho para encontrar o resultado correto. O conteúdo visto no programa é aplicado aos alunos na Prova Belém, que serve, com base nos resultados individuais, para diagnosticar onde o aluno está tendo dificuldades no aprendizado. A avaliação é bimensal e nos exames já aplicados neste ano, a média de acertos dos alunos do 4º ano subiu de 41% para 50%. No 5º ano, o índice foi de 52% para 54,6%. “Parece um crescimento pequeno, mas indica um avanço e nós queremos resultados cada vez melhores”, completa.